Fanatismo

Doutorado em andamento em Filosofia (UERJ, 2018)
Mestre em Filosofia (UERJ, 2017)
Graduado em Filosofia (UERJ, 2015)

O significado mais comum do conceito de fanatismo diz respeito a um excesso de admiração ou zelo cego e veemente em relação a alguma coisa, é um sentimento de cuidado excessivo que não raramente produz desprezo e intolerância para com qualquer elemento diferente em qualquer campo ou domínio a que esteja associado. A forma de fanatismo que mais frequentemente vem à mente de quem ouve esta expressão é o fanatismo religioso, que pode ser verificado tanto na história do cristianismo no ocidente quanto nas guerras provocadas por diversos grupos radicais muçulmanos no Oriente Médio durante os séculos XX e XXI, por exemplo.

Fanáticos do grupo Ku Klux Kan, próximo a Whashington, D.C., Estados Unidos (1921-22). Foto: Everett Historical / Shutterstock.com

Outra forma de fanatismo, no entanto, veio à luz ainda no início do século XX e demonstrou ser tão perigosa e resistente quanto o fanatismo religioso, perdurando até o presente século: o fanatismo político. Nele, em nome da adesão a um partido, uma ideologia ou um movimento político, abole-se os limites humanos na política enquanto diviniza-se tanto certas concepções políticas quanto os indivíduos que as encarnam. Nesse sentido, o fanatismo político acaba por assemelhar-se ao fanatismo religioso, onde a ideologia ou o indivíduo que a encarna assumem o lugar de Deus, detentor da verdade absoluta. Apesar de o conceito de fanatismo carregar consigo um caráter negativo desde a antiguidade, no contexto político ele passou a ser considerado uma espécie de virtude, significando uma fidelidade forte, que ignora objeções e limites. Contudo, a experiência demonstra que este tipo de fidelidade é o mais frágil de todos, pois na primeira decepção ele facilmente transforma-se em seu contrário.

Filosoficamente, a palavra fanatismo foi utilizada a partir do século XVIII no mesmo sentido que entusiasmo na Grécia antiga, quer dizer, como inspiração divina que produz um estado de exaltação com a certeza de possui a verdade e o bem. Neste sentido, o fanático se crê possuído por Deus e, portanto, imune ao erro e ao mal.

Nos séculos posteriores o uso de fanatismo prevaleceu sobre entusiasmo e passou a indicar a certeza pretendida de quem fala em nome de princípios absolutos e que, por causa disso, carrega consigo a pretensão de que suas palavras sejam também absolutas.

O aparecimento do termo fanatismo pode ser traçado na história da filosofia até a antiguidade, tendo sido utilizada por Cícero para referir-se a filósofos supersticiosos. Na modernidade, o filósofo alemão Gottfried Wilhelm Leibniz utilizou esse termo para se referir à toda filosofia que atribui todos os fenômenos a Deus. Mas considera-se que a melhor definição de fanatismo foi a desenvolvida pelo também filósofo alemão Immanuel Kant. Sendo um filósofo majoritariamente preocupado com os limites da razão humana, Kant define o fanatismo, de maneira geral, como uma transgressão desses limites em nome de um ou mais princípios. No entanto, para além do fanatismo definido em termos gerais, Kant apontou também para o que denominou “fanatismo moral”, que consiste na pretensão de fazer o bem por impulso, inspiração ou entusiasmo, quer dizer, consiste em substituir a ação virtuosa, intenção moral, racional, em constante conflito com outros interesses da vontade, por uma pretensa santidade de quem acredita ser possuidor de uma perfeita pureza da vontade. Kant combate as manifestações do fanatismo moral a fim de determinar os limites dos poderes humanos e qual é sua validade dentro desses limites.

Outro filósofo alemão que se ocupou de definir o fanatismo foi Georg Wilhelm Friedrich Hegel que, diferentemente de Kant, restringiu o fanatismo aos campos político e religioso. Politicamente, o fanatismo quer uma coisa abstrata e não uma organização; no campo religioso, consiste em subordinar o Estado à religião, de modo que nenhuma lei seja imposta aos religiosos.

Referências:

DICIO. Fanatismo. Disponível em: dicio.com.br/fanatismo/. Acesso em: 17 de Jan. 2020.

ABBAGNANO, Nicola. Dicionário de filosofia. Trad. Alfredo Bosi e Ivone Castilho Benedetti. São Paulo: Martins Fontes, 2007.

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