Gil Vicente

Considerado o maior representante da literatura renascentista de Portugal antes de Camões, Gil Vicente só não é o primeiro dramaturgo português como também fundou uma tradição no teatro que inspirou diversas produções em Portugal, em outros países europeus e no Brasil. Ele viveu entre os anos de 1465 e 1537, não se sabe ao certo a data, segundo dois genealogistas do século XVI.

Ele também se destacou no cenário português por organizar os espetáculos palacianos, como festejos de casamento, nascimento, recepção de membros da realeza e comemoração de datas cristãs, como a Páscoa e o Natal.

Valendo-se do prestígio que adquiriu na corte foi que Gil Vicente pode satirizar, através das obras teatrais, os vícios do clero e da nobreza. É através dessas obras que o dramaturgo realiza uma síntese ibérica e original das tradições medievais do teatro, retomando os “milagres”, os “mistérios”, com consciência moral renovadora – própria do Renascimento cristão e erasmiano – que suas comédias se revelam na expressão satírica, de humor saboroso e popular, arma de direta eficácia. Ele recriou em suas farsas e autos pastoris os diferentes aspectos da vida de Portugal do século XVI, tanto da Lisboa onde emergia a revolução marítima e comercial, como o meio camponês com sua linguagem, folclore e costumes peculiares.

Dirigindo-se a uma platéia requintada, a corte dos reis D. Manuel e D. João III, onde imperava o orgulho das grandes descobertas e o sucesso das grandes navegações, Gil Vicente refina a substância popular de sua comicidade, incutindo-lhe um tanto do riso cosmopolita que anuncia os triunfos da nova era. São variadas as fontes de sua dramaturgia. Embora fosse mínima a experiência de Portugal em relação ao teatro, o dramaturgo não ignora as representações profanas de textos religiosos, que lhe servirão de base aos autos voltados para os temas da Religião e para as farsas episódicas.

Ao buscar inspiração em textos religiosos, Gil Vicente não pretende difundir a religião nem converter pecadores. Seu objetivo era mostrar como o homem – independente de classe social, sexo, raça ou religião – é egoísta, falso, orgulhoso, mentiroso e frágil quando se trata de satisfazer seus desejos da carne e do dinheiro.

O melhor das suas obras encontra-se em suas peças populares, que vão abrir caminho para sua obra-prima, a trilogia das sátiras que compõem o “Auto das Barcas”: “Auto da Barca do Inferno” (1516), “Auto da Barca do Purgatório” (1518) e “Auto da Barca do Paraíso” (1519). Destacam-se também “O velho da horta”, “Auto da Índia” e “Farsa de Inês Pereira”.

Em “Auto da Barca do Inferno”, a mais conhecida de suas peças, as cenas ocorrem à margem de um rio, onde estão ancoradas duas barcas: uma é dirigida por um anjo e leva as almas que, de acordo com seu julgamento, irão para o céu; a outra é dirigida pelo diabo, que conduzirá as almas para o inferno.

A peça apresenta uma verdadeira galeria de tipos sociais: um nobre, um frade, um sapateiro, uma alcoviteira, um judeu, um enforcado, entre outros, que vão compor um rico painel das fraquezas humanas. Para o céu, só vão um bobo e um cruzado. Todos os outros são condenados ao inferno.

As peças de Gil Vicente inspiraram várias outras produções, como algumas obras do Pe. Anchieta, voltada para a catequese dos índios no século XVI, “Morte e Vida Severina”, auto de Natal pernambucano, de João Cabral de Melo Neto e a peça mais popular e prestigiada de Ariano Suassuna, “Auto da Compadecida”, adaptada para a TV.

Fontes
CEREJA, William Roberto e MAGALHÃES, Thereza Cochar. Literatura Brasileira em diálogo com outras literaturas. 3 ed. São Paulo, Atual editora, 2005, p.84-5.
Nova Enciclopédia Barsa. São Paulo: Encyclopaedia Britannica do Brasil Publicações, 1999. V. 20.

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