Tipos de conhecimento

Doutorado em andamento em Filosofia (UERJ, 2018)
Mestre em Filosofia (UERJ, 2017)
Graduado em Filosofia (UERJ, 2015)

O conhecimento é o principal objeto de estudo da disciplina conhecida como epistemologia (do grego, Episteme = conhecimento e Logos = discurso, razão ou explicação), de modo que todas as coisas a respeito das quais a epistemologia estuda giram, necessariamente, em torno do conhecimento. A epistemologia nada mais é, portanto, do que uma investigação sistemática do conhecimento, sua natureza, suas possibilidades, a que ele diz respeito e, por fim, dos tipos de conhecimento. De maneira mais popular, em relação ao chamado senso comum, os tipos de conhecimento são frequentemente divididos em diferentes campos do conhecimento, sendo estes, em sua grande maioria, relacionados às diferentes ciências. Pode-se, nesse sentido, apontar a física, a química e a biologia como um tipo de conhecimento, bem como a teologia, os estudos de línguas e também, em certo sentido, a filosofia.

Contudo, dentro do campo específico da filosofia, os tipos de conhecimento apresentados pela epistemologia são diferentes desses apresentados acima. Enquanto os tipos de conhecimento apresentados como campos científicos dizem mais respeito a diferentes áreas de estudo, os tipos de conhecimento determinados e estudados pela epistemologia dizem respeito às maneiras como a mente humana é capaz de adquirir o conhecimento a respeito de algo. Ou seja, enquanto os tipos de conhecimento das ciências dizem respeito a “o que” se conhece, os da epistemologia dizem respeito a “como” se conhece algo.

São diversos os tipos de conhecimentos identificados pelos estudos epistemológicos, assim como são, também, diversas as controvérsias que estão relacionadas a esses tipos de conhecimento. Este artigo visa apresentar e discorrer a respeito desses tipos de conhecimento.

Conhecimento explícito e conhecimento tácito

O conhecimento explícito é o tipo de conhecimento auto-consciente, quer dizer, é o conhecimento em que o sujeito conhecedor sabe que tem esse conhecimento, ou seja, tem consciência dele em todas as suas questões relevantes. Um exemplo simples de conhecimento explícito é aquele que todo ser humano psicologicamente saudável possui quanto, por exemplo, escova seus dentes: ele sabe que tem em suas mãos uma escova de dentes e que a esfrega em sua boca.

Por outro lado, o conhecimento tácito é o conhecimento implícito, que está escondido da consciência, apesar de se poder tomar consciência dele a partir de uma reflexão adequada. Pode-se exemplificar coerentemente o conhecimento tácito comparando-o com certos estados psicológicos: uma pessoa pode estar triste ou feliz e, contudo, não estar consciente de se encontrar em um destes estados, ainda que ela possa ter consciência de objetos relacionados com esses estados, como saber que está sorrindo ou chorando, ou seja, alguém pode estar rindo ou chorando mas não saber por que ri ou chora.

Conhecimento proposicional e conhecimento não-proposicional

O conhecimento proposicional é o conhecimento de que algum objeto específico possui certas propriedades. Pode-se dizer a respeito dele que é um conhecimento direto, onde se apresenta uma proposição a respeito de algo, como quando se propõe que uma pedra que alguém tem em mãos é redonda ou pontuda. Este conhecimento pode ser empírico (a posteriori), adquirido através da experiência, ou não-empírico (a priori), adquirido exclusivamente pela razão através da reflexão.

O conhecimento não-proposicional, por outro lado, é o conhecimento de algo, mas de forma indireta, por familiaridade com alguma outra coisa ou por intuição, por exemplo.

Conhecimento por familiaridade e conhecimento por descrição

A distinção entre essas duas formas de conhecimento foi estabelecida pelo filósofo inglês Bertrand Russell (1872 – 1970). De acordo com Russell, o conhecimento por familiaridade é uma espécie de relação de consciência direta entre o sujeito que conhece e o objeto conhecido. Isso quer dizer que o sujeito que conhece adquire esse conhecimento dos objetos sem a mediação de nenhum procedimento lógico e sem nenhum conhecimento da verdade. Os objetos do conhecimento por familiaridade dizem respeito a particularidades do indivíduo, como os dados apreendidos por seus sentidos, suas memórias e sua própria consciência da existência das coisas, e também a algumas coisas universais, como as características que definem uma cor (o que se poderia chamar de “vermelhidão”, por exemplo) e a ideia de “redondo”.

Já o conhecimento por descrição diz respeito a coisas como os objetos físicos e a personalidade ou modo de pensar de outras pessoas. Aqui, a descrição é dividida por Russell em duas: a descrição ambígua, quando se diz que “uma coisa é de certa forma”, e a descrição direta, quando se diz que “aquela coisa é de certa forma”.

Russell afirma, ainda, que o conhecimento por familiaridade é o conhecimento de coisas, enquanto o conhecimento por descrição é o conhecimento de verdades.

Conhecimento de re, de se e de dicto

Estas três formas de conhecimento estão, de certa forma, interligadas. São formas de conhecimento semelhantes, mas que possuem objetos distintos. O conhecimento de re (em latim, conhecimento de algo ou sobre algo) diz respeito a um objeto de conhecimento determinado. Por exemplo: a bola está sobre a mesa. Sabe-se, portanto, que há um objeto sobre a mesa e que este objeto é uma bola. O conhecimento de se (de si, em latim) está relacionado com a própria pessoa que conhece. É o tipo de conhecimento representado por expressões como “eu sou” ou “eu tenho”. Um exemplo de conhecimento de se: Eu sou jogador de futebol. Eu tenho uma bola em minhas mãos. Por fim, o conhecimento de dicto (em latim, conhecimento da declaração) diz respeito a um fato ou a uma proposição, não necessariamente a um objeto específico. Assim, pode-se dizer “há um objeto sobre a mesa”. O ouvinte saberá que há algo sobre a mesa mas não sabe que é uma bola, por exemplo.

Referências:

AUDI, Robert. The Cambridge Dictionary of Philosophy. New York: Cambridge University Press, 1999.

BUNNIN, Nicholas; YU, Jiyuan. The Blackwell Dictionary of Western Philosophy. Oxford: Blackwell Publishing, 2004.

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