Taxonomia vegetal

Doutorado em Biodiversidade Vegetal e Meio Ambiente (Instituto de Botânica-SP, 2012)
Mestrado em Biodiversidade Vegetal e Meio Ambiente (Instituto de Botânica-SP, 2007)
Graduação em Ciências Biológicas (Universidade de Guarulhos, 2003)

Taxonomia é um termo de origem grega, onde taxon significa, ordem, arranjo; enquanto nomos significa lei. Assim, taxonomia é considerada uma ferramenta utilizada por especialistas para obter um maior conhecimento dos seres vivos, desde a obtenção de dados morfológicos, como moleculares, bioquímicos, genéticos, etc. Portanto, a taxonomia é utilizada em áreas da ciência conhecidas como Sistemática e Filogenia. Enquanto a Sistemática entende a organização e complexidade da diversidade biológica. A Filogenia afasta ou aproxima estes organismos de acordo com as características que apresentam, sugerindo relações de parentesco entre estes organismos e indicado a origem a partir de um ancestral comum. Com isso, esboçando um perfil histórico e evolutivo dos organismos.

Há muito tempo a taxonomia organizou os seres vivos em categorias taxonômicas começando por reino, classe, ordem, gênero e espécie. Ao longo do tempo foram surgindo mais categorias e, hoje, diante de muitas descobertas sobre os organismos, há uma categoria principal conhecida como domínio, cuja separação é estabelecida por Archea, Bacteria e Eukarya. Os dois primeiros grupos são constituídos por organismos procariontes e o último grupo engloba todos os seres vivos eucariontes.

Breve histórico da taxonomia vegetal

A taxonomia vegetal está associada a um contexto histórico exposto de maneira breve a seguir, cuja abordagem possui aspectos importantes sobre a classificação biológicas ao longo do tempo para organismos que foram considerados plantas há muito tempo.

A classificação biológica é estudada desde o século IV a.C., com Aristóteles, filósofo grego que separava e classificava os organismos em dois grandes grupos (reinos), Animalia e Plantae, com relação as semelhanças e diferenças. Esta classificação mudou apenas no século XV d.C., período marcado pela revolução industrial e científica (era moderna) resultando em maior conhecimento dos organismos, principalmente com o surgimento do microscópio óptico. O pensamento desta época era fixista e criacionista, onde se acreditava que os seres vivos tinham origem divina e eram imutáveis.

No século XVIII uma das mais importantes contribuições para a taxonomia foi dada por Carl von Linné, mais conhecido como Lineu, naturalista sueco, criacionista e fixista. Pois acreditava que a classificação biológica era um bom sistema para explicar a origem divina dos organismos. Lineu trabalhou seriamente e publicou informações ricas sobre os organismos em uma série conhecida como Systema Naturae (primeiro exemplar em 1735). Dentre as contribuições, merecem destaque a utilização da nomenclatura binomial utilizada e provavelmente criada (e não publicada) pelo naturalista suíço, Caspard Bauhin; e a disposição dos organismos em categorias taxonômicas distribuídas em: reino, classe, ordem, gênero e espécie. À época, Lineu classificava animais, vegetais e minerais.

A classificação proposta por Lineu perdurou até o final do século XVIII, cuja transformação aconteceu com o surgimento do pensamento evolucionista. À época haviam muitos idealistas do movimento, porém destacaram-se Lamarck, Darwin e Wallace. Em 1859, Darwin publica “A Origem das Espécies” (The Origin of Species), onde o pensamento evolucionista foi expresso e construído também por Wallace. Resultando na “Teoria da Evolução”, que permitiu uma nova interpretação sobre a origem das espécies e suas relações. Além disso, o período evolucionista foi marcado por grandes avanços científicos e tecnológicos, o que inclui o surgimento do microscópio eletrônico, que auxiliou em estudos minuciosos ao nível celular.

Desde o surgimento do microscópio óptico já havia a preocupação para a criação de um terceiro reino, que acomodaria seres unicelulares observados desde o século XVII, pelo holandês, Leeuwenhoek. Em 1860 (século XIX) surgiu a primeira proposta para acomodar os seres unicelulares, pelo britânico, Richard Owen que indica o nome Protozoa. Pouco depois em 1866, o naturalista alemão, Ernst Haeckel propões o nome Protista. Outra proposta marcante realizada em 1956 (século XX) foi a do biólogo americano, Hebert F. Copeland, que considera Monera como reino para abrigar organismos procariontes (bactérias) e organiza os eucariontes unicelulares e os fungos em Protoctista.

Ao longo dos anos surgiram outras propostas de classificação biológica e ao final do século XX (1969), o cientista norte-americano, Robert H. Whittaker adota os reinos, Animalia, Plantae, Protista e Monera, e propõe o reino, Fungi.

No século XX, a bióloga norte-americana Lynn Margulis propõe a “Teoria da Endossimbiose” (em 1967), que explica a origem das células eucarióticas e de cloroplastos e mitocôndrias (organelas citoplasmáticas). A teoria dá início a novas reflexões sobre a classificação biológica adotada até o momento. Em 1977, Carl Woese, entomólogo alemão com base principalmente em estudos moleculares do ácido ribonucleico ribossômico (RNAr). Estes estudos culminaram na divulgação dos três domínios mencionados inicialmente neste texto como Archaea, Bacteria e Eukarya.

