Metaética

Mestre em Filosofia (UFRJ, 2012)
Especialista em Planejamento, Implementação e Gestão da Educação (UFF, 2015)
Graduado em Filosofia (UFRJ, 2010)

A Metaética é o campo da Ética que consiste em uma investigação e descrição das práticas morais. Ao usarmos palavras como ‘errado’, ‘permitido’ e outras em sentido moral, qual é exatamente o sentido dessas palavras? Quando praticamos uma ação considerada ‘boa’, que elementos a justificam como ‘boa’? Seria a obrigação moral apenas fruto de um processo de construção histórico-social? Muitas dessas questões apontam para a reflexão filosófica implementada por estudos em Metaética.

Essas investigações não pretendem estabelecer critérios para distinguir o moralmente correto do moralmente errado -- o que seria o objetivo das Teorias Morais, como as de Aristóteles e Immanuel Kant -- mas pretendem oferecer suporte racional para que possamos escolher entre as diversas alternativas. Por exemplo, se a análise do comportamento moral nos levar a concluir que a Moralidade é uma questão mais emotiva do que racional, teríamos razões para escolher Teorias Morais que priorizam os sentimentos como fundamento explicativo do agir moral.

Os estudos realizados em Metaética consistem em questionamentos não morais e são compostas por um conjunto de teses metafísicas, semânticas e epistemológicas. A linguagem moral relaciona situações, pensamentos e atos a valores morais, como em “Praticar bullying é errado”, mas podemos nos questionar sobre se esses usos representam uma verdade ou se expressam sentimentos quanto ao que avaliamos.

Embora a Ética seja entendida como um estudo do campo prático, a Metaética é um estudo mais abstrato e teórico. Em todo caso, é um estudo que se seguiu, historicamente, do debate entre as Teorias Morais e pretende não apenas esclarecer a linguagem moral, mas também especificar o que são os valores morais. Vestígios do que hoje chamamos de Metaética são encontrados em toda a história da Filosofia, como na defesa de que a Justiça seria o que é conveniente ao mais forte, feita por Trasímaco ou na argumentação de David Hume sobre a impossibilidade de inferir julgamentos morais de fatos naturais.

Apesar de muitos filósofos terem refletido sobre a natureza dos valores morais e da justificação do comportamento moral, esse campo de investigação começa a se estabelecer propriamente após a publicação de Principia Ethica (1903), de George Edward Moore. Esse filósofo considerou que a pergunta pelo o que é realmente ‘bom’, em sentido moral, e não em outros sentidos, como o de utilidade, nos levaria a eliminar qualquer resposta com origem em ciências naturais, como a Biologia, a Psicologia e outras.

Qualquer tentativa de resposta, como dizer que ‘bom’ é a maximização do bem-estar social, pode ser questionada, pois essa identificação ainda não explica completamente o que é para algo ser moralmente bom.

“É certo que todos entendem a pergunta ‘Isso é bom?’. Quando pensam sobre ela, o estado da mente é diferente do que seria se fossem perguntados ‘Isso é prazeroso, desejável ou aprovado?’. Essas perguntas possuem um sentido diferente a todos embora não possamos reconhecer em que aspecto são distintas. Quando pensam em um ‘valor intrínseco’ ou em ‘dignidade intrínseca”, ou dizem que algo ‘deveria existir’, têm diante de suas mentes o único objeto - a única propriedade das coisas - a que eu chamo de ‘bom’. Todo mundo está constantemente consciente dessa noção, embora jamais possamos nos tornar nem um pouco conscientes de que isso é diferente de outras noções das quais também somos conscientes.” (MOORE, 1993, p. 68, tradução nossa)

Desde Principia Ethica, os estudos metaéticos estiveram mais relacionados à Filosofia analítica e os filósofos que tentaram explicar a natureza dos valores morais e dos conceitos morais dividem-se em naturalistas, que aceitam uma explicação do comportamento moral por via natural, a saber, localizando o fundamento dos valores morais nos sentimentos, nos acordos sociais ou na cultura, e aqueles que rejeitam essa relação estreita entre aquilo que é obrigatório ou o que se deve fazer, pensar e/ou acreditar e explicações que dependem diretamente das decisões e escolhas do homem. Estes últimos propõem, assim, que, embora haja moralidade porque os humanos existem, não podemos dizer que o certo e o errado sejam simplesmente suas invenções.

Bibliografia:

ROOJEN, Mark van. Metaethics: A Contemporary Introduction. New York: Routledge, 2015. (Routledge Contemporary Introductions to Philosophy)

MOORE, G. E. Principia Ethica, rev. ed. Cambridge: Cambridge University Press, 1993.

SHAFER-LANDAU, Russ. Moral Realism: A Defence. Oxford: Clarendon Press, 2003.

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