Pietà de Michelangelo

Mestre em História da Arte (Unicamp, 2019)
Bacharel e licenciado em História (USP, 2004)

O cardeal francês, Jean Bilhères de Lagraulas, em 19 de novembro de 1497, encomendou a Michelangelo Buonarroti, uma escultura da Pietá ao seu túmulo e assim, providenciou-lhe um bloco de mármore de Carrara.

Bastante comum em esculturas nas regiões da França, Alemanha e Europa Central, a Pietà é o tema que se refere ao Cristo morto, cujo corpo foi deposto no colo de sua mãe, enquanto na Itália era comumente representado em pinturas.

Pietá, obra de Michelangelo. Atualmente localizada no interior da Basílica de São Pedro, no Vaticano. Foto: Vitaly Minko / Shutterstock.com

A estátua mede 1,74m x 1,95m e, apesar de esculpi-la rapidamente, em apenas um ano de trabalho, o cardeal Bilhères faleceu em 6 de agosto de 1499, sem vê-la terminada. Dessa forma, foi destinada à capela de Santa Petronilla, junto ao braço meridional da antiga Basílica de São Pedro, onde esse cardeal foi enterrado.

Vinte anos mais tarde, a escultura foi transferida para outra parte da Basílica de São Pedro, ficando na sacristia por um período e em seguida passou para o local atual, está localizada na primeira capela à direita da Basílica, junto à entrada.

Localização da Pietá dentro da Basílica de São Pedro. Foto: Lucas Martins / InfoEscola.com

Ao esculpir a estátua, Michelangelo desenvolveu um processo ambíguo: de um lado, uma imagem realista, dotada de inúmeros detalhes (roupas, semblante, gestos, etc.) e de outro, promoveu uma ilusão aos olhos do espectador que talvez não perceba, a desproporção entre o corpo de Maria e o de Jesus.

Maria encontra-se trajando uma túnica rica em panos e dobras e isto foi pensado para disfarçar o fato que Maria ficou muito mais alta que Jesus, caso ela estivesse de pé.

A ideia da comoção em virtude da perda do filho por Maria, se reforça pelo fato de estar cabisbaixa e de semblante tenso, que ao mesmo tempo se contrasta com sua juventude, uma possível menção à pureza da Virgem, ou seja, um corpo que não envelhece como os demais.

Pietà foi a única obra assinada por Michelangelo. Numa estreita faixa que se encontra sobre a túnica da Virgem, aparece a inscrição: MICHEL.A[N]GELVS. BONAROTVS.FLORENT[INVS] FACIEBA[T], que em latim significa: Michelangelo Buonarroti, o Florentino fazia. O uso do pretérito imperfeito “faciebat” remete à ideia de um trabalho inconcluso, apontada pelo autor romano Plínio, o velho em seu texto História Natural, onde analisava o modéstia dos artistas gregos Apeles e Policleto, que assinavam suas obras desse modo, portanto, davam a elas a ideia de “algo em progresso e nunca concluído”.

Michelangelo concebeu a Pietà a partir de uma estrutura triangular, sendo a cabeça da Virgem um dos vértices e os demais presentes na base da estátua. Ao abordar o tema, a expressão de desespero, comum na tradição escultória franco-alemã do tema, foi substituída por um gesto de aceitação, marcado pela mão esquerda estendida e aberta: o sacrifício consumou-se e Ele voltará.

Além da Pietà presente na Basílica de São Pedro, existem duas outras estátuas que Michelangelo retomou o mesmo tema: a Pietà Bandini, esculpida em 1547 e a Pietà Rondanini esculpida entre 1552 e 1555.

Sob encomenda de Francesco Bandini, Michelangelo fez a escultura para a sepultura Bandini e hoje se encontra no Museo Dell’Opera del Duomo, em Florença.

Neste trabalho, Michelangelo esculpiu seu rosto como a figura de Nicodemos que ajuda entregar o corpo de Jesus a Maria.

O último trabalho de Michelangelo foi Pietà Rondanini, quando o escultor já estava época com mais de 80 anos. Nesta obra, que se trata de uma reelaboração de um projeto de 1552: a escolha de um alongamento das figuras, explorando a verticalidade, preservando a comoção do tema. Este último trabalho encontra-se exposto no Castelo Sforzesco de Milão.

Fontes:

ARGAN. Giulio Carlo. História da Arte italiana: da Antiguidade a Duccio. Vol. III, São Paulo: Cosac & Naify, 2003.

GAYFORD, Martin. Michelangelo: uma vida épica. São Paulo: Cosac & Naify, 2015.

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