Em defesa da Escola Pública

Por Keity Jeruska Alves dos Santos Zadorosny
Atualmente, somos personagens de um mundo no qual as transformações nos âmbitos social, cultural, político e econômico se processam com impressionante rapidez e força. A globalização apresenta-se como uma nova e única regra para a vida; o progresso avança tendo nas tecnologias cada vez mais complexas e primorosas, suas maiores aliadas. Novas formas de comunicação e aproximação entre as pessoas surgem, e as economias tornam-se cada vez mais intrinsecamente ligadas e dependentes umas das outras.

Diante da atual configuração mundial, como agir, qual posição tomar? Acredito que a reflexão sobre os prós e contras das tecnologias, e dos novos espaços que influenciam na formação da subjetividade humana é necessária e importante. Precisamos reavaliar nosso papel enquanto seres ainda humanos e profissionais protagonistas de um mundo pós-moderno. É fundamental pensar, em que medida o avanço tecnológico promove melhorias e facilita a vida, e em que dimensão exclui, segrega, diferencia, torna-se instrumento de subordinação e dominação.

No Brasil, assim como em outros países do chamado terceiro mundo, o analfabetismo é um fator preocupante, a fome e o desemprego um dos maiores desafios a serem vencidos, o trabalho infantil e a miséria, um obstáculo à escolarização mínima. A tecnologia torna-se, diante deste cenário, fator pouco aproveitável uma vez que faltam ainda condições mínimas de sobrevivência à grande maioria da população. Desta forma, quase que naturalmente, as vantagens da tecnologia ficam restrita aos países desenvolvidos que ditam as regras e manipulam a vida de seus subordinados da melhor maneira que os convier. É no mínimo difícil construir algo sem alicerce.

Como tirar proveito das vantagens tecnológicas se, muitos pequenos cidadãos não dispõe ainda de uma base cultural mínima, que por direito lhe deve ser assegurada, acrescentada à suas próprias experiências e à sua cultura primeira, nos termos de Snyders? Como fica o papel da escola e do profissional da educação diante deste mundo novo?

A escola pública é uma conquista que tem suas origens na Revolução Francesa, é um fato histórico de enorme importância, mas isto não a exime de problemas a serem resolvidos e de questões a serem exploradas. Uma das críticas que esta escola enfrenta, diz respeito à atualidade de seus conteúdos. O mundo globalizado trouxe consigo novas exigências, e, portanto, a escola, inserida neste mundo deve preparar o aluno para conhecê-lo e nele atuar; isto significa que a escola deve permitir ao aluno o acesso às tecnologias. Concordo, a escola precisa evoluir enquanto realidade social. Mas é fundamental que ela não esqueça a cultura clássica, aquele legado em cujo bojo se encontra o que há de mais universal e permanente das produções humanas. A escola precisa encontrar entre o novo e a tradição, o seu equilíbrio.

Conforme Álvaro Vieira Pinto, a educação é por natureza contraditória, pois implica simultaneamente conservação e criação. Portanto não há necessidade de se incorrer no erro de criar situações artificiais com as crianças para que o saber se manifeste, conforme os termos de Perrenoud. Acredito que a escola é capaz de trazer para a sala de aula o atual, o novo, o real, mas ao mesmo tempo, de valorizar igualmente aquilo que, por resistir ao tempo tornou-se o saber clássico, ao qual todos devem indistintamente ter acesso. Em outras palavras, e lembrando Forquin, a “oferta cultural escolar” não pode ser independente de uma “demanda cultural social”, mas que não pode estar à mercê desta demanda e nem se regular por ela, seguindo suas exigências e contradições. É justamente por isto que a escola persiste, e por tal equilíbrio e autonomia o professor não perde o seu valor e mestria: pela capacidade que cada escola tem de, ainda de acordo com Forquin, encerrar em si mesmo o mosteiro e a cidadela.

Nós professores somos um dos principais agentes a lutar para que, lembrando o sociólogo Herbert de Souza, a pós-modernidade não produza um mundo menor que a humanidade.

Referências Bibliográficas:

FORQUIN, J. C. Escola e Cultura: as bases sociais e epistemológicas do conhecimento escolar. Porto Alegre: Artes Médicas, 1991.

PINTO, Á. V. Sete lições sobre educação de adultos. Rio de Janeiro: Ática, 2000.

SNYDERS, G. Alunos Felizes. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2005.

PERRENOUD, P. Escola e Cidadania: o papel da escola na formação para a democracia. Porto Alegre: Artmed, 2004.