O erudito e o popular em Macunaíma

A obra “Macunaíma – O herói sem nenhum caráter” do autor Mário de Andrade apresenta capítulos curtos, nos quais a sequência lógica é posta de lado. Possui uma linguagem solta e os sinais gráficos não seguem uma ordem linear, com ênfase à ausência de vírgulas. A partir dessas e outras características cria-se um universo de leitura que precisa ser “adivinhado” pelo leitor, levando-o a usar a imaginação no decorrer da narrativa.

Outras marcas presentes no livro em questão são o erudito e o popular, estes, que algumas vezes se confundem e são usados num mesmo capítulo e até mesmo num só parágrafo. O primeiro é utilizado de forma mais discreta, tendo a linguagem como ícone de aparição. O segundo é mais notável por possuir expressões utilizadas no dia a dia, superstições do povo, rimas.

Essas duas características citadas têm na linguagem uma das marcas funcionais, ou seja, é nela que se encontra a base da estrutura do romance moderno, valorizando a cultura e o modo de falar popular e criticando a maneira erudita presente em escolas literárias anteriores.

As cenas encontradas no decorrer da história, juntamente com a linguagem que ela é escrita, mostram aos leitores a união da forma erudita e popular. O popularismo é apresentado através da linguagem, crenças, expressões, superstições, adivinhações.

Já o erudito é mostrado de forma mais singela, ou seja, o traço marcante dele é a linguagem, que aparece em todo o livro, sendo realçado no capítulo “IX – Carta Pras Icamiabas”, na qual Macunaíma descreve às Amazonas a cidade de São Paulo.

Dentre as formas populares encontra-se muita crença das personagens, como, por exemplo, no fragmento a seguir: “Foram pra casa botar pelego por debaixo do lençol porque por terem brincado com fogo aquela noite, na certa que iam mijar na cama. Foram todos dormir. E a escuridão se fez.” (p. 73)

“Mandaram buscar na Bolívia uma tesoura e enfiaram ela aberta debaixo do cabeceiro porque sinão Tutu Marambá vinha, chupava o umbigo do piá e o dedão do pé de Ci.” (p. 21). Este trecho do livro representa uma das tantas exemplificações de superstição presentes no livro. Neste caso, diz-se que ao colocar uma tesoura aberta em baixo da cama, travesseiro, cabeceira afasta os maus espíritos, da vida da criança.

Expressões utilizadas no cotidiano também aparecem aos montes, como mostra os seguintes diálogos:

“ - Que é isso!
- Chouriço!” (p. 24)
- Me diga uma coisa: você conhece a língua do lim-pim-gua-pá?
- Nunca vi mais gordo!
- Pois então, rival: Vá-pá à-pá mer-per-da-pá!” (p. 81)

Para finalizar a análise do popular em Macunaíma, alguns exemplos de brincadeiras em adivinhações:

“... O que é que é: É comprido roliço e perfurado, entra duro e sai mole, satisfaz
o gosto da gente e não é palavra indecente?
- Ah! Isso é indecência sim!
- Bobo! É macarrão!
- Ahn... É mesmo! ... Engraçado, não?” (p.83)

“ – Era uma vez uma vaca amarela, quem falar primeiro come a bosta dela!” (p.108)

Quanto ao erudito, é nítida a influencia de língua estrangeira, como pode-se ver em: “Nem bem sarou foi na casa dos ingleses pedir uma Smith-wesson” (p.36) e “ – Dá peixe pra mim, seu Yes? - All right. E deu um lambari de rabo vermelho.” (p. 81).

Os fragmentos abaixo são da carta apresentada no livro (Capítulo IX). Em tal capítulo é utilizado primeira pessoa, sendo que Macunaíma sai do seu vocabulário convencional e apela para uma linguagem erudita, porém, no decorrer da carta são encontrados “erros ortográficos” cometidos pelo personagem. Além disso, cita nome de alguns estudiosos e termos bastante requintados, que funcionam como sátira aos escritores parnasianistas, que utilizavam desse recurso em suas obras.

“ Apenas alguns “sujeitos de importáncia em virtude e letras”, como já dizia o bom velhinho e clássico frei Luís de Souza, citado pelo doutor Rui Barbosa...” (p. 60)

“... quando talvez por algum influxo metapsíquico, ou, qui lo sá, provocado por algum libido saudoso, como explica o sábio tudesco, doutor Sigmund Freud (lede Fróide)...” (p. 60)

“ Que beldades! Que elegância! Que cachet! Que degagé flamífero, ignívomo,
devorador!!” (p. 61)

Mário de Andrade, igualmente aos outros autores do Modernismo, criticou o estilo pomposo e erudito da literatura parnasiana, esta que é oposição direta do período literário do qual participa.

No desenrolar da trama é possível identificar contraposições, que mostram suas respectivas características: entre o ambiente da cidade e da mata, o “pulo” da infância pra vida adulta de Macunaíma.

Grande parte da obra é fundamentada na forma de expressão e na cultura popular, que são demonstradas através de um nível erudito. Isto pode ser observado nos trechos em que aparecem histórias folclóricas, dando ao livro um misto de realidade e magia.

Arquivado em: Literatura