Alienação

Por Willyans Maciel

Mestre em Filosofia (UFPR, 2013)
Bacharel em Filosofia (UFPR, 2010)

Categorias: Filosofia
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Na vida cotidiana, na ciência ou na filosofia, o conceito de alienação assume diversos papéis e significados. No entanto, estes significados podem ser vistos como variações de um mesmo significado amplo, alienação como o ato pelo qual alguém torna-se estranho ou outro alguém ou a algo. O resultado de tal ato, seja de alguém em relação a algo ou o oposto, também é chamado de alienação.

Neste sentido, alienação é: transformar propriedades, relações e ações humanas em propriedades e ações de coisas, que são independentes do homem. Outra interpretação é a de que a alienação é um afastamento de si mesmo, um processo através do qual o homem pensa a si, através de suas ações, como estranho a sua própria natureza, vendo-se como "coisa" (reificação), afastando-se da natureza humana.

Em termos de sociedade, a alienação é um conceito abordado e desenvolvido por vários teóricos clássicos e contemporâneos como uma condição nas relações sociais manifestada por um baixo grau de integração, ou de valores comuns, e um elevado grau de distanciamento ou isolamento entre indivíduos, ou ainda entre um indivíduo e um grupo de pessoas, em um ambiente de convivência. O conceito tem muitos usos específicos dependendo da disciplina que o utiliza, mas em geral pode se referir tanto a um estado psicológico pessoal (subjetiva) como a um tipo de relação social (objetivamente).

Filosoficamente, o conceito de alienação foi elaborado pela primeira vez pelo filósofo alemão Georg Wilhelm Friedrich Hegel. Segundo Hegel, a alienação é uma característica essencial do homem (a mente finita). A alienação se dá por meio da produção de coisas, para expressar-se em objetos, sejam coisas físicas, produtos culturais ou instituições sociais. A isto Hegel chamou objetificação, que segundo o filósofo é uma forma de alienação. Os objetos produzidos pelo homem tornam-se estranhos ao próprio homem, ao assumirem sua própria forma e função.

Alguns autores têm defendido que o conceito de alienação pode ser encontrado, em sua primeira forma no Velho Testamento, quando este apresenta o conceito de idolatria. De acordo com outros no entanto, a doutrina cristã do pecado original e da redenção pode ser considerada como uma primeira versão da doutrina da alienação, de forma semelhante a exposta por Hegel. No entanto, já que Hegel vê a natureza como uma forma auto-alienada da Mente Absoluta (ou Espírito Absoluto, ou ainda Deus), o mais provável é que a fonte do conceito de alienação de Hegel se encontre em Platão, quando este apresenta sua interpretação do mundo natural como uma imagem imperfeita do mundo das Ideias.

Para Platão a psique da alma humana é uma relação tripartida entre a razão, a emoção e os sentidos. Um ser humano só atingiria a harmonia psicológica e felicidade através de uma alma capaz de equilibrar estes três aspectos. Esta ordem ideal desenvolve-se não só no plano psicológico, mas também social e politico. Na República, Platão defende que na Polis ideal haveria uma harmonia semelhante, em que cada membro está em acordo com o todo, de forma que os membros de cada classe comportam-se adequadamente. Neoplatônicos, como Plotino, forçam essa noção em um sentido mais ontológico. De acordo com Plotino, a alma deve ser devidamente sintonizada com o Bom (Uno). Por esta razão, sempre que a alma dirige a sua razão, o desejo, ou a atenção para coisas inferiores isto resulta em uma forma de alienação.

A despeito das influências anteriores, Hegel, Ludwig Feuerbach e Karl Marx, foram os três primeiros a apresentar uma elaboração explicita do conceito de alienação e cuja interpretação é base para as discussões sobre o conceito, seja em filosofia, sociologia ou psicologia.

Referências bibliográficas:
HEGEL, Georg Wilhelm Friedrich. Fenomenologia do espírito. (tradução Paulo Meneses). 5º ed. Petrópolis: Vozes. 2008.

PLATÃO. A República. (trad. Enrico Corvisieri) São Paulo: Nova Cultural, 1999. (Col. Os Pensadores).

PLOTINO. Enneadi. Traduzione, introduzione, note e bibliografia di G. Faggin. Presentazione e iconografia plotiniana di G. Reale. Milano: Bompiani, 2000.

REALE, Giovanni e ANTISERI, Dario. História da filosofia. /Il pensiero occidentale dalle origini adoggi. Trad. São Paulo: Paulinas, v.1, 1990, 693 p.

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