Gêneros Jornalísticos

Por Felipe Araújo
Por representarem manifestações culturais e estarem ligados a fatos que alteram decisões sociais, os gêneros jornalísticos devem ser estudados como um fenômeno histórico. Seria difícil classifica-los, pois os gêneros estão sempre em transformação e se alteram de acordo com cada país e cultura.

Para buscar uma análise mais profunda sobre gêneros, utiliza-se o exemplo de Platão na classificação entre gênero sério e burlesco. O primeiro envolvia a epopéia e a tragédia, já do segundo, faziam parte a sátira e a comédia. Para Platão, a poesia seria apenas um simulacro da realidade, impedindo o homem de conhecer a si mesmo e jogando-o no mundo das paixões, o que dificultaria sua relação com o mundo das ideias. O filósofo definiu três gêneros: mimesis (tragédia e comédia), expositivo (ditirambo, nomo) e misto (epopéia), que mistura ficção com realidade.

Jacques Derrida, pensador francês contemporâneo, afirma que “os gêneros não devem ser misturados, como um voto de obediência, como um voto de compromisso e fidelidade, sendo assim fiel à lei do gênero, à lei da pureza”. Porém, o próprio autor contradiz-se, pois, ao analisar o limite dos gêneros, cai na seguinte questão: "até que ponto um gênero pode ser contaminado por outro gênero?”.

Um leitor, ao deparar-se com o livro Os Lusíadas, de Camões, onde fatos e ficção estão reunidos em uma epopéia, tem em mãos o estilo híbrido, ou misto, na definição de Platão. Até em uma reportagem no estilo gonzo, na qual Hunter Thompson utilizava sua imaginação, fatos e alucinações para descrever acontecimentos “reais”, há, sem dúvida, a presença do hibridismo em sua formam mais extrema. Nas palavras do escritor americano William Faulkner, “a verdade se parece mais com a ficção do que com jornalismo”. Ou seja, o hibridismo é utilizado como uma forma de aumentar as interpretações sobre determinado acontecimento, abolindo a primeira concepção de Derrida sobre uma suposta “pureza” definida pela lei dos gêneros.

Gêneros Discursivos

O discurso pode ser de ordem expositiva, sobre um determinado assunto. Mas também pode ser discorrido, em ato de comunicação linguística.

Gêneros Midiáticos

Definir este tipo de gênero não é tarefa fácil. Na opinião do professor José Marques Melo: “classificar gêneros jornalísticos é o maior desafio”. Ele explica que a configuração da identidade do jornalismo, enquanto objeto científico e o alcance de sua autonomia que passa inevitavelmente pela sistematização dos processos sociais inerentes à captação, registro e difusão da informação da atualidade, ou seja, do seu discurso manifesto, tornam as classificações indiretamente perceptíveis.

Os gêneros servem para aumentar a compreensão da grande quantidade de textos veiculada pela mídia. De acordo com estudiosos, as definições aparecem no estilo e no manejo da linguagem. Outros preferem analisa-las pela obrigatoriedade de serem interessantes e motivadoras para o leitor, ou seja, definidas por sua forma mais vendável.

Há também uma corrente que diz que a diferença está justamente na forma como o texto é escrito, podendo ser jornalismo noticioso ou literário. Devido a esta dificuldade de análise e as múltiplas propostas sugeridas pelos pesquisadores da comunicação, o peruano Juan Gargurevich chegou a algumas das definições utilizadas no jornalismo atual:

  • Entrevista: permite ao leitor conhecer opiniões das pessoas envolvidas no ocorrido
  • Crônica: Trata de assuntos cotidianos de maneira literária
  • Reportagem: Relato ampliado de um acontecimento. Com pesquisa de campo.
  • Gráficos: Informação na forma de sinais, desenhos, figuras, signos.
  • Colunas: Espaço na publicação onde uma pessoa escreve regularmente.
  • Artículos (Artigos): Textos opinativos sempre assinados.
  • Testemunhos: Narração real e circunstanciada que se faz em juízo; depoimento, declaração da testemunha.
  • Resenhas e críticas: Apreciação de um trabalho artístico, orientando o leitor

A partir do século XIX, a notícia torna-se mais evidente e se consolida com os acontecimentos da época. De acordo com os pesquisadores Armañazas e Noci Apud Melo, o gênero jornalístico denominado notícia tornou-se a base das publicações daquele século. Firma-se, neste momento, um acordo onde o jornalista não pode transgredir o campo que separa o real da ficção. Assim, surge um “acordo de cavalheiros” entre jornalistas e leitores para tornar possível a leitura das notícias como a da realidade.

