Aprendizagem

Por Ricardo Normando Ferreira de Paula
É fato que a aprendizagem inicia-se com a capacidade de identificação de objetos, símbolos e sons e prossegue, imediatamente, com o desenvolvimento da linguagem.

Segundo Pollack (1997):

“Pelo menos alguns dos genes humanos que participam da criação da linguagem devem ser ativos na formação e no funcionamento de um pequeno setor do cérebro humano batizado em homenagem ao cientista Paul Broca; as estruturas dessa região estão intimamente relacionadas à capacidade de falar e compreender um idioma, e próximas de estruturas responsáveis pelos movimentos repetitivos de braços e dedos.” (Pág. 155)

A partir do mecanismo mencionado por Pollack, pessoas que não conseguem se comunicar através da linguagem falada desenvolvem a capacidade de comunicação através de gestos. O alfabeto dos surdos-mudos é uma segunda maneira de promover a comunicação nesta categoria de pessoas. Por outro lado, uma lesão na região de Broca1 pode fazer com que ambas as capacidades sejam atingidas e, conseqüentemente, destrua o mecanismo de comunicação do afetado.

A importância dos neurônios-espelho é tal que o renomado especialista em anomalias cerebrais Vilayanur Ramachandran (Centro de Pesquisas Cerebrais e Cognitivas da Universidade da Califórnia) atribui que a falha desse sistema está relacionada diretamente à origem de alguns sintomas principais do autismo (como os relacionados à interação social).

Voltando à questão da linguagem, esse desenvolvimento através do aprendizado do idioma visa a alcançar o conhecimento da cultura na qual cada um de nós está inserido e, dessa maneira, sistematizar o processo formal de aprendizagem.

A compreensão e interiorização da cultura em que cada um está inserido é o pressuposto fundamental da aprendizagem. De acordo com Vygotsky (1978), todas as funções psicológicas superiores são geradas na cultura da nossa aprendizagem e respondem não só a um desenho genético, mas principalmente a um desenho cultural.  Assim, em observação ao nosso sistema orgânico e psíquico, somos “projetados” para captarmos de forma rápida, clara e concisa as informações acerca da nossa cultura, bem como seus usos e costumes.

No entanto, cada ser humano é uno e portador de experiências pessoais únicas; isto, por sua vez, torna a aprendizagem um processo único e diferenciado para cada indivíduo. Contudo todos possuem esquemas gerais de aprendizagem (sistema orgânico), que é a base de trabalho das Escolas e Academias.

Com um olhar atento sobre a estrutura e a evolução das espécies animais, percebe-se que, à medida que ascende-se na escala evolutiva, mais complexas vão se tornando as experiências dos indivíduos com o meio onde estão inseridos, sendo exclusivamente do ser humano as capacidades de simbolização e conceituação (a aprendizagem propriamente dita).

Esse processo de aprendizagem acontece a partir de experiências que podem ser organizadas em cinco níveis de crescentes graus de complexidade organizados segundo um caráter hierárquico de acordo com o diagrama abaixo:

Hierarquia dos processos de aprendizagem

A possibilidade da vivência de cada uma destas experiências está relacionada à vivência do nível anterior, revelando-se, assim, seu caráter hierárquico.

Podemos, de forma grosseira, entender o cérebro como um circuito elétrico bastante complexo que age de forma independente, mas harmônica, entre todas as suas regiões bem como com os órgãos e ações relacionados. Essa independência e harmonia é que criam, nos seres humanos, as hierarquias destacadas anteriormente e, consubstanciadamente, a capacidade de aprendizado e associação entre categorias de conhecimento que possuímos enquanto seres pensantes.

A relação anteriormente citada acontece inicialmente nos neurônios naturais, onde a capacidade de processamento (recepção e interpretação de informações) supostamente reside nas características eletro-químicas das ligações entre eles, ou sinapses. Desta forma, os neurônios naturais realizam um processo dinâmico de processamento dos impulsos de entrada e, dependendo se o resultado é excitatório ou inibitório, libertam um impulso de saída. Resumidamente: captação e interpretação da informação tendo como resultado uma resposta (no caso, a aprendizagem).

A aprendizagem baseia-se em hierarquia de experiências. Dá-se em espiral dialética, com funções superpostas e interligadas que serão definidas a seguir segundo a concepção de Fernandèz (1991).

SENSAÇÃO

É o nível mais primitivo do comportamento, referindo-se unicamente à ativação de estruturas sensoriais. É a partir das sensações que o indivíduo pode perceber o mundo que o cerca. Esse mecanismo é ativado a partir dos cinco sentidos: visão, audição, olfato, tato e paladar. Cada sentido desenvolve-se de acordo com a idade mental de cada indivíduo, bem como sua estrutura cerebral. Setores diferenciados do cérebro controlam cada sensação dependente de cada órgão e retornam a resposta adequada a cada sensação.

PERCEPÇÃO

Constitui-se na tomada de consciência relativa a sensações em progresso (interpretação do estímulo e preparação de resposta). A eficiência da percepção depende de que o aparato neurológico seja capaz de converter, adequadamente, as sensações em impulsos elétricos. Apesar de ser um comportamento neurologicamente superior à sensação, do ponto de vista psicológico é, ainda, extremamente rudimentar. No entanto, é baseado na percepção que o indivíduo irá formar imagens.

