Hino Nacional Brasileiro

Graduada em História (UFF, 2017)
Mestre em Sociologia e Antropologia (UFRJ, 2012)
Graduada em Ciências Sociais (UERJ, 2009)

O hino nacional de um país conforme conhecemos atualmente é resultado de um longo processo de modificação de sua construção e importância histórica. Até o final da 2° metade do século XIX, os hinos tinham suas letras modificadas de acordo com os acontecimentos importantes de um país como a morte de um monarca, uma guerra vitoriosa, etc. Essa constante atualização dos hinos demonstra como a historia nacional se confundia com a vida do soberano daquele país. A partir das mudanças nos sistemas políticos, o rei deixou de representar toda a comunidade nacional e os hinos, então, passaram a ser elementos simbólicos de extrema importância dentro do processo de construção de identidade de uma nação. Os hinos tornam-se, assim, uma canção que tem como função não só representar o país, mas principalmente, suscitar o sentimento patriótico de orgulho e pertencimento a uma mesma nação.

Esse processo de diversas modificações visando atualizar o conteúdo do Hino Nacional, também ocorreu no caso brasileiro. Composto pelo maestro Francisco Manuel da Silva originalmente criado na celebração da independência em 1822, intitulado de Marcha Triunfal. Em decorrência da ocasião de abdicação do trono brasileiro e volta para Portugal de D. Pedro I ocorrida em 1831, o hino foi alterado devido à importância desse evento que foi tido como responsável pelo definitivo rompimento dos laços entre o Brasil e sua antiga nação colonizadora. Posteriormente, no segundo reinado, outros versos foram criados para incorporar novos fatos mantendo, porém, sua melodia intacta.

Com o advento da República, houve a tentativa de reestruturar os símbolos nacionais, sendo o Decreto nº 4, de 19 de novembro de 1889, uma das primeiras medidas de recriação da estética visual dos “distintivos da bandeira e das armas nacionais, e dos selos e sinetes da República” transformando antigas referências à realeza em referência a nomes ligados ao governo republicano.

José Murilo de Carvalho em seu livro “A formação das almas: o imaginário da República no Brasil” afirma que a república tinha sido proclamada mas que só a força não seria suficiente para sustentar o regime, era preciso também persuadir a sociedade. Por esse motivo os republicanos procuraram fazer uma reformulação de todos os elementos simbólicos que pudessem auxiliar no processo de legitimação do novo governo. Elementos esses que deveriam diferenciar a República da Monarquia e atestar como o novo regime político era vantajoso e mais eficaz. Alguns símbolos/imagens/rituais eram de fato invenção republicana, outros como o Hino Nacional era um símbolo ligado à tradição monárquica que permaneceu presente no período republicano.

Á época da proclamação da república não havia um hino republicano e o que se cantava pelas ruas era a Marselhesa, Hino Nacional Francês, considerado símbolo revolucionário. Abriu-se então um concurso com a finalidade de escolher um novo hino para o Brasil. Só que o Hino Nacional da época imperial era muito popular e aclamado pela população. Decidiu-se então manter a música de Francisco Manuel da Silva, mas como uma nova letra composta por Joaquim Osório Duque Estrada. O hino escolhido pelo concurso (Liberdade, liberdade, abre as asas sobre nós...) sagrou-se então como Hino da Proclamação da República.

Letra do Hino Nacional Brasileiro

Parte I

Ouviram do Ipiranga as margens plácidas
De um povo heróico o brado retumbante,
E o sol da liberdade, em raios fúlgidos,
Brilhou no céu da pátria nesse instante.

Se o penhor dessa igualdade
Conseguimos conquistar com braço forte,
Em teu seio, ó liberdade,
Desafia o nosso peito a própria morte!

Ó Pátria amada,
Idolatrada,
Salve! Salve!

Brasil, um sonho intenso, um raio vívido
De amor e de esperança à terra desce,
Se em teu formoso céu, risonho e límpido,
A imagem do Cruzeiro resplandece.

Gigante pela própria natureza,
És belo, és forte, impávido colosso,
E o teu futuro espelha essa grandeza.

Terra adorada,
Entre outras mil,
És tu, Brasil,
Ó Pátria amada!
Dos filhos deste solo és mãe gentil,
Pátria amada,
Brasil!

Parte II

Deitado eternamente em berço esplêndido,
Ao som do mar e à luz do céu profundo,
Fulguras, ó Brasil, florão da América,
Iluminado ao sol do Novo Mundo!

Do que a terra, mais garrida,
Teus risonhos, lindos campos têm mais flores;
"Nossos bosques têm mais vida",
"Nossa vida" no teu seio "mais amores."

Ó Pátria amada,
Idolatrada,
Salve! Salve!

Brasil, de amor eterno seja símbolo
O lábaro que ostentas estrelado,
E diga o verde-louro dessa flâmula
- "Paz no futuro e glória no passado."

Mas, se ergues da justiça a clava forte,
Verás que um filho teu não foge à luta,
Nem teme, quem te adora, a própria morte.

Terra adorada,
Entre outras mil,
És tu, Brasil,
Ó Pátria amada!
Dos filhos deste solo és mãe gentil,
Pátria amada,
Brasil!

Bibliografia:

Carvalho, José Murilo de. A formação das almas: o imaginário da República no Brasil. São Paulo: Companhia das Letras, 1990.)

http://cpdoc.fgv.br/sites/default/files/verbetes/primeira-republica/HINO%20NACIONAL.pdf