Murilo Mendes

Por Paula Perin dos Santos
Murilo Mendes (1901-1975) nasceu em Juiz de Fora (MG), onde fez os estudos secundários. Freqüentou o Curso de Direito, mas não terminou. Exerceu vários cargos antes de se mudar para Roma em 1957. Lá trabalhou como professor de cultura brasileira, ensinando em vários países da Europa. Seu nome foi recorrente durante anos nas crônicas literárias e européias.

Sempre foi um poeta fiel aos seus princípios, sem obedecer rigidamente a nenhum estilo, mesmo tendo sofrido influências do Modernismo. O estranhamento que sua poesia provoca deve-se à linguagem fragmentada, às imagens insólitas, à simbologia própria que apresenta e a visão messiânica do mundo.

Murilo parte do princípio de que o mundo é o próprio caos para poder, a partir daí, recompor a ordem das coisas à sua visa surrealista. Desta forma, é desarticulando a ordem convencional, que o aproxima de Drummond, que o poeta assume o primeiro passo para reconquistar o paraíso perdido que, no dizer de Bosi (1994) “não terá o ar devoto de velhos ritualismos, mas se abre aos olhos do poeta como um universo aquecido pela Graça”.

Sua obra tem sido pouco lida nos últimos anos, mas isso não é motivo para desmerecer sua obra. É devido à difícil leitura, pois sua poesia é fruto das várias experiências do autor: sua conversão ao catolicismo, o surrealismo, a poesia social, o experimentalismo barroco e o neobarroquismo.

Murilo Mendes é “poeta de aderência ao ser, poeta cósmico e social que aceita a fruição dos valores primordiais” (Bosi, 1994:501). Lançou-se na literatura como poeta modernista, publicando inicialmente em revistas paulistas da década de 1920. Sua primeira obra, “Poemas”, só veio a público em 1930. Nela já transparecia traços que marcariam sua poesia futura: “a presença constante de metáforas e símbolos, a dilaceração do eu em conflito, a inclinação ao surrealismo e os contrastes: abstrato/concreto, lucidez/delírio, realidade/mito.

De contato com o Marxismo, escreveu “Bumba meu boi”, obra escrita em 1930, mas publicada só em 1959, que apresenta solidariedade com relação à classe operária. Em 1932, publicou “História do Brasil”, obra de cunho ufanista-irônico sobre nossa história. Depois publica “O Visionário”, obra mais complexa, envolta num clima onírico, com muitas sugestões surrealistas. Nesta obra, João Cabral de Melo Neto reconheceu dois ângulos: “a plasticidade – o espaço poético cheio de formas e imagens e a novidade – as relações insólitas que emergem do fluxo pré-consciente.

“A mulher do fim do mundo
Dá de comer às roseiras,
Dá de beber às estátuas,
Dá de sonhar aos poetas”.

(Metade Pássaro)
Tendo se convertido ao catolicismo, escreveu “Tempo e Eternidade” em parceria com Jorge de Lima, com intuito de “restaurar a poesia em Cristo”. Essa renovação da Literatura Cristã já vinha sendo trabalhada com outros poetas, como Augusto Frederico Schmidt, Vinícius de Morais e outros, com raízes neo-simbolistas francesas. Mas foi Murilo Mendes quem tomou a posição mais radical nessa manifestação literária aqui no Brasil: ele conciliou a “poesia religiosa com as contradições do eu, com a preocupação social e com o sobrenatural surrealista”. O poeta mostra uma visão particular de religiosidade, unindo senso prático de vida – democracia, erotismo e socialismo – à arte. Em sua visão religiosa de mundo, os opostos como finito/infinito, matéria/espírito, visível/invisível não se excluem, mas confundem-se no Corpo Místico – Deus – passando apenas por uma experiência terrestre.

Murilo não gostava de pertencer a grupos fechados. Foi por isso que buscou inspiração no formalismo clássico, culminando na publicação de “Contemplação de Ouro Preto” em 1940; trilhou em caminhos como o das experiências com a linguagem substantiva e concreta na década de 1950 quando vivia na Europa e iniciava-se no Brasil o Movimento Concretista.

Em seus principais livros, “A Poesia em Pânico”, “As Metamorfoses” e “Poesia-Liberdade”, o poeta

“objetiva a sua perplexidade em face de um mundo desconjuntado (sempre a obsessão do caos), que deve, porém, resgatar-se em vista dos valores absolutos: Eros e Liberdade”.
(Bosi, 1994:503)

É assim que ele acredita sacralizar todos os fenômenos de sua poesia: através da palavra, fazendo uma analogia ao Criacionismo.

A presença da figura feminina em sua poesia apresenta o mesmo contraste do universo bíblico: há momentos em que se opõe, noutros se unem às aspirações religiosas. Referente a isso, Bosi afirma que

“pode-se dizer mesmo que a tensão entre o profano e o sagrado, resolvida à força de rupturas ou de colagens violentas, dá significado último desse momento central da poesia muriliana” (Bosi, 1994:504).

Em suas últimas obras, “Siciliana”, “Tempo Espanhol” e “Convergência”, Murilo Mendes dá maior atenção às questões lingüísticas: neologismos, exploração dos sinais gráficos e do espaço da página, construção assintática e outros procedi,etos da pesquisa experimental lingüística. Nestas obras o poeta vai além da adesão ao Concretismo: elas constituem o fruto natural de todas as suas vivências e inquietudes diante da Poesia. Como ele mesmo diz numa entrevista: “procuro obedecer a uma lógica interna, de unidade, apesar dos contrastes, dilacerações e mudanças”.

Fontes
BOSI, Alfredo. História concisa da Literatura Brasileira. São Paulo, Cultrix, 1994, p. 500-5.

CEREJA, William Roberto e MAGALHÃES, Thereza Cochar. Literatura Brasileira em diálogo com outras literaturas. 3ed. São Paulo, Atual Editora, 2005, p.492-3.