Miguel de Cervantes

O maior romancista, dramaturgo e poeta da língua espanhola, Miguel de Cervantes Saavedra, supostamente nasceu no dia 29 de setembro de 1547 – na época era costume dar à criança o nome do santo comemorado na data do seu nascimento, e este coincidiu com as comemorações de San Miguel -, no município de Alcalá de Henares. Ele era filho de um médico cirurgião, Rodrigo, e de Leonor de Cortinas. Ele cresce na cidade de Valladolid e realiza os estudos em Madri e Sevilha, embora não os complete. O trabalho do pai, que o obrigava a viajar constantemente, o leva a escolher a carreira no exército.

Em 1569 um evento não muito esclarecido, durante o qual teria atingido em duelo Antonio Sigura, o conduz a Itália, onde trabalha ao lado de um Cardeal, no ápice do Renascimento, movimento do qual esta região é o centro irradiador. Este episódio contribui para a formação cultural de Cervantes. No ano de 1571 ele luta na Batalha de Lepanto, durante a qual ele possivelmente tenha perdido a mão esquerda, ou ela tenha sido de alguma forma lesada em seus movimentos, pois há discordâncias entre biógrafos e pesquisadores. Este acidente lhe concede o apelido de ‘o manco de Lepanto’.

Em 1575 ele é aprisionado pelos turcos e levado para Argel, na época um território submetido ao poder do Império Otomano. Aí ele é mantido durante cinco anos, quando então é libertado após o pagamento de seu resgate. O escritor volta para Madri e passa a exercer o cargo de comissário de víveres na corte do Rei Felipe II.

Ao mesmo tempo ele estréia na literatura, com a edição de seus poemas e da novela La Galatea, no estilo pastoral então nascente, em 1585, mesmo ano em que ele contrai matrimônio com Catalina de Salazar, 22 anos mais jovem, com quem só permanece durante um ano. Neste período ele se muda para Esquivias, região de La Mancha, terra de sua esposa, dedicando-se ao universo teatral. O esforço de alguns amigos, entre eles Luíz Gálvez de Montalvo, permitiu que a publicação de sua primeira obra se tornasse conhecida por um público erudito.

Não conseguindo sobreviver da literatura, ele parte em viagem pela Andaluzia, trabalhando como comissário de provisões da Invencível Armada, fixando-se então em Sevilha. Logo depois conquista o cargo de cobrador de impostos do governo, sendo preso dez anos depois, acusado de se apropriar de uma fração da renda arrecadada. Na prisão ele inicia o projeto de seu futuro clássico, Dom Quixote de La Mancha.

Ao completar 58 anos ele consegue finalmente publicar a primeira parte de sua obra-prima, O engenhoso fidalgo dom Quixote de La Mancha, consagrando-se no universo literário, o que lhe permite devotar-se com exclusividade ao ofício literário. Neste livro ele eterniza um personagem que se torna patrimônio da humanidade, o fidalgo Dom Quixote, junto a seu fiel escudeiro, Sancho Pança, e à sua amada Dulcinéia. Seu nome transforma-se inclusive em adjetivo, ‘quixotesco’, do qual as pessoas se valem quando desejam se referir a alguém sonhador e repleto de ideais.

Esta história se universaliza e se eterniza, torna-se fonte inesgotável de inspiração para outros artistas, até mesmo das artes visuais, como Pablo Picasso e Salvador Dalí, que tentam transpor para as telas de seus quadros as figuras imortais deste livro. O imediato sucesso desta narrativa permite a Cervantes lançar suas Novelas Exemplares, compostas por 12 contos, em 1613, obra seguida por Viagem ao Parnaso, de 1614, e de uma coletânea de suas melhores produções teatrais, Oito Comédias e Oito Intermédios, de 1615.

Em 1614 aparece uma falsificação de sua obra, uma suposta seqüência de seu livro, perpetrada por Alonso Fernández de Avellaneda. Indignado, Cervantes lança, em 1615, uma continuação de sua obra-prima - O engenhoso cavaleiro dom Quixote de La Mancha -, com um tom agora mais irônico. Suas peças mais conhecidas atualmente, A Numancia e O trato de Argel, só foram lançadas no século XVIII.

Cervantes morre em 1616, consagrado como o precursor do realismo espanhol, no dia 23 de abril, em Madri, mesma data em que, coincidentemente, também morria William Shakespeare. Um ano mais tarde surge postumamente sua novela Os trabalhos de Persiles e Sigismunda.

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