Avaliação Formativa

Por Robison Sá

Introdução

As ironias da educação não param de acontecer. A mais intrigante de todas, pelo menos em minha concepção, se refere à avaliação da aprendizagem. É, no mínimo, curioso o fato de termos hoje a avaliação figurando no cenário educacional como a grande vilã dos processos de ensino e aprendizagem. Algo que foi criado para diagnosticar e abrir portas para compreensão dos fracassos escolares, hoje contribui para o agravamento desse quadro aparentemente irreversível. Porém, se por um lado a avaliação se apresenta como responsável por traumas e sequelas encravadas nos alunos por meio dos métodos de comparação e divulgação de suas incompetências, por outro, ela ainda é a única que pode nos fornecer subsídios para curarmos, ou diminuirmos, os males da educação moderna.

Como todo remédio têm, também, efeitos negativos ao corpo, com a avaliação não é diferente. Lembro que ela deve ser utilizada na tentativa de se fazer um diagnóstico do andamento da aprendizagem perante as metodologias de ensino aplicadas, indicando qual o efeito que os seus ensinamentos têm causado nos discentes, qual o nível de compreensão, se os pré-requisitos para conhecimentos posteriores foram alcançados, até que ponto sua didática funcionou e, a partir daí, começar a traçar planos de correção das falhas ocorridas nesse primeiro momento, ou seja, abordar os mesmos conteúdos utilizando metodologias diferentes, didáticas diferentes e, se possível, até mesmo um contexto diferente.

Prevalência de métodos ultrapassados

         O grande problema é que na maioria das escolas o modelo avaliativo utilizado não corresponde às expectativas da educação moderna. Em sua grande maioria utiliza-se avalições classificatórias. Em outros casos a coisa fica ainda pior, pois os professores, despidos de bom senso e/ou desconhecendo os paradigmas modernos de avaliação educacional, investem em meios de avaliação que mais punem do que educam. Esses meios são muito comuns de serem percebidos nas disciplinas de exatas, mas não exclusivamente, pois muitos outros professores, de outras disciplinas, infelizmente, também utilizam essa prática tão desprezível.

Como consequência da utilização desses métodos ogros da avaliação temos alunos sequelados, marcados com o ferro da injustiça, onde foram apontados como péssimos naquilo que se propuseram a fazer, quando ainda trilham os terrenos da aprendizagem. Esses alunos jamais atingirão seus objetivos por meio da educação, visto que a criação de um bloqueio psíquico será suficiente para impedir a captação da aprendizagem e encerrar sonhos precocemente.

Segundo Perrenoud (1990, p.18):

O poder da organização escolar, que evidentemente deriva do sistema político, consiste em fazer de uma criança que se equivoca com as retas, que não concorda o verbo com o sujeito ou não domina o pretérito simples, um “mau aluno”. (André, 1996)

Essa é, com certeza, mais uma ironia da educação. A mesma escola que educa, que promove o saber e forma cidadãos competentes para inseri-los no mercado de trabalho, é também a escola que classifica alunos como ruins, incompetentes. Temos aqui duas vertentes da mesma escola, sendo que a primeira é redentora e a segunda opressora.

Empurra-empurra na educação

Todas essas mazelas da educação, especificamente da avaliação, não poderão ser atribuídas unicamente ao professor, nem somente a escola ou ao aluno. Existe aqui uma cumplicidade na culpa entre o poder político – gerador dos sistemas de ensino –, a escola, o professor, o aluno e a sociedade. Somos todos culpados, pois cruzamos os braços por achar que somente as nossas ações não serão suficientes para encabeçar uma mudança significativa na educação.

Distanciando-se das responsabilidades inerentes aos processos educativos, professores, gestores, alunos e comunidade fecham os olhos e dão início a um enorme “jogo de empurra-empurra”. Enquanto a comunidade incumbe à escola de toda educação e profissionalização de seus filhos e atribui-a toda culpa pelo fracasso da aprendizagem, os alunos, que esperam fórmulas mágicas que os levem ao sucesso, criticam a escola e os professores pelas mesmas ocorrências, enquanto isso a escola e os professores cruzam os braços para essa realidade, pois atribuem toda a culpa desse enorme fracasso, que é a educação moderna, ao poder político, que investe pouco na educação e que gerou um sistema de ensino frágil o suficiente para naufragar nesse mar de expectativas trazidas pelos alunos às escolas.

As consequências desses fatos lamentáveis podem ser percebidas nos resultados anuais divulgados pelas escolas: índices assustadores de evasão, enorme percentual de reprovação, escola desacreditada, alunos despreparados, professores criticados, ou seja, um sistema de ensino totalmente fragilizado pela incompetência na efetivação da aprendizagem.

Está muito claro que algo terá que ser feito em curto espaço de tempo para que os resultados positivos comecem a aparecer, visto que, ao planejar a educação, é preciso ter em mente que seus resultados finais só se concretizarão depois de percorrido longo tempo de sua primeira iniciativa. Portanto, se não dermos os primeiros passos hoje, muito mais distante ficará o dia de realizarmos o que foi planejado para modificar essa triste realidade do presente.

