Agudás, tabons e retornados da África para o Brasil

Apesar de visto hoje em dia como um comércio hediondo, o tráfico de escravos africanos para as Américas durou mais de quatro séculos, e surgiu pouco depois das grandes viagens de exploração dos continentes e o mapeamento das rotas de comércio marítimas. Os povos ibéricos assimilaram o costume dos árabes, que também fizeram da escravidão de africanos uma fonte de ganho fácil.

Os africanos serviam de mão-de-obra para os colonos na América, bem como um importante contingente das tropas coloniais. Com o tempo, os próprios cidadãos europeus tomam consciência do horrendo comércio escravagista, e graças a pressões de cunho religioso, moral e econômico, este passa a ser combatido. Nesse ponto, muitos já haviam conseguido comprar a própria liberdade por meio de carta de alforria, realizando diversos trabalhos no tempo livre disponível.

É nesse contexto que vários escravos libertos ou alforriados fazem a viagem de retorno à África, na crença de que do outro lado do Atlântico poderiam ter uma vida sem preconceito e mais próxima de seus antepassados. Estados Unidos e Reino Unido já praticavam o retorno de populações africanas, e o Brasil passou a imitar tal política por volta da década de 1840. Vale lembrar que a esmagadora maioria desses retornados não rumavam exatamente para os locais onde foram um dia apreendidos. De fato, vários deles eram deixados milhares de quilômetros de suas terras ancestrais, em meio a populações que falavam línguas diferentes, com costumes e religiões diferentes.

Mesmo assim, um grande número de ex-escravos resolveram voltar ao continente africano. Os destinos eram os locais que mais tinham fornecido escravos para o país: as cidades portuárias do Golfo da Guiné, onde hoje estão Gana, Benim e Nigéria. Em Gana, ficaram conhecidos como “tabons”, por se comunicarem em português, e darem como resposta para quase tudo a frase “tá bom”, já que não dominavam as línguas africanas locais. No Benim, foram chamados de “agudás”, devido à ligação que estabeleceram com os portugueses no local, e com sua principal guarnição, a fortaleza São Batista de Ajudá (Agudá = Ajudá ou Ajuda, que por sua vez era o aportuguesamento do nome original do local, “Ouidah”). Na Nigéria, os retornados eram conhecidos como “brasileiros”.

Aparentemente, o regime de escravidão legou uma série de conhecimentos e práticas que se mostraram úteis aos retornados, permitindo que se estabelecessem de maneira confortável seus novos lares, como arquitetos, barbeiros, comerciantes, etc. formando uma classe média eminente. Mas, a ironia é que muitos também se dedicaram a negociar escravos dentro e fora do continente africano, apesar da prática já estar em franca decadência.

Hoje, apesar de completamente integrados às sociedades de seus países, os chamados “brasileiros” ainda mantêm a religião católica, os nomes como Silva, Fonseca, Justo, Souza, etc. Já não utilizam mais a língua portuguesa, mas preservam cânticos e rezas aprendidos pelos seus antepassados em terras brasileiras. Como destaque da presença desses retornados, podemos citar a mesquita de Porto Novo, um projeto dos brasileiros. Apesar de ser um templo islâmico, tem a aparência de uma legítima igreja baiana. É importante mencionar ainda a figura de Sylvanus Epiphanio Olympio, descendente de brasileiros, que se tornou em 1960 o primeiro presidente do Togo, e acabou assassinado em um golpe de estado três anos mais tarde.

Bibliografia:

Alcione M. Amos, « Afro-Brazilians in Togo », Cahiers d’études africaines [En ligne], 162 | 2001, mis en ligne le 12 juin 2004, consulté le 28 décembre 2013. URL : http://etudesafricaines.revues.org/88

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