Como americanos encaram a oratória para crianças em comparação com os brasileiros?

MBA em Comunicação Corporativa (Anhembi Morumbi, 2009)
Graduada em Fonoaudiologia (PUC-SP, 2005)

Desde muito cedo, as crianças americanas são incentivadas a falar em público e a lidar com a exposição em diferentes situações. Os pais e as instituições de ensino compreendem que é preciso ajudá-las a enfrentar a timidez e a expor suas ideias o quanto antes. As reuniões familiares, festas de aniversário, datas comemorativas e assembleias de bairro tornam-se oportunidades para os pequenos fazerem discursos e serem escutados por todos.

As escolas dos Estados Unidos têm como costume oferecer cursos de oratória em todas as etapas de ensino. Além disso, os concursos voltados para o público infantil tornaram-se uma prática tradicional. O objetivo é valorizar a arte milenar da oratória, discutir temas de relevância e treinar novas lideranças. Nessas competições, ganha quem consegue fazer o melhor discurso. Com essa motivação e reforço positivo, crianças se apresentam diante do público e descobrem habilidades antes desconhecidas.

Aos 11 e 12 anos, eles já entram em contato com discursos que repercutiram o mundo, técnicas para construir suas apresentações, organização de raciocínio, entre outros conteúdos escolares. Ao ingressarem na universidade, são matriculados em disciplinas voltadas para o tema oratória, com técnicas mais avançadas. Ou seja, durante todas as fases da vida eles estão praticando a comunicação.

Como os brasileiros lidam com oratória?

Enquanto isso, o Brasil carrega resquícios de uma cultura que acredita que a oratória é uma característica nata. Se a criança não é comunicativa quando pequena, o imaginário social brasileiro ainda acredita que não há como melhorar suas aptidões, como se oratória fosse um dom (e não uma habilidade). Esse equívoco faz com que o potencial da comunicação oral fique reservado apenas para os extrovertidos, mas é algo que pode ser aprendido por qualquer pessoa, inclusive os tímidos.

O autoconhecimento e a autoconfiança são benefícios notáveis na prática da oratória. No entanto, há muitos jovens com mentes brilhantes que sente-se incapazes de desenvolver a profissão que almeja por serem mais tímidos ou introspectivos. E isso tem um peso na hora de escolher a profissão. Quem acredita nesse pensamento costuma escolher carreiras que não envolvem competências comunicacionais, mas isso não passa de ilusão. Uma comunicação eficaz é essencial em qualquer ofício e pode ser aprendida nas várias etapas da vida.

A escola tem um papel fundamental nesse processo, mas na maioria das instituições não há qualquer tipo de preparo. Alguns colégios particulares já oferecem cursos de oratória voltados para o público infantil, porém as iniciativas são mínimas comparadas com o cenário da educação em outros países, como os Estados Unidos. Se não há uma preparação e treino, a criança não saberá a melhor maneira de apresentar um trabalho, falar em público ou defender seus argumentos, por exemplo. As técnicas de linguagem oral, postura e gesticulação ficam ignoradas.

Sem incentivo, as crianças estão sujeitas a enfrentar dificuldades na adolescência e juventude. Você já viu na sala de aula aquele que sempre deixa a função de apresentar trabalhos para o outro? É deste modo que saem ilesos da escola. No entanto, mais tarde, se deparam com os desafios de ingressar no mercado de trabalho. Sem o conhecimento adequado, provavelmente, será nessa fase que entenderão que para alavancar a carreira é preciso dominar as habilidades comunicacionais.

Americanos x brasileiros: quais as principais diferenças entre uma cultura e outra?

Pelas experiências dos dois países, percebe-se que os americanos têm mais facilidade para falar em público, pois a oratória é um conceito enraizado na cultura institucional do país e cultivado desde cedo. No Brasil, ainda há pouco incentivo dessa prática na infância. Essa diferença apenas diminuirá quando as escolas e os responsáveis compreenderem a importância de trazer a oratória para o cotidiano das crianças. Ao iniciá-las na teoria e prática, desmitifica-se a complexidade e possibilita a aproximação a partir da vivência de cada um.

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