Ultrarromantismo brasileiro

Mestre em Literatura Brasileira (UERJ, 2010)
Graduada em Letras e Literatura (UERJ, 2008)

O ultrarromantismo é uma corrente do Romantismo. No Brasil, foi marcado pela melancolia e pelo gosto de temas mórbidos. Por sua temática soturna, essa geração foi chamada de Geração Mal do século.

Álvares de Azevedo

A obra desse autor merece prioridade, já que foi a mais rica de sua geração. Sua obra tende a temáticas da evasão e do sonho. Na camada do sonho, sua poesia apresenta certa languidez: o poeta usa os versos para representar a atmosfera.

A praia é tão longa! e a onda bravia
As roupas de gaza te molha de escuma;
De noite — aos serenos — a areia é tão fria,
Tão úmido o vento que os ares perfuma!
És tão doentia!
Não corras assim!
Donzela, onde vais?
Tem pena de mim!

A melodia do poema (a combinação de rimas e métrica) é bem suave. O léxico é simples e dá um ar quase juvenil aos versos. Esse mesmo vocabulário infantil, ao fugir da rotina, acaba se tornando mórbido e depressivo.

Deitou-se na areia que a vaga molhou.
Imóvel e branca na praia dormia;
Mas nem os seus olhos o sono fechou
E nem o seu colo de neve tremia.
O seio gelou?...
Não durmas assim!
Ó pálida fria,
tem pena de mim!

A evasão (fuga) tem como fim a morte, temática que compõe algum dos mais belos poemas:

(...)
Eu deixo a vida como deixa o tédio
Do deserto, o poento caminheiro,
— Como as horas de um longo pesadelo
Que se desfaz ao dobre de um sineiro;
(...)
Se uma lágrima as pálpebras me inunda,
Se um suspiro nos seios treme ainda,
É pela virgem que sonhei... que nunca
Aos lábios me encostou a face linda!
(...)

(Lembrança de Morrer. Fragmento)

Na segunda parte de sua, vemos um ultrarromântico mais irônico e mais sarcástico contra os próprios românticos.

(...)
Vou ficando blasé, passeio os dias
Pelo meu corredor, sem companheiro,
Sem ler, nem poetar. Vivo fumando.
Minha casa não tem menores névoas
Que as deste céu d'inverno. . . Solitário
Passo as noites aqui e os dias longos;
Dei-me agora ao charuto em corpo e alma;
Debalde ali de um canto um beijo implora,
Como a beleza que o Sultão despreza,
Meu cachimbo alemão abandonado!
Não passeio a cavalo e não namoro;
Odeio o lansquenê. . . Palavra d'honra:
Se assim me continuam por dois meses
Os diabos azuis nos frouxos membros,
Dou na Praia Vermelha ou no Parnaso.

(Ideias íntimas)

O cachimbo alemão é uma crítica ao romantismo que surgiu na Alemanha.

Além da ironia, Alvares de Azevedo trouxe em sua poesia uma boemia espiritual anárquica, democrática, rebelde, livre.

Alma cheia de fogo e mocidade,
Que ante a fúria dos reis não se acobarda
Sonhava nesta geração bastarda
Glórias... e liberdade!

Tinha sede de vida e de futuro;
Da liberdade ao sol curvou-se puro
E beijou-lhe a bandeira sublimada:
Amou-a como a Deus, e mais que a vida
Perdão para essa fronte laureada!
Não lanceis à matilha ensanguentada
A águia nunca vencida!

(Pedro Ivo)

Nesse poema em homenagem a Pedro Ivo, o autor mostra sua faceta mais libertária.

Das imagens satânica, que tanto cativam os jovens, temos a obra Noite na Taverna, obra que traz uma contemplação poética enquanto passeia pelo inconsciente. Nessa obra, o autor traz um grupo de jovens que narram seus amores e desamores numa taverna. Há relatos de violentos de estupro, necrofilia e incesto, assassinatos. O desfecho macabro e surpreendente, torna a obra mais interessante.

Outros nomes

Outros nomes apareceram no ultrarromantismo como Junqueira Freire, mas é notável que sua poesia não adquire a força poética de Alvares de Azevedo – há certa dificuldade de ajustar intenção e forma. Entretanto devemos reconhecer seu valor ao aproximar-se de formas populares.

Outro nome que nos aparece é Fagundes Varela, considerado o melhor da geração 1860 (de um grupo chamado Epígonos). O poeta acompanha a vida política do Império e alguns de seus poemas apresentam valor documental. Mas seu gênio de poeta encontra-se em no lirismo bucólico de poemas como Flor de Maracujá.

Pelas rosas, pelos lírios,
Pelas abelhas, sinhá,
Pelas notas mais chorosas
Do canto do sabiá,
Pelo cálice de angústias
Da flor do maracujá!

Apesar de não ter a mesma qualidade poética de Alvares de Azevedo, outro nome bastante conhecido dessa geração foi Casimiro de Abreu. O poeta tornou-se bastante popular pela poesia simples, de vocabulário fácil. Trouxe temáticas já vistas como o exílio e a infância, mas com outro contexto.

No obra Primaveras, o poema Canção do Exílio mostra tom do poeta.

Debalde eu olho e procuro...
Tudo escuro
Só vejo em roda de mim!
Falta a luz do lar paterno
Doce e terno,
Doce e terno para mim.
Distante do solo amado
– Desterrado –
A vida não é feliz.
Nessa eterna primavera
Quem me dera,
Quem me dera o meu país

Observe que o tem é menos inflamado e mais melancólico.

Outra temática comum foi a evasão para a infância, na ilusão de momento perfeito. E ilustrando essa fase temos o poema Meus oitos anos, seguramente o mais conhecido do poeta. Apesar de não apresentar o mesmo veio poético de Alvares de Azevedo, sobressaiu-se em popularidade tornando-se bastante conhecido em sua época e ainda hoje.