Fusão a Frio

Por Ricardo Normando Ferreira de Paula
A fusão nuclear é um processo de obtenção de energia cuja origem é a união de dois núcleos leves para formar um núcleo mais pesado. Para gerar uma quantidade de energia considerável é necessário que haja um grande número de fusões, o que é conseguido a partir do fornecimento de uma grande quantidade de energia térmica. Esta energia térmica deve proporcionar uma agitação tal que consiga vencer a barreira imposta pela Lei de Coulomb (Força Elétrica). Esse processo é chamado de Fusão Termonuclear.

Fusão a frio volta a ser levada a sério pela comunidade científica. (1)

Sendo assim, é possível concluir que o processo de fusão nuclear ocorre sob a influência de altas temperaturas. Contudo, no dia 23 de março de 1989 os químicos Martin Fleischmann da Universidade de Southampton (Inglaterra) e Stanley Pons da Universidade de Utah (Estados Unidos) convocaram uma entrevista coletiva cujo intuito era relatar que haviam conseguido controlar o processo de fusão nuclear por um mecanismo diferente do que era conhecido até então. Quase que imediatamente, como era esperado, jornalistas de vários locais do mundo estavam presentes na Universidade de Utah, no estado de mesmo nome, na região oeste central dos Estados Unidos.

A convocação da imprensa pelos cientistas tinha como intuito comunicar acerca da realização de experiências de fusão nuclear em temperatura ambiente e, o que era mais espantoso, teriam obtido energia maior do que a necessária para gerar o processo. Ou seja, não seria necessária utilização temperaturas da ordem de milhões de graus Celsius, como ocorre nas estrelas.

Stanley Pons e Martin Fleischman

As pesquisas exploratórias acerca da Fusão ocorrem desde a década de 40 do século passado. Neste período, existem registros de avanços importantes obtidos em laboratórios europeus, americanos e japoneses, no sentido de produzir por meio da fusão nuclear uma energia em quantidade superior à necessária para gerar o processo. Um dos casos mais conhecidos ocorre em novembro de 1991, no Joint European Torus (JET), onde em um gigantesco reator instalado na Inglaterra, pesquisadores conseguiram por um curto intervalo de tempo de dois segundos obter 2 megawatts de energia, quantidade superior a que foi necessária para realizar o processo de fusão.

A grande problemática do avanço nos estudos neste setor está relacionada à complexidade dos experimentos, que exige equipamentos de custos quase proibitivos. Na ótica dos cientistas, enquanto esta problemática não for superada, o princípio teórico e experimental terá apenas utilidade acadêmica e não se converterá numa tecnologia de uso prático.

A entrevista foi precedida de um release de cinco laudas com o seguinte título: “Resultados de um ‘experimento simples’ com sustentada em temperatura ambiente pela primeira vez”. O subtítulo chamava ainda mais atenção para o fato: “Processo é potencialmente capaz de suprir uma fonte inesgotável de energia”.

O artigo original contendo a descoberta dos dois cientistas foi enviado à Revista Nature que, solicitou dos autores informações mais detalhadas acerca do processo que haviam descoberto. Como as informações solicitadas não foram repassadas ao conselho editorial do periódico, o artigo acabou não sendo publicado. Mesmo assim, os resultados foram divulgados para o grande público através da imprensa.

Após a difusão desta notícia, cientistas de várias partes do mundo (inclusive do Brasil) tentaram reproduzir os resultados anunciados pelos químicos. Depois das várias tentativas, sem sucesso, o Jornal O Globo do dia 6 de maio de 1989 escreve acerca do tema:

“Já é praticamente consensual na comunidade científica internacional: a fusão nuclear a frio, supostamente realizada por dois pesquisadores da Universidade de Utah, nos Estados Unidos, não aconteceu.”

É importante lembrar que Pons e Fleischmann trabalhavam na pesquisa há, pelo menos, cinco anos. Não existem precedentes no que diz respeito ao registro de algum interesse anterior pelo trabalho desenvolvido pela dupla neste ramo de pesquisa. Não se pode afirmar categoricamente o que levou os cientistas a divulgarem um resultado, no mínimo, controverso. O fato determinante é que, diante da sua iniciativa, vários pesquisadores detiveram-se na investigação do assunto.

Neste panorama, é preciso esclarecer que a realização de Pons e Fleischmann se constitui em um passo significativo num longo processo de desenvolvimento científico e tecnológico, uma vez que, devidamente sedimentada, a fusão a frio será um valioso processo de gerar energia.

Carlo Rubbia, físico italiano ganhador de um Prêmio Nobel em 1984 (contribuições fundamentais que levaram à descoberta das partículas de campo W e Z, transportadoras da interação fraca), comentando o anúncio feito por Fleischmann e Pons, afirmou que “a natureza não permitiria uma solução tão simples para um problema tão complexo”.

Bibliografia:
MEDEIROS, Roberto Pereira. Ciência e imprensa: A fusão a frio em jornais brasileiros. Dissertação apresentada à Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo (Departamento de Jornalismo e Editoração). Orientador: Profº Dr. Jair Borin. 1996.

FLEISCHMANN, Martin; PONS, Stanley. Electrochemically Induced Nuclear Fusion of Deuterium. Journal of Electroanalytical Chemistry, v. 261,1989. p. 301-8.