Falácia da composição

Doutorado em andamento em Filosofia (UERJ, 2018)
Mestre em Filosofia (UERJ, 2017)
Graduado em Filosofia (UERJ, 2015)

A falácia da composição (fallacy of composition, em inglês) é um exemplo de falácia da ambiguidade e, portanto, um tipo de falácia não-formal. Ela acontece quando, em uma argumentação, um dos envolvidos em uma discussão toma o todo pela parte, ou seja, assume que se algumas partes de um todo detém uma certa característica, o todo possui necessariamente a mesma característica. Por exemplo: se todas as peças de uma máquina são leves, logo, esta máquina é uma máquina leve. Este argumento é falacioso porque claramente pode-se ter uma máquina que é pesada justamente por possuir um número considerável de peças leves. Outro exemplo de argumentação possível para este tipo de falácia afirma que se todos os membros de um determinado grupo possuem uma certa qualidade, o grupo possui aquela qualidade. Por exemplo: se todos os cidadãos alemães pagam todas as suas dívidas, logo, a Alemanha paga todas as suas dívidas.

A falácia presente nos exemplos acima é clara. No entanto, deve-se ter em mente que nem sempre a falácia da composição, bem como qualquer outra falácia, aparece de maneira tão facilmente identificável. Veja-se o seguinte exemplo: cada um dos soldados está devidamente preparado para a batalha. Por consequência, o batalhão está devidamente preparado para a batalha. Em um primeiro momento, é comum acreditar que se cada indivíduo está pronto para uma batalha, eles estão preparados para lutar como um grupo. Contudo, este modo de reflexão deixa de considerar elementos que são próprios do trabalho em equipe necessário para uma batalha mas que não o são de cada soldado individual, como a organização do grupo, as estratégias de combate e a divisão de tarefas entre os membros do batalhão.

Para que se possa compreender melhor a natureza da falácia da composição, pode-se aqui recorrer a exemplos mais próximos das discussões cotidianas. Veja-se o seguinte exemplo:

Todos os escalados para a final a ser disputada pelo Flamengo são excelentes jogadores. Logo, o time está em excelentes condições para a partida.

Na argumentação acima, o fato de cada jogador ser excelente é transferido para o time inteiro, de modo a se considerar que se cada um está bem preparado, o time como um todo está bem preparado. Contudo, esta crença pode não ser verdadeira, tendo em vista que o time pode ser liderado por um mal treinador ou que cada jogador não tenha o devido entrosamento com os outros. Este caso é o mesmo caso do exemplo do batalhão apresentado no parágrafo anterior.

É, todavia, importante destacar que tais afirmações podem ser verdadeiras, quer dizer, que de fato um time ou um batalhão pode estar bem preparado devido ao fato de os jogadores e os soldados estarem bem preparados. É esta possibilidade que faz com que a falácia da composição seja uma falácia não-formal, quer dizer, é pela análise de seu conteúdo que se pode identificar se ela é ou não uma falácia e não pela análise de sua mera forma.

A falácia da composição caminha de mãos dadas com seu inverso, a falácia da divisão (fallacy of division, em inglês), que consiste em seu exato oposto, quer dizer, afirma que se um todo possui uma certa característica, logo, todas as suas partes possuem a mesma característica. Pode-se utilizar como exemplo dessa falácia o inverso de um dos exemplos citados no primeiro parágrafo, a crença de que, se uma máquina é pesada, logo, todas as peças que compõem essa máquina também são pesadas. Esta é uma crença falaciosa porque, claramente, uma máquina pesada pode ser composta por um grande número de peças leves que, por sua quantidade, tornam tal máquina pesada.

Referências:

BUNNIN, Nicholas; YU, Jiyuan. The Blackwell Dictionary of Western Philosophy. Oxford: Blackwell Publishing, 2004.

COPI, Irving M. Introdução à Lógica. Tradução de Álvaro Cabral. São Paulo: Mestre Jou, 1974.

HURLEY, Patrick J. A Concise Introduction to Logic. California: Wadsworth/Thomson Learning, 2000.

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