Ironia

Mestre em Linguística, Letras e Artes (UERJ, 2014)
Graduada em Letras - Literatura e Língua Portuguesa (UFBA, 2007)

Costuma-se usar a linguagem no sentido figurado toda vez que se pretende produzir uma interpretação não-literal, ou toda vez que o objetivo é conferir um sentido menos convencional ao texto. Logo, as figuras de linguagem são o recurso linguístico à disposição dos interlocutores com o intuito de criar esses sentidos. Para expressar um pensamento crítico, por exemplo, ou quando a pretensão é fazer com que uma situação comum se torne engraçada, levando-a até mesmo ao ridículo, o falante pode fazer uso da figura de pensamento denominada ironia.

A ironia é definida como um recurso da linguagem que gera um efeito de sentido contrário ao significado da palavra e/ou expressões utiliza no contexto com a finalidade de criticar ou ridicularizar o elemento (ou realidade) em questão. Dessa forma, faz-se a escolha de um termo assertivamente com o objetivo de denotar justamente o contrário do que ele significa.

As figuras de pensamento são aquelas que nos possibilitam realizar alterações no campo semântico, ou seja, na significação das palavras, gerando novos sentidos. Isso significa que ao se valer de uma figura de pensamento, acrescenta-se aos termos da oração mais informações do que eles poderiam conotar em outros contextos de produção. Isso exige do leitor acessar mecanismos lingüísticos e extralingüísticos para construir a compreensão da linguagem figurada.

Em “Introdução à Linguística”, um livro de Leonor Scliar Cabral, a semântica é descrita como “a área que se destina à habilidade do falante nativo para interpretar a significação das orações gramaticais da língua”. (p. 156.) No que se refere às figuras de pensamento, para interpretá-las, muitas vezes, se faz necessário um conhecimento relacionado ao campo semântico, que corresponde à área da significação dos termos e expressões da língua. Sobre isso, neste mesmo livro, Cabral afirma que:

Embora as figuras de pensamento tratem da realização de uma alteração no campo semântico, vale ressaltar que uma teoria semântica não teria condições de expor conotações de caráter pessoal que cada falante atribui à significação. É inegável o fato de que há diversas formas de se usar a língua dentro de uma mesma comunidade de falantes. Por isso se torna irrelevante uma organização de significados possíveis denotados pelo contexto textual e extralinguístico. Dessa forma, cabe ao leitor ou ouvinte do enunciado em questão fazer a análise do conjunto de significações atribuíveis às expressões colocadas.

Isso pode ser verificado no seguinte exemplo: em um diálogo X afirmou para Y que o considera “um grande homem”. Nesta situação, cabe à Y analisar, dentro do contexto em que se encontra, quais são os significados atribuíveis ao termo “grande”, a expressão usada por X. Uma análise que faça Y construir uma interpretação da frase: (1) X fez uma referência ao tamanho de Y; (2) X fez uma referência ao caráter de Y; ou (3) X foi irônico usando o adjetivo “grande” para na verdade diminuir Y enquanto pessoa. Essa análise é intuitiva e o interlocutor a realiza no ato da comunicação.

É importante observar que a ironia se caracteriza exatamente por criar um jogo entre afirmar um significante para negar seu significado, ou seja: o falante seleciona uma palavra para designar a realidade que está ironizando, mas seu intuito é afirmar o contrário do que esta palavra significa. Ao chamar Y de “grande homem” X pode ter tido o intuito de significar o contrário do que o termo designa.

Em alguns casos de construção de ironia, a discrepância entre o que se afirma e o que se deve compreender de tal afirmação é explícita, em outros é mais sutil exigindo um nível de interpretação mais complexo.. Observe alguns exemplos:

Como professor, ele é um ótimo fotógrafo.

Ele é delicado como um elefante numa vidraçaria.

O tempo passou rápido como uma tartaruga cansada.

Política no Brasil se faz com ética e corrupção.

Existe ainda uma utilização ofensiva da ironia, definida como sarcasmo. É um estilo bastante conhecido popularmente e usado no cotidiano. É uma linguagem em tom agressivo, que atenua a afirmação por meio de uma expressão menos negativa, porem com a finalidade de ofender. Originalmente a palavra “sarcasmo” significa “zombaria” ou “escárnio”. Passou a ser introduzido no meio virtual em comentários de postagens realizadas nas redes sociais e também é muito usado com a finalidade de se fazer rir.

Exemplos:

Você está ótima com esse corte novo de cabelo, lhe deixou bem mais envelhecida.

Como você é inteligente! Até parece uma porta lendo um bilhete.

Bibliografia:

CABRAL, Leonor Scliar. Introdução à Linguística. Porto Alegre, Globo, 1976.

CITELLI, Adilson. Linguagem e Persuasão. 15. Ed., 4° reimpressão – São Paulo: Ática, 2002.

GARCIA, Maria Cecília. Minimanual compacto de gramática da língua portuguesa: teoria e prática – 1. ed. – São Paulo: Rideel, 2000.

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