Sexta-feira Sangrenta (21/06/1968)

Mestre em História (UERJ, 2016)
Graduada em História (UERJ, 2014)

A “Sexta-feira Sangrenta” foi uma manifestação estudantil ocorrida durante o ascenso de lutas do Movimento Estudantil em junho de 1968. Essas manifestações de junho de 1968 reivindicavam mais verbas para a educação e combatiam as restrições às liberdades civis e políticas introduzidas após a instauração do Regime Militar (1964-1985). Com o Golpe Militar de 1964, o cerceamento à atividade do Movimento Estudantil foi ampliado: a União Nacional dos Estudantes (UNE) havia sido fechada, os estudantes foram proibidos de realizar reuniões e os Congressos da UNE entre 1966 e 1968 tiveram que ser realizados ilegalmente. No que se refere ao investimento na Educação, o governo militar pretendia estimular a privatização, assim aliava-se ao United States Agency for International Development (USAID), procurando, dessa forma, reduzir os gastos estatais.

As manifestações de junho de 1968 tiveram importantes antecedentes naquele ano de 1968: a morte do estudante Edson Luís e a mobilização estudantil do Maio de 1968 na França.

A morte do estudante secundarista Edson Luís Lima Souto em uma manifestação contra o fechamento do restaurante Calabouço comoveu milhares de pessoas. Esse restaurante recebia estudantes com pouco poder aquisitivo, que, geralmente, vinham de outros Estados para estudar no Rio de Janeiro. Edson Luís foi morto por agentes do Estado dentro do restaurante, em 28 de março de 1968. O período do final do mês de março e início de abril de 1968 foi marcado por missas e manifestações em memória a Edson Luís, realizadas em diversas cidades do país promovidas pela UNE.

Na França, o Movimento Estudantil também estava à frente de mobilizações importantes que reivindicavam a ampliação de direitos civis, a cessação da Guerra do Vietnã e a liberação sexual. A mobilização estudantil impulsionou greves operárias na França e também inspirou levantes de jovens estudantes pelo mundo. No Brasil, os estudantes montavam barricadas nas manifestações de rua e uniam-se ao movimento operário, assim como nas mobilizações do Maio de 1968 francês.

A ascensão das mobilizações políticas da juventude internacionalmente e nacionalmente implicou maior repressão por parte dos órgãos do Estado, desse modo, o controle aos levantes de junho de 1968 foi ainda mais severo. Não havia mais a restrição às prisões de manifestantes que pertencessem à classe média alta e à elite. O uso de munição letal tornou-se comum nessas manifestações, ocasionando ferimentos e mortes.

Na passeata que ficou conhecida como “Sexta-feira Sangrenta” esses métodos de repressão começaram a ser empregados de maneira mais agressiva. A “Sexta-feira Sangrenta” aconteceu após a manifestação em frente à antiga sede do Ministério da Educação e Cultura (MEC), na cidade do Rio de Janeiro, em que houve forte repressão policial. Nessa manifestação do dia 18 junho, o líder estudantil Jean Marc van der Weid foi preso pela polícia, sendo acusado de incendiar uma viatura policial. Para dar resposta à repressão e exigir a soltura de lideranças estudantis, o Movimento Estudantil organizou uma manifestação para o dia 21 de junho. A polícia exacerbou a prática de violência nesse ato estudantil de 21 de junho que por conta disso foi alcunhado de “Sexta-feira Sangrenta”.

A manifestação alastrou-se na região do Centro do Rio de Janeiro, entre a praça Tiradentes e a avenida Rio Branco entre os horários de 9h às 20h. Os estudantes lançavam pedras e tijolos sobre os prédios e a polícia, e eram alvejados com arma de fogo e dispersados com gás lacrimogênio. Não se sabe ao certo o número de mortos e feridos, mas de acordo com informações de hospitais da região a “Sexta-feira Sangrenta” teve 28 mortos e centenas de feridos. Foram detidas pela polícia em torno de mil pessoas.

A violência policial do Regime Militar não desestimulou as manifestações de rua e, em 26 de junho, houve a “Passeata dos Cem Mil” que reuniu pacificamente mais parcelas da sociedade civil em prol de restaurar os direitos perdidos após o Golpe Militar de 1964. Apesar das manifestações populares, o Regime Militar recrudesceu e, em dezembro de 1968, foi editado o Ato-Institucional nº 5 que cerceava ainda mais as liberdades civis e políticas.

Referências:

GASPARI, Elio. A ditadura envergonhada. São Paulo: Companhia das Letras, 2002. p.295.

LAMARÃO, Sérgio. “Passeata dos Cem Mil”. Disponível em: https://www.fgv.br/cpdoc/acervo/dicionarios/verbete-tematico/passeata-dos-cem-mil. Acessado em 13 de março de 2020 às 10h e 20m.

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