Importância econômica dos ascomicetos

Doutorado em Biodiversidade Vegetal e Meio Ambiente (Instituto de Botânica-SP, 2012)
Mestrado em Biodiversidade Vegetal e Meio Ambiente (Instituto de Botânica-SP, 2007)
Graduação em Ciências Biológicas (Universidade de Guarulhos, 2003)

Ascomicetos são fungos cuja diversidade de espécies possui maior registro, com 64.163 espécies. As hifas são as células que formam os fungos e quando estão densamente unidas formam o micélio. A partir do micélio ocorre diferenciação celular que originará estruturas somáticas e também de reprodução dos fungos. Antigamente os ascomicetos eram classificados de acordo com o ascoma, que era referido por corpo de frutificação, ou seja, estrutura de reprodução sexuada que possuem formas diferentes, ora como uma taça, ora esférico e completamente fechado, ou como um frasco com uma pequena abertura. Os esporos (ascósporos) são produzidos em hifas diferenciadas e conhecidas como ascos, cuja forma é de um saco (saculiforme) e onde também ocorre a troca de informação genética através da meiose.

Os ascomicetos, assim como basidiomicetos possuem um micélio dicariótico, ou seja, existe um momento no ciclo de vida que núcleos diferentes permanecem juntos na mesma hifa após a plasmogamia (fusão de hifas). Posteriormente, após algum tempo, que pode durar meses, estes núcleos se fundem (cariogamia) e trocam informações genéticas. Diferente dos basidiomicetos, que logo após plasmogamia ocorre a cariogamia.

O tipo de reprodução em fungos é representado na maioria das vezes por uma fase sexuada, também conhecida como teleomorfa e pela fase assexuada, também referida como anamorfa. A fase assexuada é independente da sexuada e pode sobreviver livre na natureza e, por isso, os especialistas classificaram a fase assexuada como fungos anamórficos, os antigos deuteromicetos, ou Deuteromycetes. No entanto, hoje se sabe que estes fungos são a parte assexuada do ciclo de vida que pertence aos ascomicetos ou basidiomicetos. Embora a observação das duas fases no mesmo fungo seja quase impossível, este fenômeno foi observado para algumas espécies. Este reconhecimento se deve ao isolamento de fungos em laboratório, onde o procedimento se inicia através do isolamento de único esporo em meios de culturas específicos (culturas monospóricas). Atualmente, a utilização de dados moleculares também auxilia neste reconhecimento. Contudo, o isolamento dos fungos ainda é bastante polêmico e complexo, pois o ambiente artificial nunca será igual ao natural e pode alterar aspectos biológicos dos fungos.

Aplicação econômica dos ascomicetos

Assim como todos os fungos, os ascomicetos possuem grande aplicabilidade em setores industriais. Podem ser utilizados como alimento e os mais conhecidos são as trufas, que possuem alto custo se tornando inacessível a milhares de pessoas. Existe também outro tipo de ascomiceto comestível, a Morchella sp. (figura 2).

Figura 1. Ascomicetos comestíveis. Trufas brancas. Fotos: luri e HQuality / Shutterstock.com

 

Figura 2. Morchella sp., um ascomiceto. Foto: Andrew S Phelps / Shutterstock.com

Contudo, a utilização dos ascomicetos em setores industriais volta-se para a fase assexuada, ou anamorfa. A maior parte dos registros de conexão entre a fase sexuada e assexuada se devem ao grupo dos ascomicetos. Portanto, a importância econômica comentada neste texto se refere a fungos cuja fase sexuada pertence aos ascomicetos.

Há muito tempo as leveduras e alguns fungos filamentosos são utilizadas em processos de fermentação para produção de pães, bebidas como a cerveja, queijos, vinagres e vinhos. Em muitos casos existe uma combinação entre organismos, como fungos e bactérias para a produção de vinagres; leveduras, fungos filamentosos e bactérias para a produção de queijos. Certas linhagens de leveduras são selecionadas para fermentar determinados tipos de uvas, que consequentemente fornecem sabores especiais a vinhos, seria o caso das leveduras Saccharomyces cerevisae, Schizosaccharomyces pombe e o fungo filamentoso Botrytis cinerea utilizados em vinhos franceses e alemães.

Produção de enzimas, ácidos orgânicos, hormônios, vitaminas e tantos outros metabólitos fazem destes fungos importantes organismos utilizados em diferentes setores industriais, incluindo aqueles relacionados à despoluição de ambientes. Na tabela a seguir encontram-se alguns exemplos de ascomicetos assexuais (fungos anamórficos) e sua utilização comercial:

Setor Industrial Espécies (fase anamorfa de um ascomiceto) Utilização comercial
Farmacêutico e medicinal Penicillium griseofulvum Combate dermatomicoses superficiais e onicomicoses (fungos que se nutrem de queratina) no homem.
Farmacêutico e medicinal Tolypolcladium niveum Sintetiza a ciclosporina A, cujo efeito é auxiliar o sistema imunológico do homem. Além de auxiliar na rejeição de órgãos transplantados.
Farmacêutico e medicinal Espécies de Aspergillus, Penicillium e Neurospora e leveduras como Saccharomyces Precursores da vitamina D, o ergosterol.
Farmacêutico e medicinal Aspergillus terreus Síntese de “mevinolin”, um tipo de metabólito secundário responsável por reduzir os níveis de colesterol no sangue, cujo nome comercial é Mevacor ou Lovastatin.
Alimentício Aspergillus niger Sintetiza ácido cítrico, cuja finalidade pode ser para conservar alimentos congelados; controle e manutenção do pH em produtos alimentícios, farmacêuticos, cosméticos, têxteis, etc.
Alimentício Penicillium camemberti Produção de queijos brancos como Brie, Camemberti.
Agronegócio Fusarium moniliforme Síntese de ácido giberélico (giberelina A3)

Bibliografia recomendada:

http://tolweb.org/tree/ (consultado em novembro de 2018)

Bononi, V.L. (org.) 1998. Zigomicetos, Basidiomicetos e Deuteromicetos. São Paulo: Instituto de Botânica, Secretaria de Estado do Meio Ambiente, 181p.

Evert, R.F. & Eichhirn, S.E. 2014. Raven/ Biologia Vegetal. 8ª edição, Guanabara Koogan, Rio de Janeiro, 856p.

Hibbett, D.S. et al. 2007. A higher-level phylogenetic classification of the Fungi. Mycological Research 111: 509-547.

Kirk, P.M., Cannon, P.F., Minter, D.W. & Stalpers, J.A. 2008. Dictionary of the Fungi. 10th ed. CAB International, Wallingford.

Terçaroli, G.R., Paleari, L.M. & Bagagli, E.2010. O incrível mundo dos fungos. São Paulo, Ed. Unesp, 125p.

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