Neoplatonismo

Por Ana Lucia Santana
Um dos movimentos filosóficos mais significativos da Antiguidade foi o neoplatonismo, assim denominado por beber na fonte da teoria platônica. Na verdade, só nos dias atuais os pesquisadores acrescentaram o prefixo neo, para marcar uma diferença em relação às duas correntes, as quais, apesar das aparências, eram bem distintas uma da outra.

O filósofo mais importante desta escola foi Plotino, que se formou em Alexandria – centro urbano que era então o cenário da convergência entre o pensamento grego e o oriental - e posteriormente transferiu-se para Roma. Os textos por ele produzidos foram depois compilados por seu discípulo Porfírio em uma obra conhecida como as Seis Enéadas.

Ao contrário de Platão, Plotino acreditava em uma espécie de monismo idealista. Para ele só existia mesmo Deus ou o Uno, de onde emana a fonte divina que irradia por toda a criação. Segundo este filósofo, as sombras nada mais eram que a carência de luz, a qual não conseguia atingi-las; mas não se podia dizer que elas tinham uma real existência.

Desta forma, os neoplatônicos rejeitavam o conceito do mal, e acreditavam apenas em graus de imperfeição, na carência da prática do bem. Contrariamente aos ensinamentos cristãos, não era necessário transpor as fronteiras da morte, caminhar para estágios de uma vida na espiritualidade, a fim de se conquistar uma alma perfeita e feliz. Estas virtudes podiam ser obtidas através do exercício constante da meditação filosófica.

Plotino tinha plena convicção de que a esfera material estava mergulhada nas sombras, mas ainda assim acreditava que as formas naturais refletiam um pouco da Luz do Uno. Ao lado de Deus estão posicionadas as idéias eternas, as formas primitivas de todos os seres. A alma do Homem é um dos raios desta chama que emana de Deus.

Tudo, portanto, é permeado pela fonte divina. Nos recantos mais distantes do Criador estão localizadas a terra, a água e as pedras. Por outro lado, o interior da alma humana é a esfera que se encontra mais perto de Deus. Só aí é possível ao Homem se reconectar com o Divino e até mesmo se sentir parte dele.

O monismo do neoplatonismo contrasta com o dualismo de Platão, que distingue entre o universo das idéias e o dos sentidos. A fusão completa da alma humana com Deus, a qual pode ser vivenciada por algumas pessoas em determinados momentos da existência, dá origem ao que se chama de experiência mística, experimentada inclusive por Plotino. Esta vivência reafirma, portanto, que tudo existe em Deus, tudo é Deus, a plenitude.

Outros neoplatônicos se destacam, ao lado de Plotino, entre eles Porfírio, Proclo, Jâmblico, Hipátia de Alexandria, e até mesmo Agostinho de Hipona, antes de sua rendição ao Catolicismo, religião na qual ele, posteriormente, é sagrado como Santo Agostinho. Embora esta teoria seja considerada um pilar do paganismo, vários cristãos foram inspirados por ela, que deixou marcas profundas na própria teologia cristã. É no Cristianismo que o Uno é considerado sinônimo de Deus.

Na era medieval, os conceitos desenvolvidos pelos neoplatônicos se insinuaram no interior da mentalidade dos judeus adeptos da Cabala, os quais modelaram esta doutrina conforme suas inclinações ao monoteísmo. Estas idéias se infiltraram igualmente entre os filósofos islâmicos e sufis, nesta mesma época. O neoplatonismo encontrou abrigo no Oriente e, posteriormente, foi resgatado na esfera ocidental por Plethon, e ressuscitado durante o Renascimento.

Fontes:
http://pt.wikipedia.org/wiki/Neoplatonismo
O Mundo de Sofia – Romance da História da Filosofia – Jostein Gaarder – São Paulo, Cia das Letras.