Akrasia

Doutorado em andamento em Filosofia (UERJ, 2018)
Mestre em Filosofia (UERJ, 2017)
Graduado em Filosofia (UERJ, 2015)

Akrasia (em grego, a = negação e kratein = controlar ou dominar), acrasia ou sua tradução para o latim, incontinência (em latim, incontinentia), é um conceito grego que define a falta de controle de uma pessoa ou, mais especificamente, a fraqueza de vontade que alguém experimenta quando escolhe fazer algo que é contrário àquilo que considera ser melhor de acordo com o seu juízo. A akrasia é um conceito discutido dentro do campo filosófico da ética.

Este conceito foi tratado já na antiguidade pelos três maiores e mais famosos filósofos gregos: Sócrates, Platão e Aristóteles. No diálogo Protágoras, escrito por Platão, Sócrates discute com o sofista que dá nome ao diálogo a respeito da opinião popular que afirmava que uma pessoa é capaz de fazer algo mesmo sabendo que isto vai contra o que sabe ser o certo. Aí, Sócrates, seguindo seu método de perguntas e respostas para chegar a uma conclusão, simplifica o problema da akrasia reduzindo-o a conceitos opostos mais simples: bem e mal ou prazer e dor. Assim, este filósofo chega à conclusão que, se alguém sabe o que é melhor ou bom, é impossível que ela faça o que é pior ou mau. Desse modo, Sócrates nega que a akrasia possa existir.

Já no Livro IV do diálogo A República, Platão, agora mais velho e com uma reflexão filosófica mais madura, atribui a Sócrates uma compreensão diferente de akrasia, o que provavelmente reflete seu próprio entendimento do conceito. O que vemos nesse diálogo é o oposto do que fora demonstrado no diálogo referido anteriormente: aqui, Platão concebe a existência da akrasia a partir de dois exemplos: no primeiro, refletindo a respeito de uma pessoa com sede. O que uma pessoa com sede deseja fazer é beber água e, neste estado, ela julga que o melhor a fazer é beber água a fim de acabar com sua sede. Contudo, pode-se observar casos em que alguém que sede se recusa a beber água, quando, por exemplo, a água que está próxima da pessoa com sede não é boa para se beber, por estar suja. O outro exemplo narra a história de um certo Leôncio, filho de Agláion. Nesta história, Leôncio, ao saber que havia cadáveres perto de um carrasco, desejou vê-los, mesmo lhe sendo insuportável tal visão. Por fim, após passar algum tempo lutando consigo mesmo quanto a esse desejo, Leôncio foi olhar os cadáveres. Aqui podemos ver que Platão discorda de seu mestre, Sócrates, e afirma a existência da akrasia.

Por fim, Aristóteles, discípulo de Platão, no Livro VII de sua Ética a Nicômaco afirma a existência da akrasia trazendo reflexões mais complexas sobre o tema, além de, abertamente, tecer uma breve crítica à compreensão socrática. Nesta obra, Aristóteles considera a possibilidade de que alguém que age de modo akrático não pensa que deva agir assim até o momento da ação. Considera também que tal pessoa, dominada por seus prazeres, não age por conhecimento mas, sim, por opinião, que pode ter uma convicção fraca, que não consegue resistir a tais desejos. De todo modo, este discípulo de Platão afirma que a akrasia pode ser evidentemente observada no comportamento humano.

Pode-se certamente dar razão a Aristóteles e ao velho Platão quanto à clara existência da akrasia, pois ela é bastante comum nos dias atuais. Um exemplo corrente diz respeito ao desejo de alguém comer uma barra inteira de chocolate quando está de dieta. Mesmo sabendo que o chocolate fará mal à saúde e que irá atrapalhar seu processo de emagrecimento, não são poucas as vezes que alguém cede a um desejo tão irresistível.

REFERÊNCIAS:

ARISTÓTELES. Ética a Nicômaco. Em: Coleção Os pensadores. Tradução de Leonel Vallandro e Gerd Bornheim da versão inglesa de W.D. Rosá. São Paulo: Abril S/A Cultural e Industrial, 1973.

AUDI, Robert. The Cambridge Dictionary of Philosophy. New York: Cambridge University Press, 1999.

BUNNIN, Nicholas; YU, Jiyuan. The Blackwell Dictionary of Western Philosophy. Oxford: Blackwell Publishing, 2004.

PLATÃO. A República. Tradução e notas de Maria Helena da Rocha Pereira. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 2010.

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