O Ensino da Matemática nas Séries Iniciais

Por Robison Sá
Resumo

O presente trabalho visa mostrar algumas reflexões sobre o Ensino da Matemática nas Séries Iniciais. Em linguagem bastante simples, o educador poderá extrair deste artigo algumas ferramentas contemporâneas que, com certeza, contribuirá com a sua prática de ensino. Faz-se menção a Teoria dos Campos Conceituais do psicólogo francês Gérard Vergnaud e suas contribuições para a educação mundial.  O artigo ainda mostra possíveis métodos para ensinar multiplicação e divisão, bem como, a importância do conhecimento cultural no cotidiano escolar.

Introdução

São vários os questionamentos que surgem ao planejarmos o ensino da matemática nas séries iniciais, dentre eles, a maneira correta de se abordar as operações básicas, em que nível e, principalmente, como tornar esses conceitos utilizáveis na vida diária. A disciplina matemática, conhecida por sustentar-se num campo abstrato que exige um desenvolvimento maior das teias psíquicas, deve, aqui, tornar-se mais plausível e humana para que sua abstração seja possível por aqueles que começam a desenvolver os esquemas de saberes.

É sabido que, todos, ao ingressar na escola, trazem consigo uma bagagem de saberes adquiridos no convívio familiar e também no social. Esses conhecimentos devem ser aproveitados, pois o seu descarte acarretará na quebra de esquemas mentais que com muito esforço foram construídos nas mentes das crianças a fim de dar-lhes sustentabilidade e possibilidades de compreensão do mundo ao qual estão inseridas. No que concerne à matemática esse pensamento de aproveitamento do saber extraescolar leva o nome de etnomatemática. É ela a responsável por coletar, selecionar, moldar e exteriorizar os conhecimentos culturais absorvidos pelos discentes ao longo da vida.

Entre as várias problemáticas no ato de educar os pequenos está a formação do pedagogo. Os cursos de formação inicial em pedagogia, em sua maioria, não oferecem subsídios suficientes para suprirem a grande demanda apresentada pelas classes de aprendizes, além do mais, esses cursos sustentam-se numa plataforma de múltiplas teorias pedagógicas paralelas a uma grande escassez de práticas que auxiliem o futuro professor a postar-se corretamente diante das necessidades individuais dos alunos. Em relação à matemática, os cursos de formação em pedagogia tentam capacitar os futuros educadores à base de poucas explanações que levem-no a compreensão de sua história, teoremas, metodologias, bem como, de suas aplicações futuras.

A educação matemática

É evidente a necessidade de sérias mudanças concernentes ao ensino da matemática nas séries inicias – posteriores também. O profissional da pedagogia, solitário na busca por métodos de ensino que sejam capazes de fazer prosperar o aprendizado dessa disciplina cheia de tabus e complexidade, encontra como aliada a Educação Matemática. Esta veio para diagnosticar e corrigir erros seculares do ensino da matemática. Com muito mais didática e metodologias de ensino, a Educação Matemática dá suporte tanto ao pedagogo, quanto ao docente em matemática das séries posteriores tornando essa apropriação de saberes mais cômoda, humana, flexível e atingível.

Nos cursos de especialização em Educação Matemática para Pedagogos [1] encontrar-se-á uma grade curricular totalmente voltada para o ensino da matemática nas séries iniciais, suas maneiras de abordagens, metodologias contemporâneas e os novos pensadores da educação, pessoas engajadas na busca de um ensino que priorize o qualitativo e a igualdade de aprendizagem para todos. É bom que se diga que os cursos de formação inicial dos pedagogos, bem como, dos demais professores, não são os únicos responsáveis pela qualificação profissional desses indivíduos, mas também, é dever destes zelar pela continuidade da sua formação, pela atualização dos saberes e pela aplicação de seus conhecimentos. O bom profissional qualifica-se cotidianamente através da boa leitura, dos cursos de formação continuada, da pesquisa científica ou de qualquer outro meio enriquecedor da bagagem docente.

A multiplicação e a divisão

Existem muitas dúvidas, principalmente, na aplicação de alguns conteúdos matemáticos tidos como complexos. Exemplos clássicos disso, em se tratando das séries iniciais, são as operações de multiplicação e divisão. Quando será possível começar os estudos desses conteúdos? A partir de quando? A resposta pode ser assustadora para os tradicionalistas, mas esses conteúdos podem ser aplicados logo nos primeiros anos de ensino.  Essa revelação é fruto de anos de estudo do psicólogo francês Gérard Verganaud em seu trabalho A Teoria dos Campos Conceituais. Vergnaud, que teve seu trabalho inserido no Brasil em 1980, contribuiu muito com a educação, não somente brasileira, mas mundial, revolucionando os pensamentos marcados pelo tradicionalismo e revelando novos horizontes às práticas educacionais.

