“O final de todo estudante que se dedica é a aprovação”, afirma professor Piccini, autor do projeto Estudar e Aprender

27/07/2015 - 10h33 - Por Thaís Ferraz





Leandro Piccini é graduado em História pela Universidade Federal do Mato Grosso do Sul, trabalha como professor no ensino
regular e estuda neurociência voltada para o aprendizado e para o desenvolvimento pessoal. Após notar que seus alunos não sabiam como estudar, Piccini desenvolveu o projeto Estudar e Aprender, que pretende ajudar a desenvolver o aprendizado através do método dos 3 passos (Organização, Concentração e Memorização). Confira a entrevista:

Infoescola: Professor Piccini, você pode contar quando, e porquê, você decidiu desenvolver o método dos 3 passos? Qual foi sua motivação inicial?

Leandro Piccini: Na verdade, eu tenho o projeto do site desde o ano passado. Eu havia decidido começar dois projetos nesse ano: um de desenvolvimento pessoal, área que me interessa muito, e um mais voltado para a educação, que seria relacionado a como as pessoas aprendem. Porque eu, como professor formado, percebi que a Universidade não trabalha métodos de aprendizagem com os alunos; sobretudo, não estudamos como o cérebro aprende. Se a faculdade não forma os professores para que eles possam compreender como o cérebro trabalha a informação, nós vamos para a sala de aula e não passamos isso para os alunos. Nós formamos alunos para fazer provas, para prestar concursos, Enem, vestibulares...ao contrário do que todo mundo pensa, nós não saímos da educação formados para a vida. Não aqui. Nossa educação formal, no Brasil, forma o aluno para fazer prova. Mas, ao mesmo tempo que fazemos isso, não ensinamos os alunos a aprender bem, a compreender de fato a informação, ou como se organizar em casa para estudar, como se concentrar, como memorizar, enfim, como estudar de fato. Nós, como professores, passamos somente a informação. E aí fica a cargo do aluno se virar. E o que acontece? Ele chega no terceiro ano e percebe que tudo aquilo que ele aprendeu na escola é cobrado na prova, só que ele não aprendeu a aprender. Então eu fiz o projeto. Já existiam inúmeros sites e livros que trabalhavam com esse tema, mas decidi fazer um site tratando o assunto da minha maneira. Como? eu coloco desenhos, uso uma linguagem um pouco mais simplificada, sempre com a preocupação de que a pessoa que está lendo os textos consiga aplicar aquilo na vida dela. É uma linguagem pedagógica e lúdica. Tem dado certo.

"Nossa educação formal, no Brasil, forma o aluno para fazer prova. Mas, ao mesmo tempo que fazemos isso, não ensinamos os alunos a aprender bem, a compreender de fato a informação, ou como se organizar em casa para estudar, como se concentrar, como memorizar, enfim, como estudar de fato"

Infoescola: Como professor, quais eram as principais dificuldades de aprendizado que você identifica e identificava nos seus alunos?

Leandro Piccini: Falta de atenção é o básico. O aluno fica conversando, não presta atenção na explicação nem no texto. Eu sou muito a favor do ensino tradicional nessa questão de que tem que existir silêncio na sala de aula, porque senão é impossível ter concentração. Algumas pessoas defendem que a sala de aula tem que ser um espaço para o desenvolvimento da criança, tudo bem, mas acredito que precisamos de silêncio, de ordem, de fileiras...pode ser feito um trabalho criativo, só que dentro dessa ordem para que os alunos possam se concentrar no que é mais importante. E o que é mais importante, dentro da sala de aula? O trabalho do professor, que está sendo explicado. Então acredito que a falta de atenção seja um dos principais problemas no ensino regular, até porque ela vai gerar falta de memorização e uma série de outros problemas.

Infoescola: Você trabalha com o método dos 3 passos, que são Organização, Concentração e Memorização. Pode comentar cada um deles?