FORMAÇÃO DE IMAGENS

Refere-se a sensações ou informações já recebidas e percebidas (interpretadas). Está relacionada aos processos de memória já que corresponde a um registro de aspectos das experiências vividas, ainda que a elas não se associem palavras (aspectos não verbais). As imagens formadas não se restringem apenas ao nível visual; são registros de percepções oriundas de quaisquer dos órgãos dos sentidos. Incluem-se, aqui, além das imagens do cotidiano, os sons sociais não verbais (ruídos de automóveis e máquinas, vozes de animais, etc), odores característicos de diversas coisas, os sabores típicos dos diferentes alimentos, texturas de objetos, assim como também a percepção social, ou seja, expressões faciais e corporais percebidas em várias situações. Em situações de trauma ocasionado em qualquer fase de aprendizagem, a imagem é aquela que sempre irá se apresentar em momentos críticos que relembrem o trauma sofrido. O conhecimento popular é muito claro a esse respeito: gato escaldado...

SIMBOLIZAÇÃO

Habilidade descrita como exclusiva da espécie humana e que corresponde à capacidade de representar uma experiência de forma verbal ou não verbal. As simbolizações não verbais verificam-se através de símbolos visuais ou auditivos, em manifestações artísticas, musicais, religiosas e patrióticas. Incluem-se nesta categoria as capacidades de avaliar e recordar situações, emitindo julgamentos do tipo: perto – longe – grande – pequeno – alto – baixo – cheio – vazio – depressa – devagar, etc. As simbolizações verbais estão relacionadas a palavras. O ser humano apresenta três sistemas verbais: falado, escrito e lido. Tanto na história da espécie como no desenvolvimento de cada indivíduo, o primeiro destes sistemas a se instalar é o falado. Uma das prováveis razões para esse fato deve ser a facilidade de aquisição deste sistema, visto que está relacionado à audição, não podendo ser “desligado” nem necessitando de uma atenção direcionada, como acontece com a visualização. Além disso, a maturidade psiconeurológica aqui exigida é menor do que nos sistemas lido e escrito. Essas considerações nos levam a compreender porque a língua falada ocupa posição de destaque em nossas vidas, predominando não apenas na infância.

No entanto, a linguagem escrita vai assumir um papel fundamental no processo de interação de cada ser com outras informações (Ferreiro, 1979). Ao começar a se dar conta das características formais da escrita, a criança constrói duas hipóteses que vão acompanhá-la por algum tempo, durante o processo de alfabetização: Primeiro: é preciso um número mínimo de letras – entre duas e quatro – para que esteja escrito alguma coisa. Segundo: é preciso um mínimo de variedades de caracteres para que uma série de letras “sirva” para ler.

Algumas modificações relativas a estes sistemas verbais podem ser observadas em circunstâncias especiais, como a linguagem de sinais utilizada pelos surdos (libras) ou o Braille, código de escrita utilizado pelos cegos. A conquista da habilidade de simbolizar abre caminho para o domínio da conceituação.

CONCEITUAÇÃO

Complexo processo mental que envolve capacidades de abstração, classificação e categorização. É preciso observar que conceituar e abstrair não são sinônimos. A abstração contrapõe-se à concretização, pressupondo um maior grau de distanciamento em relação a uma circunstância observável. Ainda assim, a experiência abstraída pode ser e em algum momento certamente foi observada. No entanto para conceituar, também é necessário classificar e categorizar.

Notas:
1: Importante lembrar que a área de Broca é parte de uma estrutura essencial à aprendizagem: o sistema dos neurônios-espelho. Em síntese, segundo o neuro-cientista Giacomo Rizzolatti (Universidade de Parma na Itália), este sistema fornece ao cérebro uma experiência direta, isto é, a compreensão dos atos, intenções e emoções de outra pessoa. Podem ser responsáveis também pela capacidade de imitar a ação de outra pessoa e, assim, de aprender, fazendo do mecanismo do espelho uma ponte intercerebral de comunicação e conexão de muitos níveis.

Fontes:
SOARES, Dulce Consuelo R. O Cérebro x Aprendizagem. Disponível em http://www.profala.com/arteducesp67.htm

FERREIRO, E.; TEBEROSKY, Ana. Psicogênese da língua escrita. Buenos Aires. Art Méd: 1979

FERNÀNDEZ, A. A Inteligência Aprisionada – abordagem psicopedagógica clínica da criança e sua família. Porto Alegre. Art Med, 1991.

PIAGET, Jean. Biologia e Conhecimento. 2ª Ed. Vozes : Petrópolis, 1970.

POLLACK, Robert. Signos da vida. A linguagem e os significados do ADN. Rio de Janeiro: Rocco, 1997.

VYGOTSKY, L. A Formação Social da Mente; [organizadores Michael Cole... [et all; tradução José Cipolla Neto, Luís Silveira Menna Barreto, Solange Castro Afeche] – 5ª edição São Paulo: Martins Fontes, 1978.