Devemos compreender a multiplicação como indissociável à divisão, não devemos tratá-las como operações paralelas, uma vez que existe uma convergência entre si que torna clara a ideia de inverso. Vergnaud, em sua Teoria dos Campos Conceituais, dividiu a multiplicação, bem como, a divisão, em categorias. Outro fator importante a considerar, é que o aprendizado desses conceitos pode acontecer de várias maneiras diferentes, isto é, podemos apresentar o mesmo problema de múltiplas formas, invertendo a sua incógnita, até que se crie embasamento suficiente e o discente chegue a sua compreensão.

O professor não deve causar a sua dependência no aluno, e sim, deverá criar possibilidades para que esse discente seja autônomo, capaz de solucionar os problemas de acordo com seus próprios caminhos, ser um aluno autossuficiente em relação a planejar, raciocinar e resolver.

A cultura do aluno e o saber do professor

Muito se discute sobre espaço e tempo escolar. Essas duas problemáticas, devido ao seu grau de complexidade, tornam a discussão ociosa e insolúvel, pois para se conseguir êxito nesse sentido, muitas forças devem se unir: poder público, família, direção escolar, alunos e professores e, só trabalhando conjuntamente, chegar-se-á a uma solução favorável.

Muitas das vezes, por “falta de tempo”, o professor deixa para trás os saberes culturais que o seus alunos vivenciam diariamente, causando um prejuízo muito grande para a educação e para as mentes desses jovens aprendizes. A cultura popular trazida pelos alunos à escola faz com que o processo educativo seja enriquecido, dá mais possibilidades ao ensino, abre mais portas para o aprendizado, torna o aluno útil e faz permanecerem vivo os saberes comunitários acumulados ao longo das gerações.

O docente, apoiado pelos demais atores da educação, deverá buscar os conhecimentos etnomatemáticos, por muitas vezes perdidos no vácuo, e preparar-se para receber as propostas e problemas de seus alunos adquiridos em suas vivências sociais. Além do mais, a valorização da cultura popular torna o educador mais embasado e competente para atuar no meio ao qual está inserido, visto que, só devemos ensinar aquilo que verdadeiramente sabemos. Conheçamos o assunto a ser ensinado e a realidade local e estaremos prontos para dar uma boa aula.

Heterogeneidade das classes

Há uma incumbência de todos os educadores, inclusive os das séries iniciais, que é a análise constante das turmas a fim de filtrar os problemas decorrentes dos processos de ensino e aprendizagem, diagnosticá-los e apresentar soluções cabíveis a cada momento. O professor deverá ter em mente a diversidade de sua classe: o saber cultural de cada aluno, suas crenças, seus credos e suas preferências sexuais e até mesmo, político-partidárias. Essas informações não servirão para fazer-se um julgamento individual dos discentes, mas contribuirá para manter-se o respeito unitário ou coletivo de toda classe, bem como, ajudará o professor a organizar suas aulas e planejar melhor o seus discursos.

Sabemos que vivemos numa sociedade totalmente heterogênea e não cabe à escola fazer julgamentos condenatórios às escolhas de sua clientela, cabendo apenas o destrinchar dos assuntos em questão, seus prós e contras dentro de um sistema social que apesar de ser classificado como evoluído, mantem fortes raízes tradicionalistas conservadoras. Nessa ótica, preparar-se para receber uma classe totalmente divergente é um passo primordial para fazer funcionar um sistema de ensino voltado a alunos modernos, informatizados e totalmente práticos.

Conclusões finais

Conhecer os funcionamentos dos processos psicológicos da criança, a efetivação da aprendizagem nas séries iniciais, a valorização (não super) dos conhecimentos culturais, os momentos de aplicações dos diversos conteúdos, o tempo e o espaço escolar e a diversidade de mentes que se encontram em cada sala de aula, é pré-requisito para um ensino funcional, capaz de dar suporte as várias demandas sociais que buscam, diariamente, amparo resolutivo nas escolas.

A educação moderna não deve seguir um modelo pragmático de ensino. O professor deve proporcionar métodos inovadores, valorizar a qualidade do que é ensinado, manter-se sempre atualizado e jamais ter receio de expor ideias revolucionárias, mesmo que estas venham questionar teorias consagradas ao longo do tempo. O aprendizado do aluno e o reconhecimento do professor dependem de propostas nascidas no seio das discussões referentes às dificuldades educacionais, os modelos funcionais a seguir ou até mesmo sobre o que aprender para ser capaz de ensinar.

Só sei que sei de algo; não tudo, não nada.

Robison Sá.

Referências bibliográficas
Multiplicação e divisão já nas séries iniciais. Disponível em: http://revistaescola.abril.com.br/matematica/fundamentos/multiplicacao-divisao-ja-series-iniciais-500495.shtml. Acesso em: 02 de outubro de 2012.

Fundamentos teórico-metodológicos do ensino da matemática. Disponível em: www.sed.sc.gov.br.  Acesso em: 06 de outubro de 2012.


1: Esse curso traz uma visão do ensino da matemática através da ótica da pedagogia. Todas as disciplinas são moldadas e adaptadas para atenderem as demandas do ensino nas séries iniciais.