Teorias coerentistas

Mestre em Filosofia (UFRJ, 2012)
Especialista em Planejamento, Implementação e Gestão da Educação (UFF, 2015)
Graduado em Filosofia (UFRJ, 2010)

Como uma teoria sobre os critérios que determinam o que é ou não ‘verdade’, o coerentismo é uma alternativa à teoria da correspondência. Ambas apresentam detalhes diferentes para a relação entre crenças, proposições ou proferimentos e suas condições de verdade. Basicamente, os coerentistas afirmam que nossas crenças são verdadeiras na medida em que participam de um conjunto de crenças coerentes, enquanto que as teorias da correspondência estabelecem relações entre o que queremos saber se é falso ou não e fatos ou estados de coisas, a saber, estados nos quais o mundo se encontra ou suas qualidades objetivas.

O nome ‘teoria da correspondência’ surge no início do séc. XX, junto com o desenvolvimento dos estudos em filosofia analítica, apesar de encontrarmos desenvolvimentos de alguns elementos básicos dessa teoria na história da Filosofia. Em sua forma mais simples, propõe que aquilo que acreditamos corresponde a fatos e não depende unicamente dos conteúdos das nossas crenças.

Se há um campo verde diante de mim não é uma questão dos estados da minha mente. Parece ser uma questão objetiva independente da mente de qualquer pessoa e o verde parece estar presente ou não sem que tenha importância se acreditamos que esteja. De fato, se minha crença for verdadeira isso é determinado pelo fato de o campo realmente estar ali; a verdade de tais crenças observacionais dependem da realidade externa, o que por sua vez não depende do que acreditamos.” (AUDI, 2003, p.286-287, tradução nossa)

O coerentismo começa a ser desenvolvido com os estudos de Francis Bradley (1846–1924) e Brand Blanshard (1892-1987) como uma teoria que determina a verdade por coerência com grupos de crenças coerentes - e há várias formas de especificar no que consiste essa coerência. Já que a teoria abandona a correspondência com os fatos, acabou sendo criticada como uma forma de idealismo. As crenças de uma pessoa são contrastadas apenas internamente, a conjuntos de crenças, e não com algo exterior a esses conjuntos.

Apesar de não ser mais tão defendida como uma teoria sobre a verdade, a teoria coerentista tem sido aplicada como uma teoria sobre o conhecimento, a saber, que a única opção de justificação que nossas crenças possuem é a relação de coerência com outras crenças. Essa proposta surge como tentativa de resposta ao problema do regresso infinito, e consiste em abandonar a ideia de que as crenças que justificam, ultimamente, nossas crenças mais comuns possam ser básicas ou fundacionais, ou seja, que sejam capazes de justificar a si mesmas - o que seria a única opção para impedir o regresso. Podemos interpretar a totalidade do que acreditamos como um conjunto de crenças que mantêm entre si apoio mútuo, assemelhando-se a uma estrutura circular, pois em algum momento na cadeia de explicações de alguma crença, podemos nos deparar com alguma razão oferecida anteriormente.

Geoffrey Sayre-McCord (1985) interpreta a coerência como sendo constituída de consistência, conectividade e compreensibilidade. As crenças necessitam estabelecer relações lógicas e semânticas, além de ser possível inferir cada uma das crenças das demais crenças no conjunto. Já que ninguém possui um sistema de crenças perfeito e totalmente coerente, essas relações são pensadas também como regras de inferências em subconjuntos de crenças, o que torna possível explicar o equívoco ou erro em algumas crenças sem que todo o conjunto seja avaliado como incoerente.

David Brink (1989) comenta que em situações do cotidiano não procuramos pelo fundamento das nossas crenças de modo sistemático, pois consideramos muitas das nossas crenças justificadas. Caso fôssemos aplicar seriamente uma investigação, perceberíamos que nossas crenças mantêm relações de coerência umas com as outras e que a única possibilidade de fundamentar nossas crenças é lançar mão de outras crenças que possuímos.

Referências bibliográficas:

AUDI, Robert. Epistemology: A Contemporary Introduction to the Theory of Knowledge. 3ª ed. New York: Routledge, 2011. (Routledge Contemporary Introductions to Philosophy)

BRINK, David O. Moral Realism and the Foundations of Ethics. Cambridge: Cambridge University Press, 1989.

SAYRE-MCCORD, Geoffrey. Coherence and Models for Moral Theorizing. Pacific Philosophical Quarterly, v. 66, n. 1-2, jan-apr. 1985, p. 170-190.

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