Morfologização

Especialista em Planejamento, Implementação e Gestão da Educação a Distância (UFF)
Graduação em Letras (Fundação Comunitária de Ensino Superior de Itabira, FUNCESI)

A morfologização, um dos componentes do processo de gramaticalização, designa as alterações que afetam o radical e os afixos. (FORTUNATO, s/d, p.3). Dito de outro modo, a morfologização é a ação de alterar a constituição de determinada palavra ou expressão, visando à criação de novas. Para a explanação do tema em questão, propõe-se a leitura do texto em prosseguimento, produzido pela autora deste artigo:

O nosso líder comunitário, Rogério, agiu correto. Foi até lá na câmara e reivindicou os nossos direitos. A gente não podia ser desapropriado... Rogério reuniu com todos e, na hora em que ele começou a falar, ficamos muito nervosos. Olha só a nossa situação? Sermos despejados do local aonde a gente foi criado, por causa da construção de um parque aquático? Do jeito que a empresa é influente, temíamos o pior... Como estava dizendo, não dava para aceitar algo assim. Mas, para o alívio da gente, a multinacional foi proibida de fazer o tal empreendimento, graças à intervenção de nosso líder.

O texto narra, sob a visão de uma moradora, a situação vivida por determinada comunidade, que estava para ser desapropriada. Algo que não ocorreu, sobretudo, pela atitude do líder da referida comunidade. Encontram-se presentes, no relato, algumas palavras que são fruto do processo de morfologização, sobretudo, em situações informais da oralidade:

  1. Utilização do “adjetivo” no lugar de um “advérbio”: “Rogério agiu correto.”. A gramática determina o emprego do advérbio para a indicação da circunstância em que ocorreu a ação verbal. Nesse caso, tem-se o advérbio de modo: “Rogério agiu corretamente”.Vale elucidar que se trata de um caso de morfologização, uma vez que o “adjetivo” é utilizado em situações informais no lugar do “advérbio”. Nota-se que há a retirada do sufixo “mente”, designador de “modo”.
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  2. Aglutinação “na”, no lugar da crase, antepondo-se o local a que se vai: “Foi até lá na câmara e reivindicou os nossos direitos.”Forma que também se percebe na oralidade informal.
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  3. Omissão do “se” indicador de ação reflexiva: “Rogério [se] reuniu com todos e [...]”.
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  4. Aglutinação “na” em locução prepositiva: “[...] na hora em que ele começou a falar [...]”.A partir da preposição referente “em”, criaram-se diferentes formas de aglutinação, em que o “na” (em + a) é utilizado em concordância com o substantivo feminino, em situações formais. Fato que também ocorre em: “[...] por causa da construção de um parque aquático [...]”.
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  5. Substituição do verbo na forma imperativa (Olhe) pelo verbo no presente do indicativo, mantendo-se a ideia daquele: “Olha só a nossa situação?”
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  6. Uso de “aonde” (indicador de movimento) no lugar de “onde” (pronome relativo): “Sermos despejados do local aonde a gente foi criado”. Para a retomada a um lugar físico, a gramática prescreve o uso de “onde”. Já a forma “Aonde” deve ser utilizada para expressar a ideia de movimento “Aonde você vai?”. Ocorre a morfologização, de forma corriqueira, na referência a um objeto “Este é o projeto, aonde estabelecemos as novas regras.”.
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  7. Uso do substantivo feminino “gente” como substantivo masculino (alusão a “ser humano” ou a “homem”):
    1. “A gente não podia ser desapropriado [...]”.
    2. “[...] a gente foi criado”.

    Visualize que, apesar de “gente” ser um substantivo feminino, os elementos referentes a ele foram flexionados no masculino “desapropriado” e “criado”.

Para encerrar, a “morfologização” é o processo pelo qual determinada palavra é criada, a partir de unidades linguísticas pré-existentes (os afixos e radicais), passando a ser utilizada em contextos formais e/ou informais da comunicação. Esse rico fenômeno linguístico se concretiza, devido à dinamicidade da língua.

Referência:

FORTUNATO, Isabella Venceslau. Universidade Federal da Bahia – FAPESB. Gramaticalização e lexicalização das lexias complexas no português arcaico. Disponível em: < http://www.filologia.org.br/ileel/artigos/artigo_456.pdf >. Acesso em: 10 de dezembro de 2015.

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