Urupês

Por Ana Lucia Santana
A obra Urupês, de Monteiro Lobato, nasceu da revolta do autor contra os sertanejos brasileiros, responsáveis, segundo ele, pelo constante incêndio nos campos, através dos quais limpam os terrenos, as famosas queimadas, cometidas em demasia e, portanto, prejudiciais para um proprietário de terras como ele. Revoltado, o escritor envia ao veículo O Estado de São Paulo uma missiva reclamando contra esta situação.

Os editores, percebendo o valor literário deste texto, transportam sua publicação para uma página condizente com suas características, encaminhando Lobato, desta forma, em sua trajetória na literatura. Esta história está registrada no artigo ‘Velha Praga’, um dos dois que compõe este livro, configurado por 14 contos e lançado em 1918.

As histórias que nele estão presentes retratam basicamente a rotina do caipira que habita a região rural de São Paulo, e revelam suas opiniões, hábitos, memórias e símbolos. Elas têm algo mais em comum, um fim dramático e surpreendente. Estes contos nascem, quase sempre, da vivência do autor na vida campestre, como fazendeiro. Urupês é a primeira produção literária de Lobato.

As narrativas se passam com frequência na pequena cidade de Itaoca, região do interior de São Paulo. O último enredo, Urupês, considerado o segundo artigo contido nesta obra, introduz a imagem de Jeca Tatu, o sertanejo característico, lento, avesso ao trabalho, desprovido de cultura, desnecessário. É assim que o autor descreve o caboclo, um tipo de orelha-de-pau, ou seja, pequeno cogumelo, daí o título Urupês, que traduz esta espécie de fungo.

As demais narrativas discorrem sobre os personagens que pululam no campo, relatam suas aventuras e infortúnios, apresentam sua fala e seus hábitos cotidianos. Em A Colcha de Retalhos, por exemplo, o narrador se dirige à pequena propriedade de Zé Alvorada para lhe oferecer um emprego, mas ele está ausente.

Enquanto espera seu retorno, o empregador conversa com a esposa do rapaz, Sinhá Ana, a filha Pingo d’Água, uma adolescente de 14 anos e a avó Sinhá Joaquina, que já atingiu os setenta anos. A anciã tece uma colcha de retalhos com uma tira de tecido de cada veste que a menina usa desde que era um bebê, a qual só será concluída com o pedaço correspondente ao vestido de noiva. Dois anos depois, o narrador recebe a notícia da morte de Ana e da partida da garota com um homem. Ele visita a idosa e a encontra desolada, sem saber o que fazer de sua obra de retalhos; pouco depois ele saberia de sua morte.

Monteiro Lobato apresenta, nesta obra, um estilo muito semelhante ao do autor francês Guy de Maupassant, não só porque o cita em Meu Conto de Maupassant, mas principalmente por representar igualmente feitos radicais e pungentes, guiados por afeições amorosas e pela presença da morte.

José Bento Monteiro Lobato nasceu em 1882; formado em Direito, ele escrevia principalmente para o público infantil. As crianças o encantavam tanto que, ao se desiludir com a literatura dirigida aos adultos, ele retoma a escrita que o vincula definitivamente a este universo pueril.

Ele também se tornou célebre por sua defesa apaixonada do petróleo brasileiro. Outro livro de contos muito conhecido é Cidades Mortas, também caracterizado pelo discurso singelo, marcado por ares modernos e pela ironia, que traduz suas densas emoções e sua constante cólera diante das dificuldades de nosso país, provocadas, conforme a crença de Monteiro Lobato, pela carência de energia da massa popular.

Fontes:
http://www.algosobre.com.br/resumos-literarios/urupes.html
http://pt.wikipedia.org/wiki/Urupês_(livro)