Paródia

Mestra em Literatura e Crítica Literária (PUC-SP, 2012)
Graduada em Letras (PUC-SP, 2008)

Publicado em 21/02/2019

A paródia é um mecanismo da linguagem literária empregada desde a antiguidade clássica. Hegeon de Thaso, no século V a.C, representa a humanidade a partir da perspectiva da inferioridade e não da superioridade, como era comum nas grandes epopeias. Assim, o escritor grego insere em sua escrita o elemento da inversão.

No tocante à sua etimologia, o termo paródia vem do grego para (contra ou ao longo de) e odos (canto). Alguns teóricos vinculam o procedimento ao sentido de oposição, para eles parodiar significa ir contra, opor-se e zombar do texto parodiado. Outra vertente teórica acredita que parodiar significa estar ao longo de, a partir de uma repetição diferenciada entre os textos. Isso quer dizer que o texto parodiado se torna uma espécie extensão de si mesmo, mas de maneira atualizada.

Tudo indica que a carnavalização na Idade Média contribuiu para a difusão e a ampliação do procedimento paródico. Afinal, as manifestações carnavalescas são responsáveis por instaurar um mundo invertido no qual o sagrado perde espaço para o profano, a seriedade cotidiana perde espaço para a brincadeira e o riso, a própria ação de se fantasiar ou usar máscara é uma espécie de inversão identitária, permitindo que o folião seja uma paródia de si mesmo.

A paródia é o produto da desconstrução da realidade para a sua futura, ou imediata, reconstrução. E, sendo um efeito de linguagem que propõe uma nova forma de olhar e ler a realidade, esse mecanismo linguístico tem sido cada vez mais incorporado nas produções literárias contemporâneas.

Isso se deve ao rumo que o conceito tomou porque se a paródia nasce atrelada à sátira na contribuição da malícia, do escárnio e da ridicularização, entre os séculos XIX e XX a definição de paródia alcança outro nível, infiltrando-se nas camadas críticas dos textos.

A paródia configura textos de caráter duplo ao retomar o texto parodiado e o inverter ou negar, geralmente trazendo à tona a lacuna, isto é, o que o outro texto deixou de dizer. Desta forma, é imprescindível que o leitor (ou o público) perceba que o texto parodiado trabalha com as ruínas do texto que usa como fonte parodística; o rastro do texto original precisa emergir na superfície da parodização, pois, só desta forma a paródia é concretizada no processo dialogal entre produção e recepção artísticas.

Na contemporaneidade, pode-se pensar que os memes despontam como representantes legítimos da paródia no meio virtual, uma vez que pelos memes (imagens, vídeos, gifs, textos, entre outros) há a “imitação” da realidade e a sua inversão, seja ela cômica ou crítica.

Paródia na prática:

Texto Original (trecho)

Canção Do Exílio, de Gonçalves Dias
Minha terra tem palmeiras,
Onde canta o Sabiá;
As aves, que aqui gorjeiam,
Não gorjeiam como lá.
[...]

Paródia

Meme / Paródia

Disponível em: Instagram / artesdepressao

Os originais de referência para o meme são os quadros O Grito, de Edvard Munch e Mona Lisa ou A Gioconda, de Leonardo Da Vinci. Além da parodística cômica, o conjunto imagem e texto inserem o meme na vertente da paródia crítica.

Referências:

ALAVARCE, Camila da Silva. A ironia e suas refrações: um estudo sobre a dissonância na paródia e no riso, 2008, 120f. Tese (Doutorado em Estudos Literários). UNESP, Araraquara, 2008.

RODRIGUES, Sergio Manoel. Carnavalização e paródia em Álbum de Família, de Nelson Rodrigues, 2008, 120f. Dissertação (Mestrado em Literatura e Crítica Literária). PUC-SP, São Paulo, 2008.

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