Archaea ou arqueas compreendem organismos procariontes que habitam regiões muito hostis, consideradas como organismos extremófilos, o que resultou em parte sua classificação e nomenclatura. Arqueas halófilas habitam ambientes com alta concentração de sal; arqueas termófilas estão em ambientes com temperaturas extremas; arqueas metanógenos são organismos anaeróbios que sintetizam gás metano. No entanto, existem arqueas que habitam regiões comuns como o solo ou o picoplâncton oceânico. Não há registros para organismos patógenos.

Bacteria inclui espécies mais conhecidas pela população, como àquelas patógenas causadoras de tuberculose, ou aquelas que auxiliam no processo de fabricação de queijos e iogurtes. Existem também àquelas muito importantes para o ambiente, incluindo desde organismos antigos que sintetizavam o alimento através de compostos sulfurosos (quimiossíntese), ou aquelas mais recentes como as cianobactérias (antigas algas azuis) e as bactérias purpúreas e verdes, cuja fonte de alimentação é feita através da fotossíntese.

Assim, o domínio Eukarya inclui todos os outros grupos de organismos eucariontes, ou seja, todos os grupos de protistas, (entende-se por organismos autótrofos e heterótrofos), de animais, de fungos e plantas. Em Taxonomia Vegetal não se estudam somente as plantas, uma vez que desde o período aristotélico, fungos e organismos relacionados aos fungos, como oomicetos e mixomicetos; algas (protistas fotossintetizantes) como euglenas, diatomáceas, algas verdes, vermelhas e pardas, dentre outras eram todos incluídos no reino das plantas. Além disso, as regras propostas para a classificação biológica de plantas são as mesmas adotadas para fungos e algas. Desta forma, segue um comentário geral sobre estes grupos.

Protistas fotossintetizantes

Fotos de microscópio de Euglena. Foto: Lebendkulturen.de / Shutterstock.com

A classificação biológica para as algas as reúne em supergrupos: Archaeplastida compreende glaucófitas, algas vermelhas, verdes e as plantas; Chromalveolata (ou cromalveolados) estão crisófitas, xantofíceas, algas pardas, diatomáceas e dinoflagelados juntamente com protistas heterótrofos; Excavata apresenta euglenófitas e muitos protistas heterótrofos. As algas são consideradas protistas fotossintetizantes e incluem um grupo muito diversificado, desde organismos unicelulares como euglenas, até organismos multicelulares como as algas verdes, pardas e vermelhas. Encontradas em ambientes marinhos, de água doce, no solo e em simbiose com outros organismos. Além de apresentar grande papel ecológico com algumas espécies compondo o fitoplâncton marinho e servindo como base na cadeia alimentar; outras formam “florestas” aquáticas que servem de abrigo para peixes e invertebrados; existem espécies que causam florações tóxicas (crescimento desordenado de populações) ao ambiente, como a maré vermelha causada por uma espécie de dinoflagelado. A diversidade é tão grande que existem espécies aproveitadas economicamente, resultando em produtos comestíveis e industriais.

Plantas

Estrutura das angiospermas. Ilustração: BlueRingMedia / Shutterstock.com

Planta é um termo geral, sem valor taxonômico e utilizado para fazer referência a árvores frutíferas, pinheiros, samambaias e musgos. Aceitando a classificação biológica e Filogenia atual, o grupo que organiza as plantas também abriga espécies de algas verdes são representados pelo grupo Archaeplastida. No entanto, há subdivisões destes grupos, em viridófitas (em latim, Viridiplantae) estão algas verdes; antóceros, hepáticas e musgos (antigamente referidos por briófitas); samambaias e licófitas (antigamente referidas como pteridófitas); gimnospermas (plantas com sementes) e angiospermas (plantas com flores). Além disso, as viridófitas se subdividem em embriófitas e nestes grupos estão organizadas todas as plantas mencionadas exceto as algas. As plantas possuem grande diversidade desde organismos unicelulares (algas verdes unicelulares), como multicelulares (algas verdes macroscópicas, ou antóceros, hepáticas e musgos) até pluricelulares (plantas com sementes e plantas com flores e frutos). As plantas possuem parede celular composta principalmente por celulose; a reserva energética é de amido; os cloroplastos possuem especializações dependendo do organismo. Além de outras características estruturais, moleculares, genéticas e bioquímicas. Além da grande importância ecológica peculiar a cada grupo, muitas são economicamente úteis, sendo uma das principais fontes de alimento a população humana.

Fungos

Atualmente, a classificação para o grupo dos fungos compreende o filo Ascomycota, maior grupo registrado, com espécies comestíveis, como Morchella sp.; ou simbiontes, como os liquens; ou como parte assexuada do ciclo de vida, como a maioria dos fungos anamórficos. O filo Basidiomycota, que compreende cogumelos, orelhas-de-pau, fungos gelatinosos, gasteromicetos, ferrugens e carvões. Fungos antes dispostos em filos forma segregados e têm posição taxonômica incerta, como é o caso dos antigos zigomicetos (fungos do açúcar, bolores) e quitridiomicetos (fungos aquáticos). Os fungos são heterótrofos e ao longo dos anos os estudos apontaram o quanto estes organismos eram distintos quando comparados às plantas. Características apontadas como a composição por quitina da parede celular, ou glicogênio como reserva energética, além de características moleculares, bioquímicas, genéticas, entre outras, confirmaram a separação deste grupo e a aproximação aos animais. Ecologicamente os fungos são excelentes decompositores de matéria orgânica e inorgânica, contribuindo sobremaneira para a ciclagem de nutrientes no ambiente. Além disso, sintetizam grande aparato de metabólitos secundários utilizados amplamente em vários setores industriais.

Bibliografia recomendada:

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