Leandro Piccini: Estudando essa questão da neurociência relacionada a aprendizagem, eu percebi o seguinte: as pessoas têm um problema. Primeiro, de se organizar. Elas não sabem o que vão estudar, ou porque estão estudando, ou porque pegaram um livro. Às vezes é uma questão de euforia, “minha colega está estudando, vou estudar também”. Mas vai estudar porquê? O que você quer? A sua colega quer passar em Medicina, mas e você, o que está procurando pra você? Então a organização é o passo inicial. O estudante que vai prestar vestibular ou concurso público tem que pegar seu material, organizar, decidir o que quer, ter foco, objetivo e metas, tem que organizar o quadro de horários, as matérias que vai estudar...tem que desenvolver o hábito de estudar. Isso forma a Organização. Uma vez que ele tenha a organização correta, o que acontece com a mente dele? ela flui mais. O estudante não fica perdido. Ter organização ajuda o estudante a chegar no segundo passo, que é a Concentração.

"Concentração eficaz é você se concentrar naquilo que vai ser utilizado (...) e quando eu falo em estudo eficaz, quero dizer estudo para o que você quer, estudo direcionado para o resultado que você deseja"

Todos os três passos são essenciais. Porque se você se concentra, mas não tem organização, seu estudo não é eficaz. Dou um exemplo: o estudante vai prestar uma prova que não exige tanto português, mas se dedica a isso. O que adianta ter tanta concentração, se a matéria estudada não é exigida na prova? Isso eu digo pensando nos estudos como forma de aprovação, não como construção de conhecimento. Nesse caso, essa concentração passa a ser praticamente inútil, porque concentração eficaz é você se concentrar naquilo que vai ser utilizado. Então se na organização você definiu um objetivo e um foco, a concentração fica muito melhor. Até porque a cabeça não fica tão ocupada, você sabe o que tem que estudar e não fica desviando a atenção e pensando em fatores externos, “preciso trabalhar”, “preciso pagar uma conta”, “preciso desatrasar meus seriados”. Quando o aluno consegue se concentrar, ele também consegue memorizar, porque a entrada para a memorização é a concentração. Se você faz uma leitura concentrada e utiliza técnicas de memorização, seu estudo se torna muito mais eficaz. E quando eu falo em estudo eficaz, quero dizer estudo para o que você quer, estudo direcionado para o resultado que você deseja. E esses três passos são justamente para isso: orientar seu estudo para que você consiga atingir o seu objetivo.

Infoescola: Qual papel, ou importância, a rotina desempenha nesse método?

Leandro Piccini: A rotina é o primeiro passo. Os estudantes falam “eu tenho facilidade de aprender, mas não consigo me organizar”. E essa rotina vai gerar o hábito de estudos. Então o que eu procuro sempre orientar é que os alunos estudem todos os dias e mantenham o local de estudo organizado, porque senão você acaba se perdendo e não estuda. Às vezes o aluno decide estudar, pega o material dele, deixa tudo organizado, consegue estudar em um dia mas não no outro. Muitas vezes nem por causa de falta de força de vontade, mas porque ele não sabia que ia estudar naquele dia, ou seja, não tinha uma rotina, não tinha preparado previamente um quadro geral adequado para o estudo, não havia preparado o horário pra estudar, ou o que ele iria estudar. E tudo isso atrapalha, porque se você não sabe o que vai fazer no outro dia, como você vai fazer? Se você não tem muito claro na sua cabeça, você fica procurando, começa devagar...ainda mais no computador, entra no Facebook, vê um vídeo...quando você tem uma rotina, você já tem tudo preparado, você estuda de acordo com o seu ciclo. E pensa: “o que eu tenho no meu ciclo? Matemática, História e Geografia. Vou estudar das 14h às 16h”. Então todos os dias, da 14h às 16h, você sabe que tudo o que você precisa fazer é estudar e seguir o ciclo. Você deixa tudo organizado e segue a rotina com perfeição. Isso faz o hábito. E, para se tornar hábito, tem que ser feito com constância, no mínimo por 30 dias, isso é o que os neurocientistas dizem: se você mantém o hábito por mais de 30 dias, você consegue consolidá-lo.

Infoescola: Você afirma que a concentração acontece através de práticas diárias. Pode explicar?

Leandro Piccini: A pessoa fala assim “olha, não consigo me concentrar”. Pega 2 minutos no livro, fala que não consegue se concentrar, desiste e vai embora.  Aí me manda um e-mail dizendo que não consegue. Só que não é assim que funciona. A concentração é algo desenvolvido na área cerebral. Se você não tem concentração na sua vida de um modo geral, desde ser capaz de se concentrar na sua alimentação até no pôr-do-sol, então você não vai conseguir se concentrar na leitura. Porque você não desenvolveu essa área do seu cérebro. Não é do dia para a noite que se desenvolve a concentração. Voltando um pouco para os três passos, se o estudante não é organizado, ele vai ter muito mais dificuldade para se concentrar.  A concetração acontece como? Quando o estudante começa a desenvolvê-la.

" É como um treino, quase um exercício físico. Com o tempo você vai desenvolvendo sua concentração. Funciona com todo mundo porque todos os nossos órgãos são assim. Se você deixa de usar uma determinada área do seu cérebro, ela não se desenvolve com tanta facilidade. Isso acontece com a memorização e com a concentração"

Então ele vai começar a se concentrar na vida dele de uma maneira geral, no que ele come, no que ele faz, e começa a se concentrar no que está lendo. Existem dois problemas que afetam a concentração: a falta de prática na leitura e o estresse. Se você estuda estressado, sua atenção toda hora vai ser desviada. O stress gera um hormônio chamado cortisol que bloqueia a concentração. Então você precisa se livrar do stress. Como? através de uma prática de relaxamento. Você tem que entender que o que aconteceu no seu trabalho, por exemplo, ficou lá. Trabalho é trabalho, estudo é estudo. Outras maneiras de relaxar são assistir filmes,  fazer caminhadas e exercícios físicos. Uma vez que o estudante consegue o relaxamento, pode voltar pra leitura. Mas se ele volta e continua divagando, entra a prática, que é forçar a leitura. Leu dois parágrafos e perdeu a concentração? volta e lê de novo. É como um treino, quase um exercício físico. Com o tempo você vai desenvolvendo sua concentração. Funciona com todo mundo porque todos os nossos órgãos são assim. Se você deixa de usar uma determinada área do seu cérebro, ela não se desenvolve com tanta facilidade. Isso acontece com a memorização e com a concentração.

Infoescola: Um dos seus artigos disserta sobre as diferenças entre a mentalidade de aprovação e a mentalidade de reprovação. Você poderia explicar a importância de possuir essa mentalidade de aprovação?

Leandro Piccini: Quando escrevi o artigo, pensei que ninguém leria, mas muitas pessoas vieram me falar “nossa, você falou sobre mentalidade de reprovação e eu realmente tenho aquele problema”. É um problema de ansiedade. Entendo a ansiedade como um excesso de futuro: a pessoa quer tanto passar naquela prova que fica jogando a mente dele para o futuro e não consegue se concentrar no agora. Ao mesmo tempo, o estudante fica pensando na reprovação, e isso faz com que ele não consiga se desenvolver e tenha medo. Muitas pessoas colocam a prova, o concurso, o Enem, a OAB, o vestibular, como um tudo ou nada, como se fosse “nossa, se eu não passar eu vou morrer”, quando na verdade não é assim. A gente sabe que todo ano vai ter Enem, todo ano vai ter OAB, sempre vai ter um concurso para ser prestado. Então não há necessidade de criar esse medo interior, por conta da ansiedade, de passar ou não. Mas o que acontece? o aluno passa a se ver negativamente. Ele pode até ter uma boa rotina de estudos, mas sempre pensa que não vai conseguir, que a concorrência está alta…isso é uma mentalidade negativa, e atrapalha o aluno. Já foi provado cientificamente que enxergar de maneira positiva melhora seus resultados, eu até indiquei umas pesquisas no artigo. É muito importante que você tenha essa mentalidade positiva, de aprovação. Claro que o estudante não vai ficar sentado mentalizando que vai passar no Enem, vai chegar lá e vai conseguir, não. Mas ele tem que pensar que está se preparando, que estudou e que está apto a ser aprovado. Por que não? se você se preparou,  tem que ter uma mentalidade positiva a respeito do que está fazendo. Pode ser que não de o resultado? pode ser. Mas existem n razões para isso. E a reprovação não pode te dar motivos para que você desista ou enxergue como se esse fosse seu último grande salto. Não é esse tudo ou nada, a vida continua, e o conhecimento é acumulado. Se você nunca deixar de estudar, você está acumulando. O final de todo estudante que se dedica é a aprovação, porque ele está acumulando conhecimento. Pode demorar, mas vai conseguir.

"Muitas pessoas colocam a prova, o concurso, o Enem, a OAB, o vestibular, como um tudo ou nada, como se fosse “nossa, se eu não passar eu vou morrer”, quando na verdade não é assim. A gente sabe que todo ano vai ter Enem, todo ano vai ter OAB, sempre vai ter um concurso para ser prestado. Então não há necessidade de criar esse medo interior"

Infoescola: Qual é a diferença entre o aprendizado ativo e o aprendizado passivo?

Leandro Piccini: O estudante ativo se envolve, grifa, anota, faz mais pesquisa a respeito do tema, faz mapa mental, conversa com as pessoas sobre isso, para que? para enriquecer diversas áreas do seu cérebro. Porque já foi provado que  a memória não fica só em uma área do cérebro, mas em várias. Então nós temos memória motora, memória de curto prazo, de longo prazo, etc, são outras áreas, outros sentidos. Desenvolvo o tato e escrevo, desenvolvo a visão vendo um vídeo, a audição escutando uma áudioaula... e aumento a capacidade de memorização. Esse é o estudante ativo. O passivo não. Ele termina a apostila, vai jogar bola...isso faz com que ele compreenda menos a matéria. Ele vai compreender, mas não está fortalecendo a mente, então vai compreender menos que o estudante ativo.

Infoescola: E quando a pessoa possui pouco tempo para estudar para a prova? O método continua eficaz?

Leandro Piccini: O método é exatamente para aproveitar o tempo que o aluno tem. Se você tem duas horas para estudar, você tem que estudar nessas duas horas o máximo possível. Não adianta o sujeito ficar brigando porque tem duas horas de estudo e o colega tem nove. Cada vida é cada vida. Você tem duas horas, então elas precisam ser as melhores duas horas estudadas possíveis. Você não pode perder tempo, não pode perder meia hora procurando material. Tem que estar tudo organizado, tudo pronto para você estudar, concentrar, memorizar. Se você utilizar o método, vai conseguir fazer isso, desde que você se dedique a colocá-lo em prática.

Infoescola: O método funciona para auto-didatas, ou para pessoas que, por algum motivo, não podem fazer aulas?

Leandro Piccini: Não acho que a aula seja um fator essencial. Acho que ajudam, principalmente por uma questão de professor. O complicado é que tem gente auto-didata, e isso falo também um pouco de mim, porque a maioria das coisas que fiz aprendi sozinho, que acaba aprendendo muito através do método de tentativa e erro. Esse método demanda muito tempo, mais tempo do que uma aula. Enquanto na sala eu tenho um professor que me fala que isso, isso e isso é importante, no método auto-didata não, eu preciso ler tudo e selecionar o que eu acho importante. O aprendizado como auto-didata funciona mesmo assim? funciona, só que demora um pouco mais de tempo por essa questão. Mas quando se trata de concurso e vestibular não tem esse problema, já que os estudantes podem consultar previamente o que será cobrado em apostilas e editais.

Infoescola: Quando pensamos em vestibulares e concursos, pensamos também em sacrifícios da vida social, dos lazeres, das relações pessoais. Você acha que esse sacrifício é necessário?

Leandro Piccini: É muito fácil eu chegar pros estudantes e dizer “eu estudo 24 horas por dia, eu largo mão da minha vida social”. Porque se você for ver minha vida, como Leandro, eu não gosto de sair, não gosto de ir para a balada, não tomo cerveja, não jogo bola...então é muito fácil para mim ficar estudando, porque eu gosto. Mas tem gente que não gosta de estudar, para elas é como se fosse um trabalho, e aí fica difícil se dedicar 24 horas por dia ao estudo. E eu não acho que seja necessário esse sacrifício. Acho que muitas vezes essa ideia de “me sacrifiquei e venci” é vendida. Não é necessário, se você tiver paciência. Não posso chegar para você e dizer que tal pessoa que estudou mais tempo tem chance igual ao que estudou menos, mas acho que a pessoa pode trabalhar a semana toda e ir jogar um futebol no fim de semana, e mesmo assim ser aprovado. Um pouco dessa mentalidade, para mim, é porque nós gostamos dessas histórias de “sofri, mas no final saí vencedor”.

Infoescola: Se você pudesse dar um conselho para estudantes que estão se preparando para prestar vestibulares ou concursos, qual seria?

Leandro Piccini: Eu vou falar o que eu sempre falo: Se você não quer seguir nenhum método, não quer seguir nada, quer apenas um conselho, o meu é que você estude todos os dias. Se você estudar todos os dias, você vai alcançar o resultado que deseja.