Paz Armada

Graduação em História (Universidade do Vale do Sapucaí, UNIVÁS, 2008)

Si vis pascem, para bellum”. Este antigo provérbio latino, cuja tradução literal seria algo como: “Se quer paz, prepara-te para a guerra” descreve com perfeição o período da história européia (e mundial) denominado “Paz Armada”. Uma época em que o mundo se preparava muito rapidamente para a tragédia da Primeira Guerra Mundial.

Desde os últimos anos do século XIX, mais especificamente desde 1870, a Europa passa a entrar numa espiral de tensões e conflitos latentes que atravessou mais de 40 anos. Diversos motivos levaram o continente a essa escalada de tensões e confrontos.

O primeiro deles é o processo de unificação de duas regiões da Europa. A Itália e a Alemanha, após sucessivos conflitos e revoltas, conseguiram consolidar seus respectivos processos de unificação, tornando-se Estados soberanos, independentes e unificados, reunindo em si vários antigos Estados europeus que remetiam à Idade Média e início da Idade Moderna.

Esse processo foi bastante conflituoso, sobretudo no caso alemão, que travou guerras contra a Áustria, a Dinamarca e a França para consolidar seu território.

Isso gerou outro problema que torna a Europa ainda mais tensa. Os franceses, derrotados em 1870 e tendo perdido territórios, gerando uma profunda crise no país, alimentaram quanto aos alemães um comportamento revanchista bastante acentuado, causando tensão no centro do continente.

Outro fator preponderante para a elevação da temperatura dos conflitos foi a acirrada disputa colonial entre várias das potências europeias. Inglaterra e França, cujas política colonial estava, até aquele momento, estabilizada e garantida, passam a ter nos dois novos Estados europeus concorrentes de peso tanto na questão industrial (onde os alemães e italianos lograram um êxito bastante considerável em pouco tempo) quanto na questão imperialista, onde tanto a Itália quanto a Alemanha avançaram em territórios de interesse anglo francês ou vizinhos a esses, na África e na Ásia.

Outro motivo bastante significativo para o aumento das tensões foram os arranjos territoriais pelos quais a Europa passava, seja com o movimento nacionalista, que crescia naquele momento e alimentava tentativas de independência e, com isso, feria os interesses de Impérios multiétnicos já consolidados em território europeu; seja com sucessivos arranjos entre potências para a redefinição de seus espaços de influência dentro do continente nesse momento. O nacionalismo sérvio dentro do Império Austro Húngaro é um exemplo da primeira questão, e a já citada questão da Alsácia Lorena exemplifica a segunda.

Nesse clima de incerteza, insegurança e conflito de interesse crescentes, as principais potências europeias decidiram optar pela política de dissuasão, visando forçar seus adversários a não se utilizarem de violência para resolver qualquer dessas questões. Essa dissuasão foi obtida através do incremento dos esforços militares, do maior investimento em material bélico e no aumento em número e força, das Forças Armadas de todos os lados.

Optando por essa política, a Europa mergulhou num período bastante tenso e duradouro, embora paulatino, quando as tensões não se resolveram, a diplomacia foi exercida com inúmeras limitações e resguardos, o discurso e a prática militares se tornaram a tônica do discurso político e os povos e países se envolveram, cada vez mais, com o discurso de guerra, abandonando a memória dos fatos do século XIX, nas guerras contra Napoleão, e a intenção de manter em paz o continente, intenção firmada logo após o fim daqueles conflitos.

A Europa optava por um caminho sem volta, que gestaria e daria origem ao conflituoso mundo do século XX.

Bibliografia:
KEEGAN, John. Uma história da guerra. São Paulo: Companhia das Letras, 2006.
MAGNOLI, Demétrio (org.). história das guerras. história das guerras. são paulo: contexto, 2006

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