Espumas Flutuantes

Por Paula Perin dos Santos
Espumas Flutuantes” é uma coletânea de poemas de Castro Alves, publicada em 1870. Este livro nascera numa época em que o autor lutava contra a tuberculose, que se agravara em função de um acidente numa caçada: a arma disparou e atingiu-lhe o calcanhar esquerdo, quando estava em São Paulo prestigiando a estréia de sua peça “Gonzaga ou a Revolução de Minas”.

Após perder o pé, retorna para sua terra natal, no sertão da Bahia. É nessa viagem que o poeta tem a idéia de publicar seus poemas sob o título de “Espumas Flutuantes”, momento este registrado no poema “Adeus”:

“Recomeço de novo o meu caminho
Do lar deserto vou seguindo o trilho... (...)”

Castro Alves não precisou buscar inspiração noutros campos para escrever seus poemas. Em “Espumas Flutuantes”, por exemplo, a preocupação com os temas existenciais, amor e morte, fizeram parte da vida do poeta. Perdeu a família num espaço de cinco anos e amou várias mulheres, especialmente Eugênia Câmara, por quem tinha uma paixão ardente que influenciou grandemente sua visão poética do amor.

“Espumas Flutuantes”, o único livro publicado em vida por Castro Alves, reúne poemas escritos em diferentes épocas, abrangendo os mais variados temas de sua poética. Pela primeira vez no Romantismo Brasileiro, um autor une em sua obra experiência e inspiração, dando assim uma nova face à poesia amorosa. Outro ponto que o poeta inclui em sua obra, que o difere dos demais românticos de sua geração, é que em sua poesia, além de mostrar o desequilíbrio entre seu “eu” e o mundo, ele tem consciência dos problemas humanos e busca meios de solucioná-los.

A linguagem de sua poética é saborosa, apresenta uma perspectiva crítica e revela alguns traços do Realismo, que já apresentava nuances na época em que publicou “Espumas Flutuantes”. Mesmo assim, a linguagem desta coletânea de poemas é essencialmente romântica e muito carregada de emoção e paixão. Os poemas apresentam também uma inovação na linguagem: a preposição “para” é substituída pelo “pra”.

A lírica amorosa de “Espumas Flutuantes” apresenta bem poucos poemas que contenham vestígios de um amor platônico e da idealização feminina. Em vez da “virgem pálida”, a mulher nos poemas de Castro Alves é um ser concreto e participa ativamente do envolvimento amoroso. Por isso, a amor passa a ser uma experiência viável, concreta, capaz de trazer o prazer ou a dor. Esse traço de sua poesia constitui um avanço decisivo na tradição poética brasileira, onde predominava o amor convencional e abstrato dos clássicos e o amor cheio de medo e sentimento de culpa dos românticos.

“E amamos – Este amor foi um delírio...
Foi ela minha crença, foi meu lírio,

Minha estrela sem véu...
Seu nome era o meu canto de poesia,
Que com o sol – pena de ouro – eu escrevia
Nas lâminas do céu.

“Em teu seio escondi-me ... como a noite
Incauto colibri, temendo o açoite
Das iras do tufão,
A cabecinha esconde sob asas,
Faz seu leito gentil por entre as gazas
Da rosa do Japão”.

(Dalila, p. 130)

O conteúdo de sua lírica é uma espécie de superação da fase adolescente do amor e início de uma fase adulta mais natural, que aponta para uma maior objetividade, nuances do Realismo.

“Espumas flutuantes” é quase uma despedida. O poeta sabia que ia morrer. Por isso, queria deixar aos seus amigos as lembranças de “Espumas Flutuantes”. Identificamos esse “registro” no poema “Mocidade e Morte”:

“E eu sei que vou morrer... dentro do meu peito
Um mal terrível me devora a vida:
Triste Ahasverus, que no fim da estrada,
Só tem por braços uma cruz erguida.” (...)

“Adeus, pálida amante dos meus sonhos!
Adeus , vida! Adeus , glória! Amor! Anelos!
Escuta, minha irmã, cuidosa enxuga
Os prantos de meu pai nos teus cabelos.
Fora louco esperar! Fria rajada
Sinto que do viver me extingue a lampa...
Resta-me agora por futuro – a terra,
Por glória – nada, por amor – a campa”

(Espumas Flutuantes, p. 59)

Fontes
http://vestibular.uol.com.br/ultnot/livrosresumos/ult2755u61.jhtm
http://fredb.sites.uol.com.br/espumas.html

CEREJA, William Roberto e MAGALHÃES, Thereza Cochar. Literatura Brasileira em diálogo com outras literaturas. 3 ed. São Paulo, Atual editora, 2005, p.218-21.

CHAVES, Lilia Silvestre. Castro Alves: Liberdade do amor ou amor da liberdade. In: ESPUMAS FLUTUANTES – Castro Alves. São Paulo, Ática, 1998, p. 5-36.