Tatuíra

Mestre em Ecologia e Recursos Naturais (UFSCAR, 2019)
Bacharel em Ciências Biológicas (UNIFESP, 2015)

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A espécie Emerita brasiliensis, popularmente denominada tatuíra e/ou tatuí, descreve um crustáceo decápoda marinho que ocorre na costa do Brasil. Existem apenas outras nove espécies descritas deste mesmo gênero, que ocorrem nas costas da África, Austrália, sul da Ásia, Índia, Estados Unidos, México e Caribe.

Os tatuíras possuem corpo arredondado coberto pelo rígido exoesqueleto de quitina. Este composto provê durabilidade e resistência para todos os animais do filo Arthropoda, que inclui insetos, aranhas e crustáceos. A quitina é um análogo da celulose, sendo um polissacarídeo de cadeia longa. No exoesqueleto dos tatuíras, além da quitina, também podem ser encontrados diversas outras proteínas, como a resilina (que auxilia na elasticidade em articulações das patas) e diversos outros compostos, como carbonatos. Apesar da rigidez, esta carapaça concede uma proteção contra a desidratação, característica essencial aos tatuíras, que vivem em ambientes constantemente expostos a radiação solar e com elevada salinidade.

Apesar do hábito de se enterrarem na areia das praias, os tatuíras ficam a apenas alguns centímetros da superfície. Suas antenas costumam ficar posicionadas para cima, expostas no substrato arenoso para auxiliar na filtragem e captura de plâncton e detritos orgânicos, suas principais fontes de alimento.

Os tatuíras são dioicos com certo grau de dimorfismo sexual. Os machos são geralmente menores que as fêmeas, com um comprimento total de carapaça que dificilmente ultrapassa 4 centímetros. Devido às suas pernas curtas, largas e repletas de cerdas, os tatuíras conseguem enterrar todo o corpo na areia em poucos segundos. Uma vez enterrados, os pereiópodes (apêndices do cefalotórax) afastam parte da areia da porção ventral do corpo, concedendo-lhes mobilidade sob o substrato. Toda essa ação é feita com agilidade, pois os tatuíras só conseguem se enterrar efetivamente na areia recém molhada pelas ondas. Caso fiquem expostos entre ondas, costumam correr com agilidade para evitar serem predados. Com a chegada de uma nova onda, eles cavam novamente, se enterrando na orientação das ondas para maximizar a filtração de alimento.

A mudança das marés nas praias ao longo do dia afeta fortemente o comportamento dos tatuíras. Conforme a maré fica baixa, recuando e expondo a areia a dessecação, os tatuíras detectam a alteração da umidade do solo e se desenterram, migrando para a zona de arrebentação das ondas onde se permitem ser carregados pelo movimento da água para locais que ainda são banhados pelas ondas com frequência. Com o aumento da maré, os tatuíras novamente utilizam a forca motriz das ondas para arrasta-los para pontos mais distantes da faixa de areia, mas que ainda sejam molhados pelas ondas.

Os tatuíras são utilizados por pescadores em comunidades ribeirinhas como isca de pesca, mas seus principais predadores são peixes e aves marinhas. Somente em partes da Índia e Tailândia é que esses crustáceos são consumidos como aperitivos fritos ou cozidos, tendo um sabor similar ao de camarões. A presença de tatuíras nas praias é considerada ecologicamente positiva, pois se relaciona a qualidade ambiental tanto da areia quanto da água. Em praias poluídas, seja por forte presença humana (lixo) ou por resíduos de embarcações (portos), é difícil encontrar tatuíras na areia, uma vez que estes animais são sensíveis a alterações em seus ambientes de vida causadas por poluentes como metais, micro plásticos ou resíduos orgânicos.

Referências:

Lercari, D. and Defeo, O., 2003. Variation of a sandy beach macrobenthic community along a human-induced environmental gradient. Estuarine, Coastal and Shelf Science58, pp.17-24.

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Petracco, M., Veloso, V.G. and Cardoso, R.S., 2003. Population dynamics and secondary production of Emerita brasiliensis (Crustacea: Hippidae) at Prainha Beach, Brazil. Marine Ecology24(3), pp.231-245.

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