Assimilação cultural

Mestre em Ciências Sociais (PUC-Rio, 2015)
Graduada em Ciências Sociais (UERJ, 2012)

O conceito de assimilação cultural descreve o processo em que uma dada cultura absorve, ou assimila, as características culturais de outra. Este conceito é questionado e muito discutido. Seu uso inicial pode ser datado dos primeiros estudos acadêmicos nos Estados Unidos sobre imigração, raça e grupos étnicos e buscavam relacionar a perda da identidade destes grupos com a assimilação da nova cultura em que viviam.

Autores da Escola de Chicago, como Robert Ezra Park, enfatizavam que os imigrantes que chegavam aos Estados Unidos da América, especialmente os que chegaram em consequência da Segunda Guerra Mundial, estavam sofrendo um processo de assimilação cultural. Estes grupos estavam aos poucos perdendo suas características étnicas e aos poucos tornando-se americanos, incorporando elementos da cultura em que passaram a viver.

Um dos críticos do uso deste conceito foi Nathan Glazer. Segundo este autor o conceito surgiu nos Estados Unidos e tinha como principal significado a ideia de que um novo homem poderia nascer, estaria nascendo, nos Estados Unidos. Este novo homem era ao mesmo tempo europeu, mas suas origens e hábitos estavam relacionados a tantos lugares que ele só poderia de fato ser americano. Mas esse processo de assimilação dos novos homens nos EUA não consideravam os escravos e os indígenas. Para este autor o conceito de assimilação sempre falou sobre os europeus, sobre os imigrantes que chegaram aos EUA, mas que pertenciam a este outro lado do Atlântico.

Logo, uma importante crítica feita ao conceito é o de que ele não analisava a assimilação de uma enorme população, que estava nos EUA há muito tempo e que fazia parte da cultura estabelecida, os negros. Outras críticas se seguiram, como a dos pluralistas e dos multiculturalistas. Os pluralistas argumentavam que o conceito era etnocêntrico e que não levava em consideração as dinâmicas culturais desses grupos.

Outro importante momento de reflexão sobre a assimilação cultural aconteceu com o impacto do processo de globalização. A redução das fronteiras ao redor do mundo, a onipresença de elementos culturais do primeiro mundo em todas as partes do globo, a imposição de modelos de comércio e de troca pelo capitalismo neoliberal, os avanços tecnológicos e a redução da relação entre espaço e tempo, enquanto consequência deste último aspecto, obrigaram a pensar sobre a possibilidade da assimilação cultural.

É neste sentido que autores como Néstor García Canclini apresentam o conceito de culturas híbridas. Tratar de como os povos consomem, assimilam, transformam suas culturas é sobretudo discutir sua complexidade e não linearidade. O autor assim define: “entendo por hibridação processos socioculturais nos quais estruturas ou práticas discretas, que existam de forma separada, se combinam para gerar novas estruturas, objetos e práticas” (CANCLINI, 2015, p. XIX).

Portanto, a crítica ao conceito de assimilação se dá principalmente pela incapacidade deste conceito de descrever e analisar a complexidade dos processos de intercâmbio cultural. A cultura não é um monólito, estático e imutável. Ao contrário, é fluída e está em permanente mudança.

Os indivíduos e os grupos humanos realizam trocas constantes entre si que alteram sua compreensão do mundo. Desta forma, pensar em assimilação cultural e, consequentemente, na transformação da cultura de um grupo em outra, como assimilada por uma cultura mais “forte”, é desconsiderar a flexibilidade destes processos, inclusive o fato de que a cultura assimilada também é transformada pelos novos integrantes que a assimilam.

Referências Bibliográficas:

CANCLINI, N. G. Culturas híbridas. EDUSP, São Paulo, 2015.

GALZER, N. Is assimilation dead? ANNALS, AAPSS, 530, November, 1993.

TRUZZI, O. Assimilação ressignificada: novas interpretações de um velho conceito. Dados vol.55 no.2. Rio de Janeiro,  2012.

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