Sousândrade

Por Fernando Rebouças
Ouvi dizer já por duas vezes que o Guesa errante será lido cinqüenta anos, depois, entristeci – decepção de quem escreve cinqüenta anos antes”. Estas são palavras de um poeta ousado e de vanguarda, apresenta características de um escritor pré – moderno em pleno Romantismo.

Este poeta é Joaquim de Souza Andrade, conhecido como Sousândrade, nascido no Maranhão em 1833. Foi um poeta desarmônico com a literatura romântica; viajou para a Amazônia, onde conheceu a cultura indígena, e morou em Nova York, tendo contato com a sociedade capitalista americana.

Regressa ao Maranhão depois da Proclamação da República; termina a vida sozinho e pobre. Abandonado pela mulher e pela filha, morre ignorado tanto como cidadão e escritor, em 1902.

O poeta é incluído no período do Romantismo mais por uma questão de cronologia, pois sua linguagem poética nada tinha a ver com o momento literário em que viveu. Sua obra renovadora e ousada não encontrou público no século XIX.

O primeiro livro de Sousândrade só foi publicado em 1962, 60 anos após a sua morte, dois anos antes da publicação de “Primaveras” de Casimiro de Abreu. Graças ao trabalho de Augusto e Haroldo de Campos, críticos e poetas, que revisaram a obra do poeta maranhense e o classificaram como poeta de vanguarda e precursor do Modernismo brasileiro.

Inspirado no povo “quícha” , grupo indígena da América do Sul, o poeta escreveu o poema “Guesa errante” que discorre sobre uma lenda deste povo. No poema há a descrição de um ritual religioso que sacrificava o coração de um menino de 15 nos a ser ofertado ao Deus do Sol.

O poeta se considerava sacrificado pelo tempo em que viveu e que não o reconheceu, um poeta que vagou por vários lugares, que o identifica com o poema que escreveu. O poeta também escreveu poemas e estrofes de amor.

Fragmento de canto IV do “Guesa errante”:

Sobre seu coração abandonada.
Branca estátua de grande formosura,
Mirava o Guesa errante à namorada,
Como quem se temesse da ventura.