Ácido acetilsalicílico

Graduação em Farmácia e Bioquímica (Uninove, 2010)

O ácido acetilsalicílico (AAS) é um dos medicamentos mais consumidos em todo o mundo, com produção de cerca de 40 mil toneladas por ano. Sua origem é vegetal, obtido através da Salicilina, substância extraída da casca do Salgueiro.

Fórmula estrutural plana do Ácido Acetilsalicílico.

Histórico

Já no século V a.C, Hipócrates relatou os efeitos da casca do Salgueiro, no alívio de dores e febre. O tempo passou e, embora esquecido pela ciência, o vegetal continuou a ser utilizado na medicina popular. Foi em 1763 que o reverendo inglês Edward Stone descreveu os efeitos medicinais de um pó branco extraído da casca do Salgueiro, tendo administrado aos pacientes para o alívio dos sintomas da malária. Trata-se do primeiro ensaio clínico da história da Medicina. O reverendo teve como base as descrições contidas no Papiro de Ebers, escrito em 1534 a.C, considerado o documento mais completo da medicina egípcia. Entre as preparações de ervas medicinais ali descritas, consta um tônico obtido através da casca de uma árvore, a Salix ou Tjeret, sendo então, o Salgueiro.

Em 1828, Johann Buchner isolou a substância ativa da casca do Salgueiro, apresentando-se na forma de cristais amarelados e sabor amargo, sendo chamada de Salicilina ou Salicina. Posteriormente, Rafaelle Piria obteve o ácido livre a partir da Salicina, dando-lhe o nome de ácido salicílico. Utilizado no alívio dos sintomas da artrite e gripe, o ácido salicílico causava irritações no estômago, já que eram necessárias altas doses e o composto apresenta caráter ácido. Aliado ao sabor desagradável, o ácido salicílico teve seu uso limitado.

A síntese química do composto, em laboratório, foi realizada inicialmente por Kolbe, onde passou a ser produzido em maiores quantidades e mais bem aceito pela comunidade médica. Contudo, ainda causava os sintomas de irritação gástrica na população, fato que incentivou Felix Hoffmann a estudar mecanismos para diminuir esses efeitos negativos, gerados inclusive, em seu pai. Assim, em 1897 no laboratório da empresa farmacêutica Bayer & Co, foi que Hoffmann conseguiu modificar a estrutura química do ácido salicílico, chegando ao ácido acetilsalicílico, menos tóxico e com potente efeito analgésico. O registro do fármaco pela Bayer ocorreu 1º de fevereiro de 1899, como o nome de Aspirina®, sendo o primeiro fármaco sintético da história a ser comercializado.

Mecanismo de ação

O AAS é classificado como um Anti-inflamatório Não Esteroidal (AINE), que age bloqueando a enzima cicloxigenase (COX), nas suas duas isoformas: COX-1 e COX-2. As cicloxigenases são enzimas pertencentes à cascata do ácido araquidônico, um lipídio presente na membrana plasmática das células, que é transformado em mediadores prostanóides. O bloqueio enzimático, por acetilação, resulta na inibição da biossíntese das prostaglandinas e tromboxanos.

A COX-1 é uma enzima expressa de forma constitutiva, responsável pelas funções fisiológicas. No sistema cardiovascular, a COX-1 regula a produção de tromboxanos, responsável pela agregação plaquetária e determina a vasoconstrição. Também sintetiza a prostaciclina, que ao contrário dos tromboxanos, inibe a agregação plaquetária e causa o relaxamento vascular. No sistema gastrointestinal, sintetiza a prostaglandina E2 (PGE2), que tem ação na produção do muco gástrico, importante na proteção contra a acidez e ação de enzimas.

Já a COX-2 tem a expressão acentuada em processos patológicos, por mediadores químicos produzidos por leucócitos. Sua expressão é induzida na presença de dano tecidual ou de infecções microbianas, sendo relacionadas com o desenvolvimento da resposta inflamatória. Ao produzir mediadores prostanóides, controlam as respostas relacionadas com a dor, inflamação e febre. Durante os processos inflamatórios e/ou infecciosos, os altos níveis de PGE2 resultam na elevação da temperatura, por ativação do hipotálamo no Sistema Nervoso Central (SNC).

O bloqueio da COX-2 pelo AAS está relacionado ao seu efeito analgésico, antitérmico e anti-inflamatório. Ao inibir a síntese dos tromboxanos, exerce ação antiplaquetária.

O bloqueio da COX-1 se relaciona ao principal efeito adverso do fármaco, no estômago, devido à diminuição da produção do muco gástrico.

Aplicação

Além dos efeitos já mencionados, estudos mostram que a administração de baixas doses do AAS após um acidente vascular cerebral (AVC) ou ataque cardíaco, reduz o risco de um segundo episódio do quadro. Doses de 162mg a 325mg do fármaco, administrados nas primeiras 24 horas após o infarto do miocárdio podem reduzir o risco de morte à metade.

Bibliografia:

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