Cidade dos Ossos

Cassandra criou em sua obra um universo fantástico singular.  Caçadores de sombras combatem seres demoníacos e ainda são obrigados a enfrentar os seres do submundo, tais como fadas, vampiros, lobisomens, feiticeiros, e os próprios companheiros revoltosos. Como se não bastasse criar um mundo tão rico, a autora ainda revela um ponto de vista super original sobre as criaturas que há milênios povoam o imaginário de gerações sem fim. Nem sempre sua visão agradará os leitores; é um pouco estranho, por exemplo, ver as fadas como seres instáveis e por vezes até cruéis, filhas de anjos e demônios. Mas, se pensarmos bem, vistas dessa forma elas simbolizam o próprio Homem, no qual o bem e o mal se mesclam.

Cidade dos Ossos é o primeiro volume da saga Instrumentos Mortais. Nesse livro são apresentados os personagens, suas histórias, o universo em que eles vivem. A trama se inicia quando Clarissa Fray começa a ter visões de seres que ninguém mais vê, nem seu melhor amigo, Simon. Os dois estão imersos em mais uma balada na boate Pandemônio quando Clary, como os mais íntimos a chamam, é atraída por um jovem de cabelos azuis. Nessa noite ela testemunha o assassinato desse garoto, mas nenhuma outra pessoa, além dela, vê seus assassinos, Jace Wayland e os irmãos Isabelle e Alec Lightwood.

A partir desse momento a vida da protagonista vira de cabeça para baixo. Ver adolescentes tatuados com símbolos estranhos não é nada diante do desaparecimento de sua mãe na noite seguinte, após um estranho telefonema dela, no qual pedia que a filha não voltasse para casa e avisasse Luke de que alguém voltara. Teimosa, Clary não vai procurar o melhor amigo de sua mãe, Jocelyn Fray. Ela retorna ao seu apartamento e ali vive um pesadelo indescritível. Desarmada, é obrigada a enfrentar um demônio conhecido como Ravener. Nessa luta ela conta apenas com o sensor de Jace, o qual ela confundiu com um celular. Ao devorar esse mecanismo a criatura morre, mas não sem antes lançar seu veneno no corpo de Clary.

Jace salva a vida de Clary ao tatuar um símbolo preto no pulso dela, contrariando as orientações da Clave, o órgão que regula as ações dos Caçadores de Sombras. Hodge, o encarregado do Instituto, sede da Clave em Nova Iorque, resiste a acreditar que ela seja uma Caçadora de Sombras. Para ele e Alec, ela não passa de uma mundana, ou seja, de uma humana sem qualquer poder; nessas condições, Clary poderia ter morrido ao receber a tatuagem, mas por mais estranho que pareça, ela conseguiu sobreviver.

Aos poucos eles descobrem que a mente de Clary foi bloqueada. Madame Dorothea, bruxa e proprietária do prédio onde a protagonista morava com a mãe, não consegue ver seu futuro nas cartas de tarô pintadas por Jocelyn. A garota é levada aos Irmãos do Silêncio, responsáveis por todo o conhecimento e pelo acesso à mente das pessoas. Mas nem eles conseguem romper esse bloqueio. Então, sem contar nada a Hodge, eles procuram o feiticeiro Magnus Bane. Seu nome foi a única lembrança que apareceu na mente de Clary. Ele foi o responsável por obstruir suas memórias.

Nem Magnus consegue trazer de volta todas as lembranças de Clary, mas ele lhe apresenta um símbolo que pode ajudar a resgatar aos poucos o passado dela. Ela continua em busca da vida que lhe foi roubada e da própria mãe. Enquanto investiga o passado, Clary descobre que sua mãe, os pais de Jace, Hodge e os pais de Alec e Isabelle integraram um grupo conhecido como o Ciclo. Eles acreditavam que um dos instrumentos mortais, o Cálice, no qual o Anjo Raziel misturou o sangue de anjos e humanos para criar os Caçadores de Sombras, deveria ser utilizado para criar outros Caçadores, mesmo que nem todos os Homens resistissem aos efeitos colaterais. Valentim era o líder do grupo.

As atitudes de Valentim se tornaram mais radicais quando seu pai foi morto por um bando de lobisomens. A partir desse momento ele passou a defender a pureza do sangue; para ele, todos os habitantes do submundo eram mestiços sujos e impuros. Portanto, deveriam ser eliminados. Quando ele dá uma guinada mais radical em suas crenças, muitos de seus companheiros começam a desertar. Inclusive sua esposa Jocelyn.

Clary se choca ao perceber que sua vida toda foi uma farsa. Jocelyn Fray é uma desconhecida para ela, mas isso não diminui o amor que sente por ela. Ela decide encontrar o Cálice para negociar a liberdade de sua mãe. Nessa jornada Clary vai descobrir muito sobre si mesma, a vida e as razões que movem a Humanidade. E também vai hesitar entre as emoções que Jace e Simon despertam em seu coração.

A leitura é fluida e cativante. Em muitos momentos é difícil deixar de lado esse livro e nos flagramos virando compulsivamente virando as páginas e roendo as unhas. A história é repleta de humor ácido, destilado especialmente por Jace. Mas Clary não fica atrás. E Simon os segue de perto nessa disputa pelas melhores tiradas. É o tipo da história que nos leva a rir em público ou a chorar, de repente, em algumas passagens.

Pena que a tradução e a revisão desse volume tenham sido tão descuidadas. Por vezes algumas frases chegam a ficar um tanto incompreensíveis. O livro ganhou recentemente uma adaptação ao cinema, dirigida por Harald Zwart e protagonizada por Lily Collins, Jamie Campbell Bower e Robert Michael Sheehan. Eu diria que o filme é praticamente uma história à parte, tão bom quanto a versão literária. Os dois são imperdíveis. Mal posso esperar pela sequência, Cidade das Cinzas, já que a autora deixou para resolver quase tudo no próximo volume. Esse foi um porém, concluir assim tão de repente o primeiro livro, deixando um gosto de quero mais e muitas respostas no ar.

Cassandra Clare, pseudônimo de uma escritora norte-americana, iniciou sua trajetória literária como autora de fan fiction – ficção criada por fãs – no mundo mágico das séries O Senhor dos Anéis e Harry Potter. Agora, inspirada por estes universos míticos, ela desenvolve a saga Instrumentos Mortais, a qual contará com a publicação de pelo menos quatro volumes – o quarto, City of Fallen Angels, tem lançamento previsto para março de 2011.

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