Notícia é tudo que o público precisa saber e tudo que o público deseja falar, pois a sinergia entre leitores e publicações acaba por alterar formatos, linhas editoriais e conteúdos. Lida também com interesse humano e informações da atualidade.

Para designar melhor os gêneros de uma época e de um país, Marques Melo propõe fazer uma classificação degêneros jornalísticos brasileiros, configurando um agrupamento em categorias correspondentes à intencionalidade dos relatos, identificando dois tipos:

  1. A reprodução do real: através da qual o jornalista comunica os fatos noticiosos
  2. Leitura do real: jornalismo opinativo, no qual existe uma análise da realidade dentro de uma conjuntura temporal.

Porém, um problema nesta classificação é a questão do que pode ser considerado real. Será que o jornalista não altera a realidade de uma forma ou outra em seu relato? Existiria uma objetividade jornalística? Para responder estas perguntas, conclui-se que a relação do ser humano com o real é subjetiva, isso não permite sua reprodução fiel. As pessoas, dotadas de sentidos, captam a realidade de fora para dentro, assim, ninguém tem a mesma percepção dos fatos. Isso transforma objetividade jornalística em uma lenda.

Um verbete encontrado no próprio Manual de Redação do Jornal Folha de São Paulo explica que:

“Objetividade – não existe objetividade em jornalismo. Ao redigir um texto ou a editá-lo, o jornalista toma uma série de decisões que são, em larga medida, subjetivas, influenciadas por suas posições pessoais, hábitos e emoções”.

Gêneros jornalísticos

Podem servir para integrar um diálogo entre o jornal e o leitor. É através da exigência dos leitores que os conteúdos modificam-se. Sua organização provém da forma como as empresas de comunicação editam o conteúdo. Marques Melo propõe uma organização de tais gêneros da seguinte forma:

  • Gêneros informativos: Nota, notícia, reportagem, entrevista, título e chamada.
  • Gêneros opinativos: Editorial, comentário, artigo, resenha ou crítica, coluna, carta, crônica.
  • Gêneros utilitários ou prestadores de serviços: roteiro, obituário, indicadores, campanhas, “ombudsman”, educacional.
  • Gêneros ilustrativos ou visuais: gráficos, tabelas, quadros, demonstrativos, ilustrações, caricatura e fotografia.
  • Propaganda: Comercial, institucional e legal.
  • Entretenimento: Passatempos, jogos, história em quadrinhos, folhetins, palavras cruzadas, contos, poesia, entre outros.

Os títulos encontram-se dentro dos gêneros informativos, assim como a fotografia é um dos componentes dosgêneros visuais. No caso dos títulos, sua importância no jornalismo deve-se ao despertar do interesse público. Sabe-se que a maioria dos leitores passa os olhos apenas nas manchetes, daí a relevância de um título bem elaborado.

A fotografia é a junção perfeita da palavra com a imagem. Um recorte da realidade que oferece a oportunidade de interpretação da informação visual. Já a caricatura, da qual a charge faz parte, é uma representação gráfica com personagens que ilustram as abordagens jornalísticas de certo período. Geralmente tem tom satírico e refletem as opiniões dos cartunistas sobre determinado assunto, por isso sua inclusão nos gêneros ilustrativos.

Fontes:
http://intercom.org.br/papers/viii-sipec/gt05/40-%20Jorge%20Lellis%20-%20trabalho%20completo.htm
http://www.maxwell.lambda.ele.puc-rio.br/3196/3196.PDF
Novo Manual da RedaçãoFolha de São Paulo. Editora Folha de São Paulo. São Paulo. 1992.