A educação segundo Platão

Por Ana Lucia Santana
O núcleo da filosofia de Platão é, sem dúvida, a reencarnação, a qual tem efeitos profundos sobre sua concepção educacional, embora inúmeros intérpretes de sua obra prefiram seguir uma vertente mais materialista e distante de qualquer conotação espiritual. Os dois aspectos pedagógicos mais significativos de sua obra só podem ser realmente compreendidos à luz da crença nas várias existências. Platão acredita que a educação deve ser direcionada à aquisição do conhecimento do Bem e da Verdade, e também que aprender é recordar.

Isto só é possível, segundo o pensador, porque na esfera superior dos céus estão estabelecidas as Verdades Eternas, em um recanto metafísico conhecido como Hiperurânio. Aí é possível encontrar as ideias e formas puras, concretas, eternas, inalteráveis e perfeitas.

A alma humana, ao se desprender do corpo, após a morte, tem a oportunidade de vislumbrar este universo, centro das existências passíveis de serem compreendidas; o mundo material, criado pelo artífice divino, é, portanto, apenas uma reprodução imperfeita e passageira deste modelo ideal. Uma vez contemplado o verdadeiro conhecimento, o Homem guarda no íntimo de sua essência a memória desta visão, embora conscientemente esqueça de tudo ao renascer.

Após o contato inicial com a fonte do saber, o ser humano o busca inconscientemente ao longo de sua trajetória existencial, guardando, assim, uma forte inclinação a alcançar este grau de excelência. Ao se deparar, no mundo das sensações físicas, com objetos que lhe despertam a vaga lembrança das Verdades Eternas, o Homem vai aos poucos resgatando o conhecimento que, na verdade, nunca lhe foi roubado.

Assim, o conhecimento científico, embasado na verdade em sua face mais íntima, só é possível quando o ser recupera, em suas reminiscências, o verdadeiro saber, só apreendido quando a alma está liberta do corpo; por esta razão, Platão defende que conhecer é lembrar, e que o Homem, ao encontrar o objeto do saber, tem condições de reconhecê-lo, uma vez que ele já está impresso em sua alma.

O filósofo preconiza uma formação básica consistente, a qual gradualmente vai atingindo estágios mais elevados, até culminar nas pesquisas filosóficas; a esta etapa só chegariam os seres particularmente talentosos. Platão denomina esta fase de educação preparatória; nela os alunos têm condições de aprimorar harmonicamente o espírito e o corpo.

Platão crê que o ensino deveria ser atributo do Estado, não das entidades privadas. Os professores seriam selecionados por Atenas e supervisionados por cidadãos revestidos de poderes judiciais, especificamente designados para atuar na esfera educacional. Ele ainda projetava um modelo pedagógico igual para homens e mulheres até que eles completassem seis anos de idade. Daí em diante estes aprendizes seriam divididos em classes e professores distintos.

A educação do cidadão, para o filósofo, teria uma duração de 50 anos. Dos 3 aos 6 anos, os infantes seriam formados através de atividades lúdicas, em recantos particularmente elaborados para eles. A instrução em si, porém, só teria início aos 7 anos, seguindo a prescrição da Paideia grega, a qual permitia que o aluno tivesse uma formação clássica, principalmente no campo da Filosofia.

A orientação educacional convencional, na antiga Grécia, contemplava duas áreas – a ginástica, desprovida de valores competitivos, enriquecida com treinamentos para confrontos bélicos, tanto direcionados às garotas como aos garotos; e a música, alimento do espírito, a qual era ainda mais privilegiada na preparação dos jovens de 13 a 16 anos.

A etapa da alfabetização era reservada à faixa etária localizada entre 10 e 13 anos, seguida pela ênfase na compreensão dos escritores clássicos, na poética e na prosa, com exceção de poetas como Homero e Hesíodo, os quais, para ele, formavam no leitor um conceito mordaz dos deuses.

Assim os alunos iam seguindo, passando, em um estágio adiantado, pelas Ciências Matemáticas, Astronomia, entre outras disciplinas, até atingir os cinquenta anos, quando a formação se completava, se eles tivessem vencido todos os desafios da jornada intelectual. O objetivo máximo era, portanto, resgatar finalmente o conceito eterno e puro do Bem, quando o cidadão estava pronto para atuar na gestão do estado, integrando o restrito círculo dos governantes, formado tão somente por filósofos.

Fontes:
http://www.educ.fc.ul.pt/docentes/opombo/hfe/momentos/escola/academia/academia4.htm
Alessandro César Bigheto. Educação e Reencarnação em Platão, in Dora Incontri. Educação e Espiritualidade – Interfaces e Perspectivas. Editora Comenius, Bragança Paulista, 2010, pp. 282-286.