Freemartins

Já  no século I era sabido que a maioria das bezerras gêmeas de bezerros machos eram estéreis. Tais fêmeas são chamadas de freemartins. Desde então, esta mesma condição tem sido reconhecida em outras espécies e o termo freemartin é agora usado para descrever as fêmeas estéreis nascidas gêmeas de um macho em qualquer espécie.

Quando um indivíduo recebe células de outro, ele terá duas populações de células, cada uma oriunda de uma fonte diferente. Diz-se que tais indivíduos são quiméricos. No caso dos freemartins, há uma fusão dos córions dos dois embriões e uma anastomose de seus vasos sanguíneos (chamada anastomose vascular). O resultado é uma troca de células hematopoiéticas, que permanecerão ativas pelo resto da vida do animal. Deste modo, cada gêmeo é quimérico quanto aos eritrócitos e aos leucócitos. Isso significa que cada um apresenta seus próprios grupos sanguíneos e mais os de seu irmão gêmeo.

Como os cromossomos são facilmente observados nos leucócitos, segue-se que, em gêmeos de sexos distintos, as duas populações de leucócitos podem ser facilmente distinguidas através de seus cromossomos sexuais: os derivados das células hematopoiéticas masculinas são XY e os derivados das femininas são XX. A existência dessas duas populações diferentes de leucócitos recebe o nome de quimerismo XX/XY.

Normalmente, o cariótipo dos leucócitos indica o cariótipo de todas as outras células de um indivíduo. Porém, em gêmeos cujos córions são fundidos, isto não é assim. De fato, os eritrócitos e os leucócitos são as únicas células que apresentam evidências convincentes de quimerismo após anastomose vascular; todas as outras células de uma gêmea são XX e de um gêmeo são XY. Do mesmo modo, as células sanguíneas podem causar confusão quando se examina o genótipo dos indivíduos com tecnologia bioquímica ou de DNA, porque estas células tanto podem ter o genótipo do irmão gêmeo do indivíduos como o genótipo dele mesmo.

O resultado final da anastomose vascular é a tolerância ao homoenxerto, que é a capacidade de um dos gêmeos de aceitar um enxerto de pele ou outro tecido do outro gêmeo sem mostrar qualquer sinal de rejeição.

Nas fêmeas que são gêmeas de um macho, os principais efeitos são verificados nas gônadas e no trato reprodutivo. Até o 60° dia de vida fetal em bovinos, as gônadas femininas parecem se desenvolver normalmente. A partir deste momento o desenvolvimento é “masculinizado” numa proporção que varia consideravelmente de fêmea para fêmea. Em um extremo, as gônadas se desenvolvem em ovários aparentemente normais, capazes de ovular. No outro extremo, às vezes as gônadas se desenvolvem em minúsculos testículos.  Na maioria dos casos, o resultado é que uma ou ambas as gônadas são classificadas como ovotestis, contendo tecido ovariano e testicular.

As genitálias externas normalmente são como as de fêmeas normais, exceto quanto ao clitóris, que frequentemente está aumentado. Internamente, há uma tendência à repressão dos derivados dos dutos mullerianos (trompas uterinas, útero, cérvix e a porção superior da vagina) e superdesenvolvimento dos derivados dos dutos wolffianos (epidídimo, vasos deferentes e vesícula seminal). Dependendo do grau de alteração do desenvolvimento normal, o trato reprodutivo interno varia de mais ou menos feminino normal a mais ou menos masculino normal.

A anastomose vascular entre gêmeos de sexos distintos tem pouco ou nenhum efeito sobre estrutura da gônada e do trato reprodutivo dos machos; sua estrutura é normal. Há, entretanto, um efeito sobre a capacidade reprodutiva, com diminuição da mobilidade e da concentração dos espermatozóides.

Em bovinos, a probabilidade de ocorrer anastomose vascular entre gêmeos é muito alta, aproximadamente 90%. Como esta anastomose quase invariavelmente leva a esterilidade da fêmea nos gêmeos de sexos diferentes, resulta que cerca de 90% de todas as bezerras que são gêmeas de um macho são freemartins.

Já  foram constatados freemartins no cervo vermelho, cabra, porco, ovelha e no carneiro selvagem das Montanhas Rochosas, mas em todos os casos a incidência é muito menor do que em bovinos.

O modo mais efetivo de averiguar se uma bezerra que é gêmea de um macho tem probabilidade de ser freemartin é procurar pelo quimerismo XX/XY. Como alguns freemartins têm apenas uma pequena proporção de leucócitos XY, a eficiência desse diagnóstico aumenta com o número de células examinadas de cada fêmea suspeita. Há pouco tempo, foram desenvolvidas técnicas moleculares para diagnósticas freemartins. Por exemplo, análise Southern com um fragmento clonado de cromossomo Y ou amplificação de um segmento do cromossomo Y por PCR podem ser usadas para detectar células XY.

Fontes:
Introdução à  genética veterinária - F. W. Nicholas, 1999.
http://www.medigraphic.com/pdfs/vetmex/vm-2000/vm004g.pdf

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