Aclamação de Amador Bueno

Graduada em História (UFRJ, 2016)

Durante um período, Portugal entrou numa crise dinástica, pois não havia um herdeiro para se tornar rei. O rei D. Sebastião morreu na batalha de Alcácer-Quibir, na África, combatendo os mouros, em torno de 1578. O rei não tinha herdeiros e, ao sumir, o seu tio D. Henrique foi proclamado rei, mas este era muito velho e reinou apenas dois anos, sendo a linha sucessória da casa de Avis esgotada. Assim, nessa disputa pelo trono, no ano de 1581, o rei da Espanha, Filipe II, se tornou rei também de Portugal, unindo Portugal a Espanha durante 60 anos (União Ibérica).

Com essa união, que ia contra a vontade da maior parte dos portugueses (que além de não quererem ser subordinados à Espanha, alguns acreditavam que seu rei D. Sebastião iria voltar da África, mesmo anos depois de desaparecido), o território brasileiro passou a ser controlado pela Espanha. Com o fim da União Ibérica, no ano de 1640, Portugal retomou o controle total de sua colônia. Mas é fácil de imaginar que depois de anos da presença espanhola no Brasil, alguns colonos acabaram criando relações comerciais com os espanhóis. Então, quando Portugal e Espanha se separaram novamente, alguns paulistas que mantinham relações comerciais com os espanhóis ficaram preocupados com possíveis medidas que a coroa portuguesa poderia interromper. Esses comércios eram ligados a atividades de escravização dos índios, onde os bandeirantes paulistas praticavam o apresamento e a comercialização de índios encontrados pelo interior do Brasil, e de contrabando na região do Rio da Prata. O problema foi que Portugal proibiu a escravização dos indígenas, assim acabava forçando os bandeirantes a comprarem escravos africanos, lucrando com esse comércio. O motivo dos portugueses não explorarem a mão de obra indígena é que eles já se beneficiavam com o lucro das exportações de navios negreiros africanos.

Os bandeirantes paulistas não apoiaram essa nova medida que iria acabar com o comércio e aumentar as despesas dos mesmos. Um grupo desses homens resolveu formar uma revolta, um levante onde o principal ponto de reivindicação era o fim da proibição da escravização dos nativos. Mais do que um simples levante, os bandeirantes acabaram formando um estado, no ano de 1641, que era independente de Portugal e que ainda estava ligado economicamente com a Espanha, servindo aos seus interesses.

Aclamação de Amador Bueno, pintura de Oscar Pereira da Silva, 1931.

Nesse contexto, a figura de Amador Bueno da Ribeira, um proprietário de terra e administrador colonial, é escolhida como líder do motim e foi proclamado rei do novo estado que se tornara independente de Portugal. Amador Bueno tinha consciência de que a revolta contra os portugueses só prejudicaria mais ainda o comércio na Vila de São Paulo e acabaria causando uma repressão muito violenta por parte do rei de Portugal, D. João IV. Com esse pensamento sensato, o proprietário de terras Amador Bueno acabou recusando a oferta de líder e rei da revolta e da província independente e, por conta dessa negação, acabou sendo perseguido pelos revoltosos, tendo que se refugiar no Mosteiro São Bento, juntamente com os jesuítas que eram contra a escravização dos índios e foram expulsos da Vila de São Paulo pelos revoltosos.

Amador Bueno ainda jurou fidelidade ao rei de Portugal, D. João IV. Os bandeirantes paulistas que haviam se revoltado, acabaram reconhecendo a sua derrota e aceitaram a subordinação à Metrópole.

Referências Bibliográficas:

DEL PRIORE, Mary, VENANCIO, Renato. Uma Breve História do Brasil. São Paulo: Editora Planeta do Brasil, 2010.

FAUSTO, Boris. História do Brasil. São Paulo: Edusp, 1996.

MONTEIRO, Rodrigo Bentes. O rei de São Paulo. Apesar da escassa documentação, Amador Bueno passou à História como figura central do movimento que desafiou o domínio monárquico português no século XVII. Link: http://www.historia.uff.br/impressoesrebeldes/wp-content/uploads/2017/02/O-rei-de-S%C3%A3o-Paulo-Revista-de-Hist%C3%B3ria.pdf

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