Argumentum ad baculum

Doutorado em andamento em Filosofia (UERJ, 2018)
Mestre em Filosofia (UERJ, 2017)
Graduado em Filosofia (UERJ, 2015)

O argumentum ad baculum (recurso ou apelo à força, em latim) é uma forma de argumentação onde um dos oponentes recorre direta ou indiretamente à força ou à ameaça para que o adversário aceite sua conclusão. Apesar de ser contado entre as chamadas falácias não-formais, o argumentum ad baculum não configura, de fato, uma falácia, tendo em vista que não incorre em erros argumentativos.

Apesar de sempre se considerar o uso da força em argumentos como algo maldoso, nem sempre o argumentum ad baculum é utilizado desta maneira. Uma forma não maldosa de se utilizar o apelo à força para conseguir uma determinada aprovação de conclusão pode ser encontrada em leis de trânsito, por exemplo, em que se recorre à ameaça de punições graves a quem for flagrado dirigindo embriagado ou sem carteira de habilitação. Nesse caso, o argumento defendido é que a prática de dirigir embriagado ou sem carteira de motorista é um risco à vida tanto do motorista quanto das demais pessoas em redor. A ameaça de punição produz, portanto, a aceitação e, na maioria dos casos, o reconhecimento dessas premissas.

Contudo, é bastante comum seu uso maldoso em argumentações, podendo ser verificado tanto entre crianças, o que configura um uso, pode-se dizer, inocente do argumentum ad baculum, quanto entre adultos, onde pode-se verificar diferentes graus da malícia na argumentação, como ver-se-á nos exemplos a seguir.

Imagine-se os seguintes diálogos protagonizado por crianças:

Eu jogo bola melhor que você.
Eu não acho.
Jogo sim! E se você não concordar eu não vou mais ser seu amigo!

O Homem-aranha é muito melhor do que o Batman. E se você não concordar comigo eu vou mandar meu irmão mais velho, que é bem grande, vir aqui te bater!

Estes dois exemplos são bastante recorrentes entre crianças que estão brincando juntas. No primeiro, uma das crianças cria na outra uma tensão psicológica ao ameaçar romper com a amizade caso o outro não apoie sua conclusão. No segundo caso, a ameaça possui um caráter físico, tendo em vista que a consequência da discordância seria de agressão à parte discordante.

Entre adultos, o argumentum ad baculum geralmente assume um caráter mais agressivo, tendo em vista que, geralmente, as partes envolvidas possuem consciência dos limites e consequências dos argumentos e ameaças propostos. Considere-se o seguinte diálogo entre uma secretária e o seu chefe:

Srta. Ana, caso o o gerente entre em contato, diga que eu não estou.

Mas Sr. João, eu estarei mentindo e isso pode colocar em risco meu trabalho.

Faça o que eu estou mandando ou você será demitida!

Neste caso, o que configura o uso do argumentum ad baculum é a ameaça de demissão feita pelo Sr. João à Srta. Ana caso ela não aceite sua conclusão de que o melhor a se fazer é mentir à gerência em seu benefício.

Pode-se também verificar o apelo à força em âmbitos mais amplos, como o da política internacional. Ele aparece, geralmente, quando um país de maior poder bélico obriga outro país, menor, a fazer o que é de seu interesse, sob o risco de ser bombardeado.

Por fim, o argumentum ad baculum é frequentemente utilizado em relacionamentos abusivos. Quando uma das partes no relacionamento deseja romper com a relação, é bastante comum que ouça da outra parte que, caso essa relação acabe, ela vai acabar sozinha ou que nunca encontrará ninguém igual.

Todos os exemplos apresentados acima configuram uma falácia do tipo argumentum ad baculum porque não apresentam nenhuma clara evidência de que o argumento defendido é verdadeiro, e é isto o que faz com que se recorra a tais ameaças.

Referências:

AUDI, Robert. The Cambridge Dictionary of Philosophy. New York: Cambridge University Press, 1999.

COPI, Irving M. Introdução à Lógica. Tradução de Álvaro Cabral. São Paulo: Mestre Jou, 1974.

HURLEY, Patrick J. A Concise Introduction to Logic. California: Wadsworth/Thomson Learning, 2000.

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