Ações hierarquizadas

Percebe-se, em meio aos processos educativos, que os educadores, talvez por tradição ou por medo de perder o controle de sua classe, acabam exercendo fortes atitudes autoritárias, baseadas numa hierarquia que não tem mostrado bons resultados. O professor parece “precisar” saber – e mostrar – que é a única autoridade da sala, e que suas imposições jamais deverão ser questionadas. Obviamente que essa reflexão não tem caráter de regra, sendo boa parcela dos docentes incompatível com ela.

Ao invés dessa relação de poderes, sou a favor da prevalência da parceria entre professores e alunos. A final, todos pertencem ao mesmo processo: ensino-aprendizagem. Além disso, há também uma forte relação de interdependência entre esses indivíduos: o aprendizado do professor depende de seus ensinamentos promovidos ao aluno, enquanto este ensinamento que o aluno promove ao professor ocorre enquanto recebe a aprendizagem advinda de seu mestre. Se há uma relação tão estreita entre professor e aluno, por que causar distanciamento, baseado apenas na ideia de controle hierárquico ou pelo medo dos questionamentos nascidos da liberdade de expressão desse novo paradigma de aluno?

Avaliação formativa

Antes de nos aprofundarmos na temática proposta por este subtítulo, gostaria de frisar mais uma importância da avaliação educacional na vida social de seus avaliados. Esta ferramenta possui grande poder de ação e modificação na vida daqueles que por ela são julgados e aferidos.

Sabemos que o futuro profissional de cada um de nós depende diretamente das interpretações da escola e de seu poder de certificação. Ao final de cada etapa de ensino, atribuir-se-á aos discentes um certificado correspondente. Portando estes documentos, pré-requisitos para o ingresso no mercado de trabalho, nos mostraremos aptos, ou não, a ocupar aquela vaga disponível. Todo esse processo de análise e conferência de certificados só é possível através de ferramentas avaliativas.

A avaliação formativa compreenderá os diversos caminhos da formação do aluno, bem como servirá de espelho para prática pedagógica do professor. Avaliar formativamente é entender que cada aluno possui seu próprio ritmo de aprendizagem e, sendo assim, possui cargas de conhecimentos diferentes entre si.

Nessa ótica, o professor deverá utilizar-se da avaliação para o aperfeiçoamento da sua praxe docente. Ele deverá utilizá-la para diagnosticar as insuficiências das metodologias aplicadas, provendo a recuperação integral do aluno que ficou para trás. Deve ainda o professor se encaixar como indivíduo avaliado, pois diante do retrato divulgado pela avaliação, ele poderá concluir o quanto foi eficiente, mas também quão grande foi a sua falha naquele processo de ensino e aprendizagem.

A avaliação formativa é aquela que observa cada momento vivido pelo aluno, seja na sala de aula ou fora dela. Ela fortalece a teoria de que o indivíduo humano aprende em cada instante de sua existência e, portanto, são nesses diversos momentos que ele terá que ser avaliado. Todas essas microavaliações se tornarão um todo através do somatório de suas partes.

Talvez a própria nomenclatura desse modelo avaliativo já forneça-nos muitas informações sobre a sua personalidade. No contexto escolar, onde o processo de ensino-aprendizagem acontece, ela fornece dados sobre as partes e o todo e encara o indivíduo humano como ser evolutivo, que aprende na medida em que vive. Todos os instantes de aprendizagem são considerados nesse modelo avaliativo.

É muito importante também tornar clara a necessidade de fornecer mais atenção àqueles alunos com maior dificuldade de aprendizagem. Essa é mais uma face da avaliação formativa, além de subsidiar panoramicamente a classe aprendiz, ela emite um olhar mais atento e solidário ao aluno que tem um ritmo de aprendizagem um pouco menos acelerado.

Considerações finais

É inconcebível imaginar um modelo educacional que não seja alicerçado na avaliação formativa. Porém, a realidade dos fatos nos leva a concluir que em muitas das nossas escolas ainda prevalecem figurando modelos avaliativos opressores, unicamente propositado à punição. Nesses casos, o professor se utiliza da avaliação apenas para testar se o aluno aprendeu os conteúdos ministrados. Ele ainda não se deu conta que, se o aluno não aprendeu, foi por que sua metodologia foi tão falha que não proporcionou o êxito ao discente.

A avaliação nos moldes tradicionalista, assim como todo o ensino baseado nessa vertente, já se mostrou inoperante. Avaliar deve significar o diagnóstico do ensino, com vistas na busca pela cura das doenças que inibam a aprendizagem. O esperado por mim, ao apresentar-lhes este trabalho, é mostrar que avaliar significa muito mais do que um simples teste sobre aquisição de conteúdos programáticos, ela significa a verificação do ensino e da aprendizagem em todas suas amplitudes. Ela deverá visualizar o indivíduo humano como ser social, cultural, afetivo, cognitivo, transcendental, ou seja, um ser de complexidades revestidas e entrelaçadas sobre si, que somente um olhar mais acurado e desprendido da hierarquia e do tradicionalismo exacerbado poderá perceber o seu desenvolvimento.

“Não há espaço para práticas de ensino diagnosticadas com o vírus do insucesso.”

(Robison Sá)

Referência bibliográfica
ANDRÉ, MARLI D. A. Avaliação Escolar: Além da Meritocracia e do Fracasso. Cadernos de Pesquisas, São Paulo, n. 99. P. 16-20, 1996.