Acolhimento e educação integral em uma experiência de mudança de gênero

Por Cecília Alves

Professora de História

Categorias: Pedagogia
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Hoje em dia, um dos assuntos mais polêmicos quando se trata de convivência em sociedade é a questão de identidade de gênero. Apesar da legislação brasileira proibir qualquer tipo de ato de natureza discriminatória a qualquer cidadão1, na prática, a maioria das pessoas que não tem em sua realidade uma situação de mudança de identidade de gênero, lança olhares/posturas/comentários, no mínimo subjetivos, de reprovação em relação a quem passou ou está passando por essa transformação.

Esquecem-se que, na sua frente, está sobretudo um ser humano. Alguém que também chora, ri, sente dor, alegra-se, paga impostos, alimenta-se da mesma forma que aquele que o vê como um absurdo também faz.

Certa vez eu lecionei para uma turma que teve estudante em processo de mudança de identidade de gênero. De modo a preservar esta pessoa, vou utilizar os pseudônimos Bianca/Bento.

Eu lecionava de manhã na escola e, naquele ano, foi oferecida apenas uma turma de 9º ano. Assim, os estudantes da tarde foram automaticamente matriculados de manhã e eu passei a atender uma turma bastante grande e na qual mais da metade dos discentes nunca tiveram aula comigo, o que, por si só, já é um desafio.

Já nos primeiros dias de aula, observei que Bianca, proveniente do turno da tarde, comportava-se diferente dos seus colegas. Apesar de ter amigas com as quais passava o recreio, em sala de aula sentava-se isolada, bem na frente, em completo silêncio e cabisbaixa. Percebi que não apresentava traços de vaidade comumente feminina. Permanecia apática em aula, não fazia os temas nem os trabalhos, mas lia os textos de aula em voz alta quando solicitado.

Algumas semanas depois do início das aulas, conversei com a orientadora educacional, a qual me esclareceu que Bianca estava passando pela fase de rejeição/aceitação de mudança de sua auto percepção de gênero e nós, professores, precisávamos ficar atentos ao seu comportamento. Disse também que a irmã de Bianca era uma conhecida nossa em comum.

Procurei essa conhecida para conversarmos sobre a situação de Bianca. Ela me contou a complexidade, falou sobre o isolamento, a depressão e o acompanhamento com psicólogo. Perguntei-lhe se já possuíam nome social e ela respondeu que sim. Bento foi o nome escolhido pelo adolescente para se identificar.

Como, no 9º ano, vemos em História vários assuntos relacionados ao âmbito militar (guerras por exemplo), eu disse aos estudantes que os chamaria pelos sobrenomes e uma patente militar e seriam “promovidos” conforme o capricho nos estudos e os respectivos cadernos completos. Foi divertidíssimo. Aos poucos, os jovens passaram a fazer brincadeiras uns com os outros tratando-se dessa maneira.

Como eu não sabia até que ponto os colegas de Bento sabiam o que ele estava vivendo, passei a chamar todos os estudantes daquela turma pelos sobrenomes. Dessa forma, eu não o constrangeria chamando-o de Bianca (posto que ele não se reconhecia mulher) nem de Bento (para que ele pudesse, no seu tempo, contar aos colegas o que estava vivendo).

Conversei brevemente com ele no final de uma aula sobre seu baixo desempenho nos estudos e falei que ficara de recuperação trimestral, sempre o tratando por Bento. Seu olhar se iluminou. Enfim uma professora se reportava a ele de acordo com sua identidade.

Naquela época, pessoas estratégicas na escola precisaram se afastar devido a problemas de saúde. Na ocasião do Conselho de Classe, eu levantei a questão do Bento na reunião e disse que eu iria me reportar a todos os estudantes pelo sobrenome até que a situação do nome social do jovem estivesse resolvida junto à escrituração e que eu já estava aceitando como comprovação escolar as provas cuja identificação apresentasse o nome “Bento” e eu estava registrando as notas junto à matrícula vinculada ao nome “Bianca”. Lembro-me que uma colega nos disse que seria muito mais fácil para os estudantes compreenderem a mudança de Bento do que para nós, professores, pois os jovens são muito mais abertos para conviver com as diferenças do que nós, mais velhos, que tendemos a ver com estranhamento.

Porém, como estávamos com baixas na equipe e surgiram outros contratempos no período, a questão do registro de Bento foi ficando para depois, e depois, e depois, de modo que, somente no terceiro trimestre foi retomada.

Bento já aparecia muito raramente na escola. Quando vinha, ia embora no recreio ou entrava na sala de aula com uma apatia impressionante.

Conversei com a supervisora e a orientadora educacional sobre as faltas e o comportamento de Bento e mostrei-me preocupada, pois o adolescente aparentava estar em profundo estado depressivo e eu temia que pudesse cometer um ato autodestrutivo. A vida é o dom mais precioso e deve ser preservada.

Naquela semana, Bento procurou a supervisora e lhe pediu ajuda: sentia vontade de morrer. A supervisora e a orientadora educacional contataram familiares do estudante para que a escola pudesse auxiliar a família a preservar a vida do jovem. Ele estava fazendo acompanhamento psiquiátrico e, através de atestado médico, pode se afastar da escola sem prejuízo às atividades escolares, as quais foram elaboradas pelos seus professores e encaminhadas à família para que Bento pudesse concluir os estudos. Ele fez as provas finais na escola e obteve aprovação.

A BNCC estabelece que todos os estudantes têm direito à educação integral, respeitando suas particularidades e estimulando suas potencialidades. É fundamental que a equipe escolar esteja alinhada para buscar as estratégias adequadas para explorar o que os estudantes têm de melhor em termos de aprendizagem, pois não existe ensino sem aprendizagem.

No dia da formatura, eu cheguei no salão na mesma hora que Bento e sua família e fiquei muito feliz de vê-lo com semblante de alegria. Estava muito bonito de terno e foi recebido com carinho pelos colegas.

Para receber seu diploma, foi chamado à mesa pelo seu nome social. Ao final da cerimônia, Bento e sua família vieram me agradecer pela ajuda. Eu fiquei muito feliz em poder ajudar. A vida merece ser sempre celebrada.

1 O entendimento do Supremo Tribunal Federal sobre o assunto pode ser conferido através da reportagem disponível no site https://www.bbc.com/portuguese/brasil-47206924 .

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