Denotação

Por Leticia Gomes Montenegro

Mestre em Linguística, Letras e Artes (UERJ, 2014)
Graduada em Letras - Literatura e Língua Portuguesa (UFBA, 2007)

Categorias: Linguística, Português
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As línguas constituem-se instrumentos de comunicação humana carregadas de conteúdos semânticos, reproduzidas e representadas fonéticas e fonologicamente. Assim, essa comunicação pode ocorrer para realizar finalidades distintas de contexto para contexto, e para isso, a língua oferece algumas ferramentas aos falantes. Sobre este aspecto, a linguagem assume formas de acordo com o objetivo do texto ou da fala. Logo, a denotação é uma das formas definida pela gramática como o efeito linguístico no qual a palavra mantém relação direta e objetiva com o sentido que expressa. Ou seja, trata-se do sentido próprio da linguagem, possibilitando uma informação precisa, que evita o duplo sentido.

No uso da linguagem, falantes fazem escolhas lexicais, isto significa que ao elaborar uma frase, uma fala ou um texto, escolhemos as palavras de acordo com o sentido que elas expressarão naquele contexto. Essas escolhas mantêm relações também com algumas marcas do usuário, tais como a região de origem, a idade, o gênero, dentre outras características que podem ser identificadas através do discurso. Entretanto, no uso denotativo da linguagem, as escolhas lexicais realizadas pelo sujeito, não oferecem muitos indícios a seu respeito, uma vez que o sentido denotativo explora as relações entre o signo, o significado e o significante de acordo com o descrito pelos dicionários, não ocorrendo variações regionais, por exemplo, ou atribuição de algum significado surpreendente. É por meio do sentido denotativo que a linguagem cumpre sua função de transmitir informações, comunicar um fato, registrar um acontecimento, bem como a própria interação entre os falantes ocorrerá sem ambiguidades.

O efeito denotativo também pode aparecer em uma expressão de afeto ou sentimento, com menor emoção do que no uso da linguagem com sentidos mais enfáticos ou apelativos. Ao analisar o momento real do uso da língua, nota-se que os efeitos linguísticos podem se misturar, contudo em um texto jornalístico, com fim de informar um evento, o material linguístico deve ser produzido em sentido próprio, mantendo as relações diretas entre os signos, os significados e os significantes, conforme o texto da notícia publicada no site da Geledés em 02/01/2018

AUMENTO DO ENCARCERAMENTO FEMININO REVELA RACISMO ESTRUTURAL NAS PRISÕES

Segundo Anuário Brasileiro de Segurança pública, em 2014, 607.731 pessoas estavam presas no Brasil / Arquivo/Agência Brasil.

“O Que é Encarceramento em Massa” é o nome do livro, da série Feminismos Plurais, que discute a fusão entre aprisionamento, seletividade penal e racial no Brasil e feminismo negro. A obra tem como base as teorias de intelectuais negras como Sueli Carneiro e a estadunidense Angela Davis."

(...)

Fonte: https://www.geledes.org.br/aumento-do-encarceramento-feminino-revela-racismo-estrutural-nas-prisoes/

O texto jornalístico informa um acontecimento, e tem o princípio ético de não emitir opiniões, apresentando uma visão imparcial dos fatos. Dessa maneira, é um texto elaborado a partir da linguagem denotativa, com termos em sentido próprio, e enunciados com precisão nas palavras.

Em resumo, para muitas gramáticas, a denotação é o uso das palavras em seu sentido original, independente do contexto, tal como está descrita pelos dicionários.

Verifique o exemplo retirado de um livro didático:

Uma diversidade, muito sutil, é a que existe entre a fala e a escrita. É a escrita que as gramáticas normativas escolares focalizam explícita ou implicitamente. O estudante já vem para a escola falando satisfatoriamente, embora seja em regra deficiente no registro formal do uso culto; o que ele domina plenamente é a linguagem familiar, na maioria dos casos. (CAMARA JR., Joaquim Mattoso. Estrutura da língua portuguesa. Petrópolis: Editora Vozes. 1977. Página 9)

O texto do professor Joaquim Mattoso Camara direciona-se aos professores e estudantes de língua portuguesa, de tal maneira que há a necessidade de se elaborar um texto denotativo, que comunique com precisão o conteúdo pretendido. Ao se referir à diversidade entre a fala e a escrita o autor se vale de qualitativos específicos, sem atribuir sentidos novos ou inesperados. O texto é compreensível, sem ambigüidades e informa ao leitor o conteúdo com assertividade.

Verifique esse segundo exemplo em que o texto foi retirado do livro “Para educar crianças feministas”, publicado a partir de uma carta que a autora escreveu para uma amiga, na qual o assunto é a educação dos filhos.

Por favor, saiba que levo sua tarefa – pensar como criá-la feminista – muito à sério. E entendo o que você quer dizer quando fala que nem sempre sabe qual deve ser a reação feminista a certas situações. Para mim, o feminismo é sempre uma situação de contexto. Não tenho nenhuma regra. (ADICHIE, Chimamanda Ngozi. Para educar crianças feministas um manifesto. Tradução: Denise Bottmann. – 1ª ed. – São Paulo: Companhia das Letras, 2017. Paginas 11, 12)

Neste trecho da carta, texto bastante informal, em que Chimamanda responde à pergunta de sua amiga correspondente, sobre como dar uma educação feminista para sua filha, a linguagem é direta e denota os significados apreendidos por cada palavra em seu estado original. Não há diversidades de sentidos em um único termo, nem há efeito que gere dúvida em cada afirmação. Dessa forma, apesar da carta ser uma modalidade mais livre da escrita, com menor exigência, o texto produz efeito denotativo e comunica exatamente o pensamento da escritora.

Bibliografia:

ILARI, Rodolfo. Introdução à Semântica – brincando com a gramática. 3. ed. – São Paulo: Contexto, 2002.

ILARI, Rodolfo. Introdução ao estudo do léxico – brincando com as palavras. – São Paulo: Contexto, 2002.

GARCIA, Maria Cecília. Minimanual compacto de gramática da língua portuguesa: teoria e prática – 1. ed. – São Paulo: Rideel, 2000.

CUNHA, Celso e CINTRA, Luís F. Lindley. Nova gramática do português contemporâneo. – 2. ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira.

BECHARA, Evanildo. Moderna gramática portuguesa. – 37. ed. rev., ampl. e atual. – Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2009.

HILST, Hilda. Cantares. – São Paulo: Globo: 2004. – (Obras reunidas de Hilda Hilst)

CAMARA JR., Joaquim Mattoso. Estrutura da língua portuguesa. Petrópolis: Editora Vozes. 1977.

ADICHIE, Chimamanda Ngozi. Para educar crianças feministas um manifesto. Tradução: Denise Bottmann. – 1ª ed. – São Paulo: Companhia das Letras, 2017.

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