Argumentum ad Temperantiam

Doutorado em andamento em Filosofia (UERJ, 2018)
Mestre em Filosofia (UERJ, 2017)
Graduado em Filosofia (UERJ, 2015)

A moderação é popularmente encarada como o caminho para a sabedoria. Da “mediania” de Aristóteles até as cartas bíblicas do apóstolo São Paulo podemos encontrar recomendações em direção à moderação. Contudo, há casos em que não é sábio querer estar no meio termo. Em discussões a respeito da ditadura nazista na Alemanha, se um a arguidor afirma que o nazismo foi justo e seu oponente assumir a posição contrária, apontando as injustiças cometidas por Hitler e seus seguidores, não é coerente afirmar que aquele regime não foi bom nem ruim, tampouco comprova que essa afirmação é mais verdadeira do que as outras duas. Assumir esse tipo de moderação em uma discussão é o que costuma chamar-se de Argumentum ad Temperantiam.

O Argumentum ad Temperantiam (argumento ou apelo à moderação, em latim) é uma falácia que consiste em afirmar que o meio termo, ou seja, a moderação entre duas posições consideradas extremas, é a melhor solução para uma discussão. No entanto, pode-se perceber que este nem sempre é o caso no exemplo abaixo:

  • A – O céu é azul.
  • B – Não. O céu é vermelho!
  • C – Amigos, vocês são muito extremistas! O céu é lilás!

Diante das posições opostas defendidas por A e B, C, julgando ser a solução para a discussão, afirma que o céu é lilás, pois esta cor é a mistura entre azul e vermelho e, portanto, é seu meio termo. Neste caso, é claro que A estava com a razão e alguém que desejasse apontar a verdade, deveria lhe dar suporte apontando as evidências lógicas que demonstram que o céu é azul.

Há uma famosa narrativa bíblica que cabe perfeitamente como outro exemplo de Argumentum ad Temperantiam. Duas mulheres dirigiram-se ao rei Salomão a fim de alcançar a solução para o seguinte problema: ambas afirmavam ser a verdadeira mãe de uma criança e estavam brigando sobre quem deveria ficar com a ela. O rei Salomão apresentou a seguinte solução: partir o bebê ao meio. Assim, resolveria-se o problema, pois ambas poderiam ter a criança, cada uma a sua metade. No final, a criança não foi cerrada ao meio, mas esta história ilustra bem o problema de se recorrer à moderação irrefletidamente para resolver um problema: ela não é suficiente para comprovar algum tipo de verdade.

Obviamente, no que diz respeito a uma discussão em que o que está em jogo é uma decisão a ser tomada, defender uma posição moderada pode ser um excelente recurso para que se chegue a uma solução que contemple as partes envolvidas, todos os tipos de relações humanas chegam a um ponto em que isto é necessário. No entanto, nos casos em que o que está em jogo é uma verdade, por exemplo, científica, a solução deve ter caráter matemático, quer dizer, deve-se tomar, radicalmente, um lado. Por exemplo:

  • A – Obviamente, 2+2 é igual a 4.
  • B – Creio que não. Acredito que 2+2=6.
  • C – Acho que não é bom sermos tão extremos. Certamente 2+2=5.

Neste caso, A está claramente com a razão e possui evidências matemáticas para tal. B está obviamente errado e uma conciliação, como a proposta por C, incorre no mesmo erro.

O Argumentum ad Temperantiam é uma falácia porque, mesmo que o argumentador tenha boas intenções para resolver o conflito, ele não serve como nem apresenta evidências que comprovem a verdade. Deste modo, deve ser evitado por qualquer pessoa deseje honestamente defender uma posição.

Referências:

ADAM SMITH. Logical Fallacies – Argumentum ad Temperantiam. Disponível em: https://youtu.be/eQRbkon7R6Y. Acesso em: 21 de nov. 2019.

RELIGIONS WIKI. Argumentum ad Temperantiam. Disponível em: https://religions.wiki/index.php/Argumentum_ad_temperantiam. Acesso em: 21 de nov. 2019.

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