Literatura Egípcia

Graduada em História (USP, 2011)

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Quando pensamos em egípcios e suas escritas, logo lembramos dos tradicionais hieróglifos. Sim, isso não está errado. Mas há um longo processo até que cheguemos até eles.

Ao longo de todas as sociedades antigas o surgimento da escrita foi uma importante revolução no sentido em que se tornou um meio de registro, no Egito Antigo não foi diferente.

Com o crescimento da sociedade egípcia e a consolidação de Estado mais burocratizado, ou seja, mais organizado, por volta de 3000 a.C e o advento da melhoria das técnicas agrícolas que levaram a um aumento da produtividade era necessário realizar algum tipo de registro.

Embora não exista um consenso entre os especialistas, acredita-se que a descoberta da escrita pelos egípcios tenha se dado a partir do contato com outros povos, provavelmente da região da Mesopotâmia, talvez entre 3100 e 3600 a.C., fato é que esses primeiros artefatos eram feitos em tabuletas de pedra, provavelmente furadas com ossos ou marfim.

Tabuletas “numéricas” da Tumba U-J, na necrópole de Umel Caabe, no Egito. Foto: https://bibliodigital.unijui.edu.br

No Egito Antigo, diferentemente do nosso alfabeto que se constitui a partir de fonemas, sons, a escrita que começou a se desenvolver era simbólica. Ou seja, os ícones simbolizavam coisas, tal como os emojis tão utilizados na linguagem da internet hoje em dia.

Para registrar estes símbolos os egípcios foram das tabuletas de pedras, passam às peles de animais, utilizando tintas rudimentares feita a base de plantas e minerais aos famosos papiros.

O papiro só começou a ser utilizado por volta de 2500 a.C e ele era obtido a partir de uma planta, o Cyperus papyrus, o processo constituía-se na extração da parte interna do caule da planta e deixavam-nas para secar, as fibras da planta eram embebidas em uma mistura de vinagre e mais umas colocadas para secar. Posteriormente, eram interlaças como se fossem um tecido, marteladas, para que ficassem mais finas, depois ele era enrolado, só então estava pronto para o uso.

Importante frisar que não só os egípcios utilizavam os papiros, outras sociedades antigas também utilizavam esse mecanismo para registro de seus documentos.

A escrita para os egípcios, como mencionado no início do texto tornou-se uma forma de organização, tanto que na sociedade egípcia, os escribas, aqueles que dominavam a arte da escrita estava no alto da burocracia estatal, afinal estava relacionada diretamente ao poder. Ela era utilizada para registrar as safras, a quantidade de escravos, o número de soldados, saques em guerras, mas também registrar a história.

Um importante registro histórico que pode ser considerado uma obra da literatura egípcia é o Livro dos Mortos ou na tradução do egípcio original Livro de Sair Para a Luz.

Trecho do Livro dos Mortos. Foto: Manfred Werner / Wikimedia Commons / CC-BY-SA 3.0

Os egiptólogos datam que o Livros dos Mortos foi produzido durante o período do Novo Império, entre 1550 a.C a 1069 a.C, este consistia em uma compilação de textos contendo fórmulas mágicas, orações, cantos, hinos e até feitiços para ajudar as almas na passagem para o mundo dos mortos e livrá-las de eventuais perigos pelo caminho.

Este livro ou, às vezes, apenas fragmentos dele, era colocado junto à cabeça das múmias – lembrando que somente pessoas da realeza, sacerdotes, faraós ou indivíduos mais abastados eram mumificados, normalmente – e assim seus sarcófagos eram fechados.

Talvez uma das passagens mais famosas do livro dos mortos seja o capítulo XXX, conhecido como “O Tribunal de Osiris”.

Trecho do Livro dos Mortos, cena do Tribunal de Osiris.

Na religião egípcia, Osíris é a divindade conhecida por ser o deus da morte. Neste trecho, o morto é conduzido ao tribunal por Anubis – ele é o condutor das almas no mundo dos mortos, na religião egípcia os deuses são antropozoomórficos, ou seja, tem forma de homens e animais, por isso Anubis é representado com uma cabeça de chacal e corpo de homem –, lá o coração do morto será pesado em uma balança de acordo com as suas ações em vida. Em um dos lados da balança há o coração do morto do outro uma pena, se o coração do morto for mais pesado que a pena ele será devorado, caso o peso seja igual ao da pena está absolvido e poderá seguir o seu caminho.

Bibliografia:

CÉSAR, Maria Buffa. Livro dos Mortos, uma discussão acerca do capítulo 30. NEARco Revista eletrônica de Antiguidade e Medievo. Disponível em: https://www.e-publicacoes.uerj.br/index.php/nearco/article/view/35421/25042, acesso em 06 nov. 2021.

DOBERSTEIN, Anoldo W. O Egito Antigo. Porto Alegre: EdiPUCRS, 2010.