Estrela da Vida Inteira

Por Paula Perin dos Santos
Estrela da Vida Inteira” (1965) é uma obra que reúne as poesias completas de Manuel Bandeira, que se destaca em nossa literatura por solidificar a poesia modernista em todas as suas implicações: o verso livre, liberdade criadora, linguagem coloquial, irreverência e a ampliação das temáticas comumente usadas nesse período, cultivando a capacidade de extrair poesias das coisas mais simples do cotidiano.

Foi a partir de temas até então considerados banais para a criação da “grande poesia”, como o quarto, o beco, o jornal, ações do cotidiano, que a coletânea “Estrela da Vida Inteira” revela poesias ricas em construção e significação, apesar de usar uma linguagem em que nada se ajusta aos moldes do simbolismo. “Poema tirado de uma notícia de jornal”, por exemplo, parece ser um recorte de notícia jornalística. Entretanto, é usando uma linguagem coloquial que ele combina crítica social com reflexão filosófica.

João Gostoso era carregador de feira livre e morava no morro da Babilônia num barracão sem número
Uma noite ele chegou no bar Vinte de Novembro
Bebeu
Cantou
Dançou
Depois se atirou na lagoa Rodrigo de Freitas e morreu afogado
”.
(Estrela da Vida Inteira, p. 117)

Os poemas desta coletânea tratam também de temas já exploradas por escritores de diversas estéticas, mas nesta obra assumem uma nova dimensão. A saudade, a infância e a solidão – temas constantes no Romantismo – apresentam uma postura crítica, de forma simples e despojada:

Então me levantei

Bebi o café que eu mesmo preparei,

Depois me deitei novamente, acendi um cigarro e fiquei pensando...

 

 

- Humildemente pensando na vida e nas mulheres que amei”.

“Evocação do Recife” trata de uma forma subjetiva o “Recife da infância do eu-lírico”. Ele envolve vários temas, ligados ao folclore e à cultura popular. Descreve a cidade do Recife no fim do século XIX e, ao mesmo tempo, tematiza a infância, abordada numa perspectiva de experiência de vida: não idealizada, mas concreta e, quando contratada com o presente, acentua sua trágica condição.

A Rua da União onde eu brincava de chicote-queimado e partia as vidraças da dona Aninha Viegas”.
(Estrela da vida inteira, p. 114)

A poesia fala das brincadeiras de roda com suas cantigas infantis, os pregões dos vendedores, as crenças populares, os nomes das ruas, os boatos da vizinhança. Além disso, critica abertamente o português usado pelas pessoas cultas, exaltando a fala espontânea e natural do povo brasileiro: a língua viva.

A vida não me chegava pelos jornais nem pelos livros
Vinha da boca do povo na língua errada do povo
Língua certa do povo
Porque ele é que fala gostoso o português do Brasil
Ao passo que nós
O que fazemos
É macaquear
A sintaxe lusíada...

A irregularidade métrica e a ausência de pontuação passam a ser uma figura de expressão usada pelo poeta a fim de sugerir a rapidez das ações: “Os homens punham o chapéu saiam fumando” e a violência das águas durante as cheias: “Cheias! As cheias! Barro boi morto árvores destroços redemoinho sumiu”. Essa enumeração caótica, neste extenso verso, imita a força da água que, arrastando tudo o que encontra pela frente, promove o caos.

Diante da realidade muitas vezes opressora, dois temas se destacam como “escape” desta realidade: o paraíso sonhado - “Pasárgada” - e o paraíso perdido – a infância.

"Vou-me embora pra Pasárgada
Lá sou amigo do rei
Lá tenho a mulher que eu quero
Na cama que escolherei
Vou-me embora pra Pasárgada

Vou-me embora pra Pasárgada
Aqui eu não sou feliz
Lá a existência é uma aventura
De tal modo inconseqüente
Que Joana a Louca de Espanha
Rainha e falsa demente
Vem a ser contraparente
Da nora que eu nunca tive

E como farei ginástica
Andarei de bicicleta
Montarei em burro brabo
Subirei no pau-de-sebo
Tomarei banhos de mar!
E quando estiver cansado
Deito na beira do rio
Mando chamar a mãe-d'água
Pra me contar as histórias
Que no tempo de eu menino
Rosa vinha me contar
Vou-me embora pra Pasárgada

Em Pasárgada tem tudo
É outra civilização
Tem um processo seguro
De impedir a concepção
Tem telefone automático
Tem alcalóide à vontade
Tem prostitutas bonitas
Para a gente namorar

E quando eu estiver mais triste
Mas triste de não ter jeito
Quando de noite me der
Vontade de me matar
— Lá sou amigo do rei —
Terei a mulher que eu quero
Na cama que escolherei

 

 

“Vou-me embora pra Pasárgada”.

O poema “Vou-me embora pra Pasárgada” revela as delícias do lugar sonhado, recompensa pelas frustrações da “vida besta”, enquanto a infância passa a ser sinônimo de um paraíso perdido, que pode ser recuperado pela memória.

Porquinho-da-Índia

Quando eu tinha seis anos
Ganhei um porquinho-da-índia.
Que dor de coração me dava
Porque o bichinho só queria estar debaixo do fogão!
Levava ele prá sala
Pra os lugares mais bonitos mais limpinhos
Ele não gostava:
Queria era estar debaixo do fogão.
Não fazia caso nenhum das minhas ternurinhas...

 

- O meu porquinho-da-índia foi minha primeira namorada”.

Apesar do poeta não ter participado da Semana de Arte Moderna ativamente, por considerar um exagero os ataques feitos aos simbolistas e parnasianos, “Estrela da vida inteira” é um misto das estéticas simbolistas, parnasianas e também modernistas que transparecem a estranheza do poeta frente ao mundo que o cerca e de que forma esses acontecimentos se refletem em seu ser íntimo. Assim, emerge desta coletânea a solidão, o humor, a indignação frente à poesia “pré-fabricada” – “Estou farto do lirismo comedido”, uma ironia por vezes amarga, a tristeza, a idealização de um mundo melhor, retratos de cenas cotidianas, certa descrença às vezes – “A vida... não vale a pena e a dor de ser vivida”.

Alguns poemas famosos de “Estrela da vida inteira”:

POÉTICA

Estou farto do lirismo comedido
Do lirismo bem comportado
Do lirismo funcionário público com livro de ponto expediente protocolo e manifestações de apreço ao sr. diretor.
Estou farto do lirismo que pára e vai averiguar no dicionário o cunho vernáculo de um vocábulo
Abaixo os puristas

Todas as palavras sobretudo os barbarismos universais
Todas as construções sobretudo as sintaxes de exceção
Todos os ritmos sobretudo os inumeráveis

Estou farto do lirismo namorador
Político
Raquítico
Sifilítico
De todo lirismo que capitula ao que quer que seja fora de si mesmo.

De resto não é lirismo
Será contabilidade tabela de co-senos secretário do amante exemplar com cem modelos de cartas e as diferentes maneiras de agradar às mulheres etc.

Quero antes o lirismo dos loucos
O lirismo dos bêbados
O lirismo difícil e pungente dos bêbados
O lirismo dos clowns de Shakespeare

 

 

- Não quero mais saber do lirismo que não é libertação.

PNEUMOTÓRAX

Febre, hemoptise, dispnéia e suores noturnos.
A vida inteira que podia ter sido que não foi.
Tosse, tosse, tosse.

Mandou chamar o médico:
- Diga trinta e três.
- Trinta e três... trinta e três... trinta e três...
- Respire.

- O senhor tem uma escavação no pulmão esquerdo e o pulmão direito infiltrado.
- Então, doutor, não é possível tentar o pneumotórax?
- Não. A única coisa a fazer é tocar um tango argentino.

ARTE DE AMAR

Se queres sentir a felicidade de amar, esquece a tua alma.
A alma é que estraga o amor.
Só em Deus ela pode encontrar satisfação.
Não noutra alma.
Só em Deus — ou fora do mundo.
As almas são incomunicáveis.

Deixa o teu corpo entender-se com outro corpo.

Porque os corpos se entendem, mas as almas não.

ANTOLOGIA

A vida
Não vale a pena e a dor de ser vivida
Os corpos se entendem mas as almas não.
A única coisa a fazer é tocar um tango argentino.

Vou-me embora p'ra Pasárgada!
Aqui eu não sou feliz.
Quero esquecer tudo:
- A dor de ser homem…
Este anseio infinito e vão
De possuir o que me possui.

Quero descansar
Humildemente pensando na vida e nas mulheres que amei…
Na vida inteira que podia ter sido e que não foi.

Quero descansar.
Morrer
Morrer de corpo e de alma.
Completamente.
(Todas as manhãs o aeroporto em frente me dá lições de partir.)

Quando a Indesejada das gentes chegar
Encontrará lavrado o campo, a casa limpa,
A mesa posta,
Com cada coisa em seu lugar.

Fontes
BANDEIRA, Manuel de. Estrela da vida inteira. 2 ed. Rio de Janeiro, J. Olympio, 1970.

CEREJA, William Roberto e MAGALHÃES, Thereza Cochar. Literatura Brasileira em diálogo com outras literaturas. 3 ed. São Paulo, Atual editora, 2005, p.417-23.

NICOLA, José de. Literatura Brasileira: da origem aos nossos dias.6 ed. São Paulo, Scipione, 1987, p. 206-11.