Literatura Egípcia

Segundo Lichtheim, a escrita apareceu no Egito, pela primeira vez, no início da era dinástica. Neste período, o uso da escrita era limitado às notações mais breves destinadas a identificar uma pessoa ou um lugar, um evento ou uma posse, por exemplo, para identificar donos de produtos comercializados. Neste contexto, a escrita em tumbas privadas se aproximou da literatura.

No final do Império Antigo (de 2686 A.C - 2181 A.C), os gêneros de oração e a autobiografia ganham características próprias. As orações focavam-se em temas, como: pedido de ofertas, e pedido de boa recepção de sua alma após morrer. Suas representações em tumbas privadas era comum, tendo-se, como exemplo, o Sarcófago Chamber, cuja parede oeste, na qual se encontram textos, em formato de poema, da Pirâmide de Pepi I, o qual pede à deusa Nut que o leve e transforme em uma estrela, e pede ao deus Hórus para que o deixe viver no céu junto com os outros deuses.

No caso de funcionários ou pessoas com títulos importantes, estes investiam em materializar a narrativa de suas vidas, e, com isso, a autobiografia ganha força. A autobiografia possuia um fluxo livre no formato de prosa. Os túmulos pertenciam a funcionários de cargos altos que se tornaram ricos pelo serviço ao faraó, e aplicavam uma parte significativa de suas riquezas na construção e no equipamento de sua tumba. Das autobiografias de funcionários do Império Antigo, a mais conhecida é a de Harkhuf, esculpida na superfície de sua tumba. Ele serviu nas expansões dos faraós Merenre I e Pepi II.

Outro gênero literário, criado no Império Antigo, que buscava mostrar a importância hierarquica da sociedade foi as instruções de sabedoria. As instruções buscavam mostrar que a sociedade era uma imagem espelhada da ordem que governava o universo, reforçando-se, assim, o aspecto do poder religioso pertencente ao faraó. Um exemplo deste gênero é a Instrução de Ptahhotep, que sobreviveu em quatro cópias (três deles escritos em pápiro e um em tábua de madeira), mas apenas uma (chamado de Pápiro Prisse) está completa.

No Primeiro Período Intermediário, as instruções ganham novo formato de discurso repreensivo ou profético de um sábio que lamenta pelo mal que caiu em seu território, ou que lamenta pelos problemas da natureza humana ou do mundo. As profecias de Neferti foram preservadas em tábuas da Dinastia XVIII e inumeros óstracos do Terceiro Período Intermediário (1070 A.C - 664 A.C). As profecias tratam do mal como um fato social, e a solução para isto seria um rei forte.

No Médio Império do Egito (2050 A.C - 1800 A.C), a literatura possuia grande variedade poética, desde discursos, hinos aos deuses, ao rei até canções. Os hinos foram escritos em pedra e papiro, em forma de poemas. Os discursos se utilizavam de metáforas e aspectos poéticos. As canções cantadas eram acompanhadas de harpa, expressando o tom reflexivo destas. Outro gênero forte neste período era os contos no formato de prosa. De acordo com Lichtheim, a História de Sinuhe é considerada a jóia da literatura do Reino Médio, por mesclar o estilo narrativo com três poemas e uma troca de correspondencia.

Conforme o livro organizado por Simpson, a língua egípcia passou a ser decifrada de forma gradual a partir do século XIX, e neste mesmo século percebeu-se que os textos revelaram-se naturezas distintamente heterogêneas. Muitos deles eram de categoria religiosa, mas haviam também inscrições de caráter administrativo, biográfico, judiciais e médicos. Entre os anos 1920 e 1930, a literatura e a linguística foram os principais temas da egiptologia, mas as traduções literárias de hieróglifos já haviam começado com Champollion, em 1822.

Bibliografia:

VEIGA, Paula Alexandra da Silva. Health and Medicine in Ancient Egypt: Magic and Science. BAR International Series 1967. Oxford: Archaeopress, 2009, 80 p.

LICHTHEIM, Miriam. Ancient Egyptian Literature: The Old and Middle Kingdoms. California: University of California Press, 1975, 245 p.

SIMPSON, William Kelly (org). The Literature of Ancient Egypt: an Anthology of stories, instructions, stelae, autobiographies, and poetry. Londres: Yale University Press, 2003, 620 p.