Arte Sacra

Arte religiosa e arte sacra não têm o mesmo significado, pois uma obra pode ser produzida sob a inspiração divina, mas não ser voltada para o culto. Portanto, esta tem um destino concreto, o de servir a rituais litúrgicos. Jacques Maritain destaca a distinção, dentro da esfera da arte, da produção cristã e, inserida nesta, a atuação da arte sacra, através de elementos espirituais que compõem sua essência.

Hall da Biblioteca Apostólica Vaticana. Foto: Francesco Dazzi / Shutterstock.com

Hall da Biblioteca Apostólica Vaticana. Foto: Francesco Dazzi / Shutterstock.com

A arte sacra popular não apresenta formas lapidadas, enquanto a arte sacra clássica revela artistas com um talento sublime. A arte religiosa é um reflexo da essência humana, um processo interno do artista, sua imagem do amor divino. Ela é, assim, subordinada à religião institucional. A arte sacra está, portanto, impregnada dessas características, mas diferencia-se por ser imanente ao culto sagrado. Sua intenção é despertar nos fiéis emoções puras e singelas, revelar-lhes a visão do Paraíso ainda na Terra, um lampejo da perfeição. Mas estas obras, distintas das cristãs em geral, não devem chocar os freqüentadores das Igrejas nas quais estão expostas, nem ferir suscetibilidades, muito menos criar controvérsias ou questionar dogmas e conceitos religiosos. Seus fins são estritamente pragmáticos.

Não seria apropriado, por exemplo, rezar a Missa diante de um quadro, por maior que seja seu valor artístico. Não importa, assim, o significado estético ou o elemento sensível da obra, e sim sua capacidade de elevar os sentimentos dos que a contemplam – ela deve ser um símbolo do mistério divino. Em resumo, ela deve adequar-se às cerimônias litúrgicas, mas conservar ao mesmo tempo as qualidades estéticas do que se conhece como arte, expressando com um estilo próprio sua linguagem particular.

A Igreja sempre abrigou em seu núcleo as manifestações artísticas, mas na esfera privada dos seus rituais ela não admite princípios profanos, assim ela cria rigorosos critérios de seleção e procura discernir o que se ajusta à fé cristã e às suas tradições. Contra a iconoclastia calvinista, o Concílio de Trento destaca a importância de algumas imagens, como as de Cristo, da Virgem Maria e dos santos, sem incidir em atitudes abusivas.

O Código de Direito Canônico regula a construção de Igrejas, as imagens permitidas nos recintos religiosos, os objetos litúrgicos utilizados nos rituais, os sacrários aceitos e a manutenção deste patrimônio artístico. Acima das preferências do artista, deve estar a utilidade da obra e os interesses da comunidade cristã. Assim, não há formas fixas, cristalizadas, na Arte Sacra, não há um estilo definido. Ocorrem várias mudanças ao longo do tempo, pois a Igreja não se considera proprietária desta produção artística. Para seus representantes, o importante é se apropriar das formas e das técnicas de cada época e desta maneira melhor servir à congregação religiosa. Este critério também vale para as vestes e decorações sagradas.

Houve o predomínio, durante muito tempo, dos exageros barrocos, nascidos da ilusória idéia de que tudo relacionado a Deus deve ser excessivo, grandioso, envolto em camadas de ouro, cores e brilhos. Movimentos como os dos franciscanos pregam a simplicidade e a beleza, essência divina. Mas no Vaticano e em algumas outras importantes Catedrais vigora ainda o reinado do ouro e dos exageros formais. No Brasil, bem como em toda a América, predomina o Barroco Mineiro, com destaque para Atahide e Aleijadinho, conhecidos mundialmente. A Arte Sacra foi a primeira expressão artística no Brasil colonial.

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