A autonomia do observado, segundo a Hermenêutica

Licenciatura Plena em Química (Universidade de Cruz Alta, 2004)
Mestrado em Química Inorgânica (Universidade Federal de Santa Maria, 2007)

A partir da tradição sustentada por Dilthey, se pretendeu estabelecer uma teoria geral do modo como as objetivações da experiência humana podem ser interpretadas, defendendo a autonomia do objeto de interpretação, e à possibilidade de uma objetividade histórica na elaboração de interpretações válidas.

Dilthey adaptou o conceito de hermenêutica de Schleiermacher, como método de compreensão, e prosseguiu desenvolvendo-a no âmbito das suas investigações sobre o desenvolvimento das ciências do espírito. Dilthey publicou o célebre texto “Surgimento da Hermenêutica” (1900), em que tratou da busca de cientificidade para as ciências interpretativas no qual estabeleceu a distinção entre explicar (Erklären) e compreender (Verstehen). Para ele, a teoria hermenêutica poderia ser considerada a base para as ciências humanas ou Geisteswissenschaften, um modo de acesso privilegiado ao significado em geral (HEIDEGGER, 2012).

Dilthey adaptou o conceito de hermenêutica de Schleiermacher, como método de compreensão (doutrina ou teoria da arte de interpretar textos), tomando por base “uma análise da compreensão como tal e, incluindo no âmbito das suas investigações sobre o desenvolvimento das ciências do espírito, também prosseguiu no desenvolvimento da hermenêutica”. Schleiermacher colocou a hermenêutica, como doutrina da arte da compreensão, e enquanto disciplina, na relação com a gramática, a retórica e a dialética, sendo tal metodologia formal (HEIDEGGER, 2012).

A tradição hermenêutica de Heidegger e Gadamer orientou-se para a questão mais filosófica do que a interpretação em si mesma, defendendo que o ato da compreensão está ligado à descrição do que é; ”está a fazer ontologia e não metodologia”. Conforme seus opositores, ambos são críticos destrutivos da objetividade e pretendiam “mergulhar a hermenêutica num pântano de relatividade, sem quaisquer regras” (PALMER, 1986).

Heidegger avançou propondo que a hermenêutica, em seu significado mais moderno, seja abordada muito menos no sentido estrito de uma teoria da interpretação, mas que persiga o significado original do termo gregohermêutiká - que deriva de Hérmes, o deus mensageiro dos deuses - na realização do hermenéien (do comunicar), ou seja, da interpretação da faticidade que conduz ao encontro, visão, maneira e conceito fático. Entende ele por fático “algo que é”, articulando-se por si mesmo sobre um caráter ontológico, o qual é desse modo.

Já para Mannheim, a interpretação se ocupa da mais profunda compreensão do sentido, pois em seu conteúdo mais autêntico este somente pode ser compreendido ou interpretado. Assim sendo, as abordagens qualitativas trabalham com construtos sociais, cuja importância será reconhecida no processo interativo de pesquisa e de interpretação dos dados coletados (MANNHEIM, 1964).

Referências:
HEIDEGGER, Martin.  Ontologia – Hermenêutica da Faticidade. Petrópolis: Editora Vozes, 2012.

PALMER, Richard E. Hermenêutica. Lisboa: Edições 70, 1986.

MANNHEIM, Karl. Beiträge zur Theorie der Weltanschaungsinterpretation. Neuwied: Luchterhand, 